Quinta-feira, Janeiro 12

Ao lado

Vão sentados no chamado "lugar do morto" ou "pendurados" ao lado do condutor e, ao contrário do que por vezes possa parecer, esse lado não vem equipado com travões nem volante. Sabem certamente a quem me refiro, ás passageiras e passageiros que transportamos na nossa viatura e que, por nervinhos, por vício ou necessidade, nos irritam durante a condução (seja ela cautelosa, ou brusca): não encostes tanto à direita, trava, passa o sinal, olha a curva, não viste o sinal, mais devagar, mais depressa, cuidado com o camião, não ultrapasses, passa agora, olha a berma, isto, aquilo e outro, coisas que enervam quem conduz, que irritam quem vai ao volante e que pressionam quem necessita de estar concentrado. Em suma, viagens maçadoras e perturbadoras também para quem viaja no banco de trás.
Curiosamente, muitos destes "penduras" (que nem um mapa sabem ler), não têm sequer a carta de condução; são uns auto-didactas da estrada, uns opinativos compulsivos, gente que não sabe estar calada e que trava e acelera em pedais invisíveis, ultrapassa e buzina ao lado do condutor, em vez do condutor, com o condutor.
Em boa verdade, tenho tido sorte. À excepção de um ou outro metediç@, não se metem no meu caminho. Um suspiro ou outro de impaciência, vá lá, mas nada mais que isso. Conduzo devagar, devagarinho, mas isso são coisas minhas e pronto e, por inerência, sou uma passageira silenciosa. Quando tenho cagufa de ir com determinadas pessoas, não vou. Clarinho como água. Era o que faltava viajar (ainda mais) com o coração aos saltos.
Já agora, uma observação inteligente: uma coisa são os opinativos-compulsivos, outra bem diferente são as verdadeiras ajudas "à pendura", informações bem dadas e não gritadas, estilo guinchar em cima de um cruzamento "corta à esquerda".
Estacionar o carro, apagar as luzes e desligar o motor; tenho dito.
(Para que serve esta 6ª velocidade?)

Quarta-feira, Janeiro 11

Palavra do ano

Não foi esmiuçar, nem vuvuzela, nem troika, nem sequer austeridade. A palavra do ano neste blog foi até breve.

Segunda-feira, Janeiro 9

Hora marcada


Que é como quem diz, apanhar o comboio.
(Peter Allen-Fly away)

Sexta-feira, Janeiro 6

Janeiras

Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra

Quinta-feira, Janeiro 5


Um blog a seguir de pertinho. Não são ondas, mas grandes vagas de prosa enxuta e bem pensada.
Seja bem vindo a estas terras cor de caril.

Segunda-feira, Janeiro 2

A galinhola por dama de companhia


Estava a linda galinhola posta em sossego em cima de umas pedras, debicando bicharada por entre a vegetação, um brunch tardio que tanto apreciava desde que se tinha mudado para aquelas terras baixas. Ao longe ouvia os caçadores, aqueles malandros aos tiros e os cães a ladrar. Por aquelas alturas do ano não davam descanso aos seus vizinhos de quatro patas, fossem coelhos ou lebres; safavam-se os tordos lá no alto, que ainda não era tempo do chumbo, mas não perdiam pela demora, que os homens com as armas haveriam de voltar; estavam de olho neles, os tordos de plumagem negra e de papo cheio das colheitas.
"Gostam de galinholas, estes bacanos? Pois vão vê-las aos quadros da Gulbenkian, com paredes cheias de naturezas mortas!! Comprem vistalegres decorativas, se gostam assim tanto de nós: antes em cima dos móveis do que nos vossos estômagos, desgraçados. Leiam S. Francisco de Assis. Pois não sabem eles que "Todas as coisas da criação são filhos do Pai e irmãos do homem... Deus quer que ajudemos os animais...,Não te envergonhes se, às vezes, os animais estejam mais próximos de ti do que as pessoas. Eles também são teus irmãos".
Desconfio que dos franciscanos só conhecem aquele frade simpático que anda de mercedes e curte touradas. Mas certamente se recordam da nossa irmã Brigitte Bardot. E que disse ela? " Eu dei a minha beleza e a minha juventude aos homens. Agora dou a minha sabedoria e a minha experiência aos animais." Ponhan aqui os olhos nesta frase, que já de nada vale olharem para aquele corpo que em tempos idos foi o mais fantástico de todos os mundos.
O melhor é agachar-me, muda e queda, que os ouço aproximar. Para nos moerem o juízo sabem acordar cedo, estes marmanjos. Para os empregos, ai ai, que sono temos. Desapareçam, que têm as lancheiras com boa comida e melhor bebida. Em casa pode ser que vos cheguem a roupa ao pelo com o rolo da massa, andor, desgraçados.
Estou frita, ou melhor, estou a caminho do forno, com as tripas em paté. Pode ser que os maduros se engasguem com a tosta. Ai.....
(Nota: título a pedido)

Domingo, Janeiro 1

New Year's Concert 2011-Vienna Philharmornic

2012

Já cá estamos; vivos e com 12 desejos, 12 passas empurradas com champanhe de verdade, que se deve começar o ano com qualidade.
Os desejos são sempre os mesmos, mas este ano até com o 1º Ministro em lugar elegível no desejómetro; que Deus o ilumine para orientar este país pobre e madraço, onde a mediocricidade, o esquema e o compadrio medram como ervas daninhas. Que os justos de coração, honestos por natureza e competentes por vocação tenham  mérito e  sabedoria nos lugares que merecem.
Um desejo também a pensar nos pobres do meu país, nos desempregados desesperados e nos doentes sem esperança.
Um desejo para os meus que me são próximos, por quem eu dava a vida, que este ano lhes seja amável e feliz.
Um desejo absoluto de saúde, o primeiro antes de todos os outros.
Um desejo de felicidade, este ano com um rosto meigo e tranquilo como uma planície alentejana, que este ano seja o começo de muitos, assim nós queiramos e as circunstâncias não nos sejam adversas.
Um desejo de felicidade para as minhas queridas amigas e amigos, uma passa cheia de carinho e coração grande.
E o desejo de estar aqui para o ano: o importante é voltar.

Sábado, Dezembro 31

4, 3, 2, 1...

O ano velho termina com sol mas não com as lides domésticas, a exigir sempre uma permante dedicação, com tudo a regressar aos seus lugares, armários e gavetas. Que isto seja uma questão de princípio mas não um modo de vida. Alguma desordem tem a sua graça, torna o espírito mais livre e vive-se com menos constrangimentos. Coisas minhas.
Que o ano novo que aí vem seja bondoso e suave para todos. Que esta cidade se torne mais amigável e que a luz verde encha Alvalade de alegria.
Fico por aqui, com optimismo moderado, que os tempos não estão para festas.
Escolha, para terminar o ano, a superstição que mais lhe aprouver, porque mal não há-de fazer.
Obrigada pela vossa companhia neste blog um  pouco rarefeito e de actualização intermitente.
Que os vossos desejos se cumpram, assim como os meus que também sou filha de Deus.
Encontramo-nos aqui em 2012. O importante é voltar.
Steve Harley & Cockney Rebel- Make Me Smile Live

Para todos os que, durante 2011 me fizeram sorrir.
Para todos os que tornaram a minha vida mais amável.
Obrigada pela vosssa amizade.

Sexta-feira, Dezembro 30

Finais de festas

Estes dias não tenho ouvido outra coisa senão gente a lamuriar-se de tanto alimento ingerido durante estas festas. Por mim, acho mal e não me queixo. Lamentar-me de uma mesa farta, essa agora?! Pois os sonhos e o bolo-rei têm o mesmo sabor no resto do ano? Julgo até que o presente do marido, dos pais ou dos irmãos, a surpresa do namorado e o artesanato dos filhos adquire um significado diferente, objectos de que se vai falar no resto do ano e pelos quais se tem um carinho e uma lembrança especial. Diga-se para o bem e para o mal: sei de crianças desoladas por receberem uma prenda mais cara do que as dos irmãos, e por isso uma única prenda, motivo de todas as tristezas. Nestas coisas, o número conta, estou farta de o repetir.
Voltando aos estômagos pesados de perú e cabrito, ouvi hoje uma madura numa perfumaria pedir um creme para a cara, dizia ela, desgraçada de tantos fritos. Dir-se-ia que a qualquer momento lhe poderiam saltar azevias das bochechas e erupções de filhós da testa. Enfim. Já lhe tenho ouvido chamar muitos nomes, mas fritos, foi a primeira vez.
Pois eu gosto do Natal, de uma linda mesa cheia de iguarias que não tenho no resto do ano, gosto que me ofereçam uma travessa de trouxas de ovos, frutas cristalizadas frescas e claro, de comer tudo aquilo a que tenho direito. A queixar-me não tenho o direito.
(Texto já editado)

Quinta-feira, Dezembro 29

Monção das cores


Vejo-as vaguear pelas lojas, nas ruas, meio perdidas nas grandes superfícies, olhos mortiços, olhar alheado e luto indisfarçavel. As ausências são lixadas nesta altura; as mortes recentes reabrem as suas feridas e, mesmo sem querer, afastam os felizes, como uma doença contagiosa.
"É isso", penso eu, "o anonimato pode ser benéfico; para as empregadas do comércio com quem falam são só mais uma cliente, uma anónima sem circunstâncias e por isso são tratadas sem perigo de contágio.
O anonimato serve para o desabafo, para a confidência e para o queixume. A indiferença também pode ser amiga, caso se fuja (nem que seja por momentos) do aconchego e a familiariedade. Compreendo-as. O coração continuará apertado, mas o tempo há-de ajudar. Porventura um dia poderão voltar de novo a sentir-se vivas e a cuidar dos vasos ou dos canteiros; as plantas sem raíz não são boas companheiras. Rapidamente ficam sem cor nem cheiro e definham como naturezas mortas. Ficam bem nos museus emolduradas, mas não nas nossas vidas. Com alguma sorte, mais tarde, a vida pode voltar a escrever-se com outras letras e hão-de vir novas celebrações, assim tenham o coração aberto para as receber,

Quarta-feira, Dezembro 28

Azul

Sexta-feira, Dezembro 23

Deve ser isto o Natal: o coração simples com o tamanho de uma planície.

Quarta-feira, Dezembro 21

Maria Rita - Encontros e despedidas

Domingo, Dezembro 18

Diário de uma gata enquanto blogger (13)

Eu devia contar o que sei, mas confesso que temo retaliações (a comidinha boa, o quentinho, estão a ver a cena, não?). Quem me conhece sabe que sou uma gata fácil, que aceita subornos em troca de festas no pelo branco. Os maduros tratam-me bem e gosto de fazer amigos; ainda há dias conquistei um simpático que se declarava anti-gateiro primário, e agora já somos compinchas (o meu silêncio é barato e vende-se no supermecado em latinhas gourmet) .
Há uns tempos houve uma cena chata e tive mesmo que desabafar,  algo magoada, nas costas do sofá que ainda estava em bom estado.  Afinal a culpada fui eu, que acho fixe passear por entre as mil e uma caixinhas existentes em toda a casa no geral e na cómoda em particular. No tempos livres curto fazer gincanas, pé ante pé,  toureando a moldura e a jarra, em voos rasantes sobre os guarda-jóias. É certo que as aventuras nem sempre correm bem e de vez em quando, pumba, lá temos alguns sinistros com os destroços espalhados sobre o chão, mas aquilo foi chato; doeu, pronto.
A história conta-se depressa: uma gaveta aberta, um apetite de malhinhas finas e douradas, aqueles fios tão bons de puxar, um brinquedo novo ao alcance das minhas patinhas. A patroa vê aquilo e não gosta do que vê, ou seja, uma gata de pelo branco mergulhada na gaveta e zás, uma caixa de lorenine contra o meu garboso cachaço. Não gostei, pois então, que sou uma bicha sensível. Três dias a fazer beicinho sem a demover, ela zangada comigo, eu a transferir a minha mágoa para as cadeiras da sala, mas já nos entendemos. A má notícia é que os lorenines ainda lá estão; a boa notícia é que não precisa deles.

Os meus sonhos são os teus sonhos

Terça-feira, Dezembro 13

Se eu soubesse, escrevia assim

"Não têm coxas, nem rabo, nem carne nas pernas. As mamas apresentam-se como próteses mal coladas sobre uma parede de ossos. E o rabo, enfim, que rabo, alguém o viu? (...) Estão-me a dizer o quê precisamente com este anúncio, estimados senhores da Triumph: que umas gajas encanzeladas a fazer beicinho com o cu empinado e besuntadas em óleo fula são o novo paradigma de sensualidade? Ou que as suas clientes ideais deveriam ter este aspecto tremebundo? A quem vai dirigida esta campanha realmente? Às mulheres que nunca terão a barriga metida para dentro nem excesso de ossos? Ou aos homens? Nem sequer é para todos os homens, claro.
Os senhores da Triumph, ao escolher estas desgraçadas, não pensaram no povão, não. Pobre gosta de gorda. Já os homens sofisticados, esses gajinhos que não param de falar dos relojinhos e as sapatilhinhas e as calcinhas de marca, esses idiotas deslumbrados com as modas lisboas e os bares que são clubes no Cais do Sodré e restaurantes japoneses, esses sofisticados idiotas é que sabem de beleza. Para estes imbecis gaja boa é gaja magra e as mulheres querem-se biafrinhas, de ar enjoadinho, transparentes.(...)
A ideia que um homem me ache obesa em comparação com uma carcaça com sutiã que não pesa mais de quarenta e cinco quilos é assustadora. E triste. E cada vez que leio ou ouço um gajo a chamar gorda a uma miúda normal só me apetece mandar-lhe para a puta que o pariu."

Gosto sempre

o que escreve o Luis Miguel:"Até ao ano passado comprava lampreias de ovos na Pastelaria Suíça antes do Natal. A última vinha mergulhada na calda de açúcar que agora se usa para aumentar o peso (e o preço) das encomendas. Nunca mais lá pus os pés.
A pouco e pouco a decadência das casas de comércio tradicionais alcança também o bolo-rei. Na Confeitaria Nacional, a mais insigne entre quem não frequenta a Versailles ou a Garrett, provei hoje uma fatia que me pareceu adequada ao gosto dos novos tempos: quase nenhum sinal de frutas, massa pouco húmida, um resto de aroma a porto que talvez custe o emprego ao pasteleiro e em breve desaparecerá. (...)
Com o passar dos anos tornamo-nos conservadores, não por razões filosóficas mas porque o progresso nos dói e já não nos traz boas notícias. Eu só queria a minha fruta, a minha prenda e a minha lampreia tal como eram quando eu era criança e o tempo ainda não existia. Mas sei que é pedir muito."

Conte-me os seus sonhos

Ana Carolina - Problemas

O concurso do presépio

Há anos que andamos por aqui, eu e o Luis Novaes Tito, de candeias ás avessas na política, próximos na civilidade e nas coisas da vida que realmente importam.
Mais um ano com saúde (como venho repetindo: o importante é voltar) e mais um grandioso concurso de presépios de Natal, dos quais nunca ganhei nenhum (injustamente). O Luis, como bom socialista, coloca todos os concorrentes ex aequo. Eu, que de socializante nada tenho, aprecio a livre concorrência e apresento-me todos os anos com uma fantástica peça de faiança do mais requintado recorte estético, com a fezada de que este é ano.
Aqui fica, pois, um lindo camelo (colecção particular), que vai seguindo o rasto da estrela mais brilhante, não em Belém, mas algures numa residência lisboeta onde se festeja o Natal e não o Pai Natal.
Para o Luis, o meu glorioso exemplar, no já habitual estilo conservador e tradicional (mas não ultramontano) que me caracteriza:


Para o Luis e família (este ano renovada), Festas Felizes. Desconfio que algures na sua sala, existe um presépio que há-de vir a estar, no futuro,  nas salas dos que lhe são mais queridos.

Segunda-feira, Dezembro 12

Sempre que o homem quiser

Quanto mais se dá, mais se recebe.

Domingo, Dezembro 11

Com cheiro a Natal

Luzes de Natal

Casa de velas do Loreto (fotog. Diário de Lisboa)

Ainda não é propriamente Natal

Sabor a Natal

Conte-me os seus sonhos

Gostoso demais - Maria Bethânia

Sábado, Dezembro 10

O caso da madura que devia estar a estudar e está a escrever posts numa biblioteca.


A viagem estava a correr bem, comboio a horas certas, lugar de luxo junto à janela e, não fossem as carpideiras dos lugares da frente, até podia ter um bom sono (caso existam bons sonos durante as viagens).
Grande seca, as conversas lúgubres que me chegavam aos ouvidos, triste fado o nosso com tanto queixume na voz, a morte, nunca se está bem, é assim a vida, e eu sem as poder evitar.
Entretanto levanta-se uma das lideres da choradeira com a devida écharpe; muita lamúria e uma casa de banho ali ao pé, de que se queixava a criatura de Deus? Passaram cinco, dez minutos, já havia gente de bexiga apertada junto à porta, e o marido perguntava se demorava muito, ela respondia do outro lado da porta que estava quase. Por mim, tudo bem; era menos uma naquele festival de lamentações que as viagens proporcionam assim que se juntam vários portugueses desconhecidos entre si.
Mas o tempo passava, dez, quinze minutos, o marido de olhar inquieto, batem à porta e nada. Que diacho, agora isto, chama-se o cobrador que abre a porta com chave mestra e mulher nem vê-la. Desapareceu, evaporou-se, mas para onde terá ido se ninguém a viu sair? É mais que certo que devem ter levantado a tampa da sanita; nunca se sabe que mistérios podem existir no fabrico de carruagens.
Entretanto (graças a Deus) chega-se ao destino.  Muita conversa entre os passageiros e eu mortinha por sair dali, temos pena, mas aquilo não é filme para mim. Da mulher, nem rasto, nem vestígios,  nem sinal, o Hitchcock há muito desaparecido e o Truffaut também.
Nunca mais ouvi falar do caso. Não foi assunto de jornal nem crime de televisão, o desaparecimento da idosa em retrete de comboio, mas não admira, pois o fisco ainda lá não chega. Só hoje, uma breve notícia  falava no caso de uma mulher de écharpe ter sido encontrada na casa de banho de um avião, tendo sido detida para interrogatório. Há-de ser droga ou terrorismo, dizem eles.

Imagem do filme Nightmare At 20,000 Feet

Acordou em Aberdeen, mas podia ser no Alentejo ou na Beira Baixa

Tempo de Natal e de esperança.

Terça-feira, Dezembro 6

"Conta-me os teus sonhos"

Vou-te contar -João Gilberto

Conto Maior

Tenho para mim que as sequelas (seja de filmes ou livros) são sempre piores que as primeiras versões, mesmo assim arrisco a continuação do  Conto menor (zinho), até porque este tem um final feliz e eu nestas coisas sou muito mariquinhas.
Adivinharam qual foi a primeira coisa que a Meredith lhe disse? Nada disso, caros leitores. Pensem pior, pensem hardcore, acertem-lhe na jugular ou onde lhe dói mais. Isso, atirem-lhe million dollar words antes de cair o pano.
Pois bem, passados muitos anos, a Meredith voltou a apaixonar-se. Não se pode dizer que tenham sido tempos fáceis, com o sacana do Clark a falhar pensões de alimentos enquanto passeava a dirty bitch num topo de gama que entretanto lhe tinha saído na rifa com a gestão de uma empresa juntamente com um chorudo cartão de crédito que ela (a outra) se encarregava de gastar nas lojas da Avenida. E ela, a contar os tostões, numa correria sempre com os filhos atrás, casacos puídos e sapatos baratos, a fazer contas à vida, pescada barata e carne picada numa contabilidade apertada como o coração no final do mês. "Que se empalassem os dois", ia vociferando quando a mais velha informava que o pai queria trocar o fim de semana por "motivos profissionais". E lá ia ela mudar de planos, quando se imaginava já no melhor dos mundos, dois dias interinhos de sofá e tostas, sem forças nem vontade.
Apaixonou-se finalmente a Meredith, sem o viço de outrora alimentado a bons cremes, cabelos brancos disfarçados em casa, unhas quebradiças e corpo trabalhado à base da exaustão da multi-vida. Um homem bom, todos lhe diziam, mas ela cheia de cagufa, como iria ser: ela com duas miúdas, ele com um filho, são três, a conta que Deus fez, que para o peditório da natalidade já tinha a sua conta.
Família nova, valha-me Deus que estou frita e sem idade para estas coisas. Felizmente são muitos os cunhados e as cunhadas, a algum havia de agradar, e ria-se com nervoso miudinho. É pegar ou largar, se não gostam, temos pena, que sou eu, o meu passado, com os meus dois mailindos do mundo, com amor à prova de bala. Mas o Steve era um homem bom, que a estimava e aos seus dois encantos e, fugindo ao azar dos Távoras, todos os cinco se davam bem.
Até hoje, lembrar-se-á sempre daquele almoço, casa cheia de gente de quem mal sabia os nomes, à rasca com tantas vozes e elogiava o bacalhau que mal lhe passava na garganta. Não fosse o carinho daquele homem bom, fugia dali a sete pés. Podia ser pior, ia pensando, enquanto se endireitava na cadeira. Quando no final se dirigiram para a cozinha e lhe deram um pano da louça igual ao de todos os outros, sentiu-se em casa.

Sábado, Dezembro 3

Empreendorismo em tempos de crise

Stock Market, na antiga FIL

Dia de descanso, dizem eles.

Ao contrário do que previa a meteorologia, o tempo está luminoso neste dia Feriado, dia de descanso por imposição legislativa. Pelo menos parece-me: provavelmente ando satifeito, como me fizeram notar os empregados do café da rua onde, uma vez por outra,  bebo a minha água mineral com gás entre dois dedos de conversa com as moças do cabeleireiro. "Apareça lá no salão, vizinho, que lhe fazemos uma atençãozinha", dizia-me há dias uma morena com um fugidio sotaque brasileiro. Agradeço com o compromisso para breve de umas boas navalhadas, mas fosga-se, ali não ponho os pés. Elas nao sabem que fico sem jeito com tantas mulheres à minha volta, onde o pecado vai do lavatório para a cadeira de corte,  entre toalhas e pentes por mãos sábias que me parecem doces.
Ao contrário das outras manhãs, as ruas parecem respirar ou ganhar fôlego para os dias úteis com gente em trânsito para empregos, compromissos, enfim, a viver quase sempre a correr.
Mas lá está aquele camelo a buzinar, afogueado, contra os segundos de hesitação do carro da frente. Muito corre esta gente, não se julgue que os que não trabalham levam as manhãs com mais lentidão e menos relógio., mas veêm-se poucos velhos. Preferem as manhãs dos dias úteis, os que gozam ainda de alguma autonomia para tratarem dos restos das suas vidas em farmácias, correios, médicos, um jogo de cartas ou o repouso no jardim com os netos que ainda podem ajudar a criar. Lisboa já foi uma cidade amável para os velhos, agora já não é. O cidadão carro tomou-lhes as pracetas, os passeios e os locais de lazer. E a gente deixa, é isso me aborrece.
Ausentes das manhãs de dias santos estão também os jovens, no sono dos justos depois de alguma noitada, de persianas corridas e quartos silenciosos. Cada vez em maior número, veêm-se alguns esforçados desportistas a correr ou de bicicleta, os cavalheiros do pão e do jornal, mulheres de sacos cheios, e jovens pais com os carrinhos de bebé, mas gosto de reparar nos amantes, cabelos ainda húmidos, em passo lento, cúmplices e de olhar ausente deste quotidiano. O tempo deles é outro, como o café que tomam sem pressas, em movimentos que só eles parecem reconhecer.
E nos Feriados de manhã na cidade grande, também ando eu. Que dirão os outros de mim?

Juan Fernández El Labrador (doc. década de 1630)
Natureza-Morta com Um Cacho de Uvas Suspenso, c. 1630

"Conta-me os teus sonhos"

1974 - Paulo de Carvalho - E Depois Do Adeus

Domingo, Novembro 27

Talvez um dia

ganhe alguma coisa num concurso, se bem que este ano já tenha recebido a minha fabulosa prenda de Natal.
Em bom rigor, não me importava nada de ganhar este relógio do Michael Kors, mas ainda não foi desta. Temos pena.
Aqui fica o meu texto. O tema era Qual a sua hora preferida do dia e porquê?


As manhãs
Descobri há pouco tempo que não conhecia as manhãs. Para as manhãs, nunca estou. Vou, regresso, corro, já com a luz posta, com a cidade em movimento em edíficios fechados. Quando as ruas se esvaziam e cada um toma o seu lugar, a manhã enche-se dos seus habitantes, gente com quem não me cruzo nas manhãs dos meus dias a néon e ar condicionado, que toma o espaço que os outros libertam, com um ritmo mais lento, com passo menos seguro e com mais tempo. São os idosos, os reformados nos correios com as notas, as facturas e as pensões, os casais nos bancos à procura de uma vida em casas sonhadas, as mulheres e os homens com impressos, sisas, obrigações, fichas de chamada nas finanças, uma geração de mulheres sem impostos e sem rendimentos, de alcofa e porta-moedas que percorre o mercado, ao peixe, à carne que há-de ter pronta à noite para os seus.
Vejo-as chegar no 47, acordadas há muito, com o saco, o almoço, o avental, a bata, os sapatos para trocar, o carteiro a tocar às campainhas de casas vazias com as contas, as notícias e as cartas timbradas. Sem farda, os cobradores tentam arrecadar as quotas, os fiscais fazem vistorias e os limpa-chaminés vão tentando a sua sorte.
Por aqui e por ali, as manhãs também têm os vendedores de hortaliça e leite e lá ao longe ainda se ouve o assobio do amolador. Nas zonas de comércio, há muito que os pedintes tomaram os seus lugares, os artesãos arrumaram a mercadoria e os homens dos retratos prepararam as tintas.
O trânsito, condicionado e programado à força de sinais, tenta mexer-se, encaixar-se nas ruas estreitas das descargas e circular por entre o caos das avenidas na pressa para o escritório. Os arrumadores vão chegando pouco a pouco, acordando lentamente de ressacas sem fim, tentam as primeiras moeda para a dose do dia e junto aos semáforos, juntam-se o velho Borda d'Água e os novos jornais. São os tempos modernos.
São estas manhãs que terminam quando as ruas se enchem de novo, de gente a correr, barulhenta, com horas marcadas, relógios de ponto e estômagos vazios. A estes conheço-os, ocupamos os mesmos espaços, caminhamos lado a lado, cruzamo-nos sem nos vermos e mais tarde, já quase sem luz vamos esvaziando as ruas e enchendo as estradas na viagem de volta. Até ao outro dia. Para mim, para eles, sem estas manhãs que não vemos.


Tanbém concorri com este texto a outro concurso há uns tempos, mas não lhe ligaram pevide. Parecem parvos.

"Conta-me os teus sonhos"

Marisa Monte

Sábado, Novembro 26

Diário de uma gata enquanto blogger (12)

Cá estamos de novo as duas noutro Inverno; a patroa com os pés quentes e eu enrolada aos pés dela. Cá vamos, com as nossas coisas: eu faço desacatos, ela ralha,  mas depois voltamos a ficar amigas, que a madura não é de ressentimentos.
Já me cheira a Natal e, mais dia menos dia, vou ter mais umas coisinhas novas para brincar (roía-se muito bem a árvore sintética do ano passado). Não sei porquê, mas o jingle bell chegou mais cedo este ano. E se a patroa anda satisfeita, melhor para mim, menos me maça. Tem graça envelhecermos as duas, seguir-lhe as rotinas, ouvir-lhe o riso e sentir-lhe as angústias. Às vezes parece um pouco parvinha (se eu pudesse dizia-lhe das boas), mas a moça lá tem os receios dela, e medos, pois então. Tem dias em que até tento dar-lhe um pouco de colinho, que isto de vivermos juntas já nos vamos conhecendo. E ainda dizem que as gatas são foleiras e pouco amigas. Pois eu não me esqueço dos meus tempos de rua, rafeira assumida, bem vi muito cão que não conhecia dono.
Agora que sou praticamente dona deste pedaço, boa vida e boa cama, patas quentinhas e pêlo escovado, gente amiga à nossa mesa, ouço daqui o riso da patroa e quem lhe faz bem a ela, também o faz a mim. Boa noite amiguinhos, que vou ali roer mais um pouco de sofá, satisfeita por não haver no mercado ração sem sal.

Quarta-feira, Novembro 23

"Conta-me os teus sonhos"

Na radio regressaram as canções de Natal e,  quase como num reflexo,  ia deitar-lhe a mão para a calar, que tinham sido muitos natais sem vontade de cantigas. Porém, deixou-a ficar. "E que se lixe  a Dickinson, mais a esperança em forma de ave que pousa na alma  a cantar melodias sem palavras e sem nunca parar. Pois eu gosto das melodias, gosto das palavras, e a esperança morre muitas vezes, chega mesmo a morrer todos os dias".
A verdade é que andava inquieta e cheia de medo, mas que raio lhe havia de acontecer. A vidinha estava a correr como Deus quer, sem sobressaltos, clarinha como água, com os croissants aos Sábados na praceta, as compras no mercado da zona, uns livros, filmes de vez em quando, um ou outro jantar com amigos, e agora isto. Coisas do acaso, a cena do costume (girl meets boy) e, por arrastamento, o kit completo dos sentimentos, que é como quem diz ansiedade, nervosinho, falta de apetite, e tudo aquilo que a gente está farta de experimentar.
Durante dia, até chegar o sono, ia desfiando as contas do rosário das dúvidas do costume, mais as contas do passado, mais espinhos que rosas, mas porventura o melhor é como no filme e largar o que já passou, que só se encontra mil passados e nenhum futuro.
Curiosamente, no meio de todo este sobressalto tinha encontrado tranquilidade e recuperado um pouco da alegria perdida. Quem a conhece, viu-lhe a casa de Natal com luzes a piscar, os desejos embrulhados em papel vermelho com estrelas, as tristezas meteu-as em caixas com azevinho, as saudades embaladas em cartolinas prateadas com estrelas azuis e as alegrias em pacotinhos com laços de seda.
Ouço-a rir lá na cozinha. O riso faz-se também das lembranças que se libertam do passado, dos momentos em que se omite, com cumplicidade, o que está sempre presente. Lá em cima, os deuses e os anjos hão-de ajudar, disse-me ela, que até já deixou de fumar.

Terça-feira, Novembro 22

"Valeu a pena. Há horas felizes "

Ana Carolina -Quem de nós dois

Para ti

Sexta-feira, Novembro 18

MADALENA IGLÉSIAS E ANTÓNIO CALVÁRIO- "AI É TÃO BOM"

Quinta-feira, Novembro 17

Coisa mais preciosa no mundo não há

Sergio Godinho - Com Um Brilhozinho Nos Olhos

Tempos modernos.

Instalação in situ. Colecção particular.

Nunca digas nunca

Bobbie Gentry - I'll never fall in love again

Há muito que se lhe não conhecia um namorado, uma paixão, um devaneio ou um desvario. Se ela tinha dates, affairs, ou afins, era segredo bem guardado. Que nunca abria a boca para falar nesses assuntos íntimos, como lhes chamava, era uma grande verdade. A gente bem tentava sacar um nome, um caso, uma paixoneta, um béguin, mas nem uma palavra, comoção ou brilhozinho nos olhos. 
 De resto, parecia-nos agora mais moderna com a idade, mais ousada no vestir, mas também mais apaziguada e sorridente. Se a querem ver irritada, considerem-na uma "mulher interessante" e toda a artilharia pesada do insulto silencioso desaba sobre vós. Julgo que tinha encontrado pequenas alegrias com a felicidade das amigas, poucas mas boas, e o tempo tornara-a totalmente implacável com o lambe-botismo, o arrivismo e a deslealdade. Queixa-se das mazelas da idade (mas disso nos queixamos todas), das rugas que foram aparecendo, dos cabelos brancos mais que muitos e da falta de energia (bem sei o que é isso).
Depois da fase apocalíptica, considerava-se integrada, conformada e arrumada. Por gentileza, todos a contrariavam;  que disparate, estava na mesma (mentira), agora é que estás bem (hipocrisia), quem sabe as coisas boas que estão para vir (e as más, por essa ordem de ideias).
Mais ou menos conciliada com o passado, agradava-lhe ver fotografias antigas que ia comentando entre entres dentes com um sorriso ou com uma raivinha que ainda não conseguia esconder: que nervos, tanto disparate, que figura, onde tinha a cabeça, boas pernas, soutien errado.
Sempre que viajávamos no carro dela encontravamos alguns dos cds do costume, os clássicos, um ou outro modernaço, o Bach do seu coração, músicas que tinham signficados especiais, mas curiosamente nunca lhe detectei ponta de nostalgia romântica. Como mulher de hábitos, acostumei-me a vê-la comer com parcimónia e moderação (uma vida a lutar contra os genes deixa as suas marcas), mas gostava do seu gin, da cerveja ao final da tarde. Estava arrumada, dizia ela, mas não estúpida. 
Viu casar as amigas, calou as confidências, ouviu-nos os delírios, acarinhou-lhes os filhos, acolheu-as nos divórcios, conheceu-lhes amores novos, em tudo esteve presente sem recriminações nem hesitações. Porém, naquela tarde, achei-a diferente. Não sei se seria de um novo modelo de vestido que agora ousava vestir, se pelo olhar. A verdade é que estava diferente. Quando pediu uma tarte com gelado achei curioso, quando sorriu para a mensagem do telemóvel, pensei que ali havia caso: sempre as facturas electrónicas, as promoções e as ofertas de novos serviços, suspirou, mas a mim não me enganou.
Tocou o telefone e pelo olhar e sorriso, percebia-se que não se tratava das habituais chamadas da mãe, amigas ou irmãs. Balbuciava palavras curtas, mais trejeitos que sons, trocando silêncios de cumplicidade. Fingindo-me desinteressada, pus-me à escuta na despedida: "Às oito horas está óptimo. Na tua casa ou na minha?"
Estou mortinha por voltar a encontrá-la.  De preferência com aquele vestido vermelho que lhe ficava tão bem.
Adaptação de um texto ecrito há alguns anos

Terça-feira, Novembro 15

Roisin Murphy - Ramalama (bang bang)

Segunda-feira, Novembro 14

São coisas do mundo. Retalhos da vida.

Sábado, Novembro 12

Uma geração

De facto, não sou filha do 25 de Abril, mas decididamente sou neta da Troika.

Pleasantville

Sexta-feira, Novembro 11

Bailando as voltinhas

Astaire and Rogers - The Barkleys of Broadway

F(r)ios de memória


Reconheço num ou outro local da cidade cheiros antigos das minhas memórias. Geralmente ao final da tarde, em que a penumbra esconde portarias largas e recortes de prédios altos, o nevoeiro mistura-se com sensações antigas, com a pacatez do previsível, com os aromas duma cozinha, de madeira na lareira ou de camisola quente.
 Recordo o velho bueiro da rua, as últimas filhós da aldeia, o jornal regional, e as conversas amenas enquando se ajeitava o lume, algo semelhante a trincheiras que nos protegem dos outros, do frio e da hostilidade do mundo
No ar sentia-se o cheiro a mosto dos lagares e só o sino interrompia o silêncio nos campos abandonados, vã poesia para quem sai mas não para quem lá fica. Tenho ideia do frio seco das ruas estreitas e empedradas, de casas modestas com chaminés encardidas envoltas no cheiro de madeira a arder e a dar algum calor ao desconforto do frio que era muito. Recordo o cheiro a fumo entranhado nas roupas e no cabelo e a cinza, uma batalha diária.
Há uns tempos descobri um perfume com fragâncias de madeira e musgo. Diziam-me na loja que "transmitia sensualidade". E eu que só queria um bocadinho do fim de tarde da minha rua.
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