Domingo, Maio 18


Depois de semanas e semanas com equipamentos de pesca na bagagem, desde o Alasca até ao Mongólia passando pelo Chile e pelo Canadá, é tempo de acabar com lugares distantes em busca da melhor truta ou do salmão perfeito. Ou melhor, descobre-se um maravilhoso prato de peixe num restaurante, sem necessidade de frio nas costas nem água pelo tornozelo.

Se fiquei farta de tanta pescaria em locais remotos, que dirão os leitores. Eu tenho sempre uma razão para voltar aqui, afinal de contas este é o meu blog. Mas não se maça ninguém por falta de talento ou de imaginação, credo, que blogger mais chata, que lugar nos sai hoje na rifa.

Portanto, finda a pesca com mosca e farta de chuva, frio, serras e pais de Dharma, nada melhor que uma mesa simpática com vistas para o Canal, onde talvez se coma uma massa fresca em condições e um gelado de luxo. Ou talvez não. Fico com os turistas, elevadores, vistas da cidade e pais de Greg.

Fotografia

Sábado, Maio 17

Todo o tempo


Isto do futebol não dá descanso a ninguém, mesmo a quem o prefere ignorar. Para além do tempo que lhe dedicam nos telejornais e nos intervalos dos programas, agora não nos largam nem durante os filmes: enquanto o Indiana Jones tenta salvar o Cálice do Santo Graal das manápulas dos palhaços nazis, durante as cenas a cavalo em que luta para salvar o pai, no momento de concentração para ultrapassar os obstáculos dentro da montanha, no lado superior direito do écran do televisor lá está um taça a girar na companhia de um contador digital, a relembrar que faltam 23:54:23 para o jogo.

Aqui fica desde já o meu veemente protesto contra esta artimanha que procura distrair o espectador interessado em rever as aventuras do arqueólogo com o nome do cão e com a cicatriz mais sexy da história do cinema, a contradizer-se ironicamente perante o X no chão da antiga igreja na pista do Santo Graal *.

Já não há respeito por nada.

* "We do not follow maps to buried treasure and “X” never, ever, marks the spot!"

Sexta-feira, Maio 16

De novo, Serralves em festa

A Festa de Serralves está de volta a 7 e 8 de Junho.
O ano passado, tive o gosto de ter sido convidada pela Revista Única do Expresso para escrever, na forma de blog, sobre um dos acontecimentos mais animados em que participei.
Tenho a certeza de que este ano será de novo outra grande festa.



Quinta-feira, Maio 15

A ficção e a realidade


Monty Python - Dead Parrot (1969)

A propósito deste post do Francisco Mendes da Silva (afinal o papagaio norueguês azul existiu mesmo), o sketch "Dead Parrot" foi considerado o mais fantástico de todos os tempos, numa lista dos 50 melhores sketches de sempre.

(Na "Enciclopédia do sketch" da PFNews)

Parte 2 da visita ao Nº 10 de Downing Street, "The Cabinet Room" na companhia do Sr. Blair.
Creio já ter já visitado todos os departamentos do Imperial War Museum e foi das experiências mais fantásticas que tive: como se de repente tivéssemos saído dos livros e da televisão e fizéssemos parte da História.

Visita guiada ao Nº 10 de Downing Street na companhia de Tony Blair - Parte 1 "The White Room"
(Do Jansenista)

Quarta-feira, Maio 14

Mais uma caveira para o velho Indy

Dezanove anos depois, estreia no dia 18, no Festival de Cannes, o novo Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull. No dia 22 estará aqui, num cinema perto de mim e de todos os fans do arqueólogo de calças castanhas, camisa azul, chapéu e chicote.
Harrison Ford, hoje com 65 anos e Spielberg com 61 estão de novo metidos em apuros, desta vez com russos armados em vilões e Cate Blanchet armada em Irina, a implacável mandona. Os guinchos em momentos de perigo pertencem novamente a Karen Allen, a mesma da Arca Perdida e conta ainda com um jovem que não me recordo ter visto em lado nenhum, Shia LaBeouf.
Aproveito para apelar a alguém com um convitezinho a mais para a estreia. Costumo ver nas revistas que, para além dos críticos, encontra-se sempre algum jet set na ocasião, mas asseguro que também não desdouro. O mail está ali ao lado.
Dezanove anos depois, será talvez este o meu derradeiro herói, o mesmo a quem jurei fidelidade eterna e que surge agora passado todo este tempo, depois de ter sido visto pela última vez ao pôr do sol, a cavalgar ao lado de Sean Connery.

Já anda por aí

Já anda por todo o lado, de novo, sempre presente, o futebol. As campanhas de merchandising começaram pela fresca, cedinho, e trouxeram com elas, de novo, sempre presente, o cachecol. Nas capas dos jornais, na televisão em doses medonhas, nos supermercados, no metro, em sorteios, concursos, já vem aí outro evento, daqueles que paralisa o país de tanta animação pelo amor à selecção e assim.
Nada tenho a apontar, mas ao contrário do que possa parecer, há gente que não se importa com estas coisas. Pode até ser "estranho", mas há quem não tenha este espírito de cruzada futebolística, que não conheça os nomes dos rapazes e ignore as suas proezas. Não serão muitos, é verdade, mas surpreendentemente, há quem almoce com sossego em restaurantes sem televisão durante partidas de futebol de relevância nacional ou saia à rua para tratar da vida. Sei do que falo, porque sou uma delas. E daí? Garanto que essas tardes dão um post cheio de gente bizarra.

Terça-feira, Maio 13

Palavras com sentido

Usamos as palavras, abusamos das que gostamos e abandonamos as que nos desagradam. Por vezes sorrimos com palavras antigas, noutras, assalta-nos a nostalgia de palavras perdidas em amores do passado ou chegam-nos expressões que nos melindram. Outras há que enfastiam pela repetição, aborrecem pelo vazio, desconcertam pela incerteza ou magoam pela dureza. Há palavras fáceis e outras difíceis. Depois há as especiais, as que usamos com parcimónia, as exclusivas, as do amor, da amizade, do carinho ou do desejo.
E na hora de todas as verdades, remember Harry Block?*: The most important words in the English language are not "I love you" but "It's benign."
Não podia estar mais certo.


*Deconstructing Harry - (Woody Allen)

Texto já editado. Com dedicatória especial

"Everybody Knows Your Name" - Cheers (Theme Song)

Segunda-feira, Maio 12


The Magnetic Fields - The One You Really Love

Domingo, Maio 11




Depois de NY, de novo fotografias da enviada especial, desta vez à Madeira cinco estrelas.
Com os meus agradecimentos à A.C. com alguma inveja deste lado do écran.

Branco de dente


A coisa pegou, desenvolveu-se, ganhou vida própria, com a comercialização em alta e dentes para andar. Por vezes é o que parece: dentaduras saídas de desenhos animados, ampliadas, caricaturadas, movendo-se independentemente do corpo, sem critérios de idade ou bom senso.
Nas televisões, na política, os actores, anda por aí uma loucura de dentes brancos. Claro que nada tenho contra a alvura do sorriso. O que me parece é que essa alvura nada tem de natural e por isso mesmo, há por ali qualquer coisa de errado. Sei de gente madura, fumadora inveterada, consumidora de café e chá de longa data, que ostentam agora um conjunto de dentes reluzentes, muito, muito brancos, sem qualquer marca de hábitos antigos e boca rejuvenescida pela próspera indústria do branqueamento. Ao contrário do que podem pensar, não se neutralizam as rugas ou as marcas de idade à conta de um sorriso artificial.
Pelo que me informei, o velho processo escova/dentífrico anda pelas ruas da amargura, com o comércio e os consultórios dos dentistas na vanguarda de diversas estratégias capazes de fazer os dentes brilhar como a neve pura dos árticos. Saiba o caro leitor que existem pensos, métodos a laser, seringas descartáveis, capas, pincéis, saquetas de pó, escovinhas, pastilhas, líquidos e tecnologia para todas as bolsas e para os efeitos que se pretendam. Podem comprar-se processos de uma semana que duram meio ano, outros mais lentos, e ainda quem necessite do dentista com menor ou maior frequência.
Por esse mundo fora há mesmo gente obcecada pelo branqueamento dos dentes (os americanos chamam-lhe “bleachorexic”). Apesar de reconhecerem que têm dentes brancos completamente ridículos, continuam a achar que não estão brancos o suficiente.
O facto é que este estes tratamentos são actualmente os cosméticos mais procurados nos EUA apesar dos avisos das agências de saúde, visto poderem causar problemas ao nível da sensibilidade ou provocarem efeitos inversos.
Os folhetos advertem bem intencionados:"Aim for a natural look, not “refrigerator white.” : bem vista a expressão de branco-frigorífico/arca congeladora.
Apesar de tamanha brancura nos dentes se ver bem ao longe, há gente que não (se) enxerga.
Um adeus português -11.05.2008, Vasco Pulido Valente (Público)

Sábado, Maio 10

Este fim de semana, não tão longe de casa como habitualmente, partida para Brecon, Kite e para uma boa pescaria de salmão e truta no País de Gales
Desta vez uma experiência única, uma aventura no Canal de Brecon and Monmouth, na confluência dos rios Usk e Honddu, na envolvência do Beacons National Park, onde o rio corre por vezes lento e outras muito veloz, numa paisagem encantadora. Dizem os folhetos que, apesar de estes serem os locais mais bonitos para pescar, é necessário ter cuidado quando não se conhecem as águas e sem as devidas precauções. Embora muitos destes lugares sejam privados, é possível pedir autorização aos proprietários, que gentilmente acolhem os pescadores do canal nas suas terras.

Sexta-feira, Maio 9

Naquela tarde


Não se lhe conhecia um namorado, uma paixão, um devaneio ou um desvario. Via-a habitualmente com a roupa entre o clássico e o antiquado e adivinhava-lhe os papelotes no cabelo na hora de dormir. Os sapatos de tacão médio, com um modelo que há muito deixou de o ser e o cabelo com um corte valha-nos Deus, arruinavam qualquer ideia de sensualidade. Sempre que viajávamos no carro dela encontravámos os cds do costume, um Phil Collins lacrimejante, um Eros Ramazzotti compungido e um Alejandro Sanz saudoso, mas curiosamente nunca lhe detectei ponta de nostalgia romântica. Como mulher de hábitos, acostumei-me a vê-la comer uma fatia de tarte de maçã com duas bolas de gelado e um chá com dois pacotes de açucar. Achei sempre um exagero, mas ela sorria à medida que ia saboreando e também por isso a admirava.
Viu casar as amigas, calou as confidências, ouviu-nos os delírios, acarinhou-lhes os filhos, acolheu-as nos divórcios, conheceu-lhes amores novos, em tudo esteve presente sem recriminações nem hesitações. Porém, naquela tarde, achei-a diferente. Não sei se seria pela camisa um nadinha mais desapertada, se pelo olhar. A verdade é que estava diferente. Quando pediu uma tarte sem gelado achei curioso. Quando evitou o açucar no chá, pensei que ali havia caso.
Tocou o telefone e não pude deixar de ficar atenta (ora eu). Atendeu, e pelo olhar e no sorriso, percebia-se que não se tratava das habituais chamadas da mãe, amigas ou irmãs. Balbuciava palavras curtas, mais trejeitos que sons, trocando silêncios de cumplicidade. Fingindo-me desinteressada, pus-me à escuta na despedida: "Às oito horas está óptimo. Na tua casa ou na minha?"
Foi o nosso último lanche. Casou num Domingo de calor com um vestido sem alças nem flor de laranjeira.
*
Texto já editado, dedicado a uma amiga, com os meus parabéns e toda a felicidade a que tem direito. Uma tarte com gelado para a mesa do canto, por favor!

Curb Your Enthusiasm - Larry At The Ice Cream Shop

Quinta-feira, Maio 8

Da blogoesfera (actualiz.)

"Pedra do Urso". É isso mesmo amigo Paulo. Lá pelos meus lados, ir à Serra e não se deixar fotografar com vistas para o pedregulho (agora, vendo bem, tem pouca graça), mais valia não ter saído de casa. Provas. Eram necessárias provas. A neve não se aguentava no caminho. As nossas conversas nunca são dull, dull, dull. E como vês, não era o Adamo.
*
Pouco amigo de grandes cidades, lá muito longe, o leopardo espreguiça-se na sombra da acácia. Tem dias que sai à caça por terrenos hostis mas regressa sempre à savana, com um olhar atento nas crias e para divagações sobre autores de mentes retorcidas.
Nos tempos livres escreve no Mar Salgado com outros excelentes marinheiros do Mondego. A todos, os meus parabéns pelos 5 anos de agradáveis navegações.
O Gilbert Bécaud e os "marchés de Provence" são para eles:



**
Por virtualidades blogoesféricas e por um acaso, venho a cruzar-me com o Pedro Passos Coelho, ou melhor, com o blog da sua candidatura. Apesar de geracionalmente sermos bastante próximos, não me recordo de alguma vez me ter cruzado com ele na vida real.
Desejo-lhe as maiores felicidades e espero que não caia nos mesmos erros de quem prejudicou o partido e o país, (com os resultados que se conhecem), e que levaram ao meu afastamento e ao de tanta gente capaz, que há muito deixou de se rever no que ajudaram a fundar.
*
A propósito das declarações de Geldof sobre Angola, aliás por quem nunca tive particular admiração, o melhor é ir aos locais e ver aquela enorme miséria através do youtube. Só não vê quem não quer. (Videos no Jansenista)
*
"o problema é que reservo-me o acesso ao blogue para coisas giras, para pensamentos no mínimo originais e no máximo brilhantes; para discorrências, generalizações apressadas, lapsos de pena, preferências e raivinhas de estimação. E para uma ou outra brusquidão, vá. Coisas frívolas. E nunca para dizer, por exemplo, daquela tristeza fininha que hoje me invadiu a manhã. "Sofia no Controversa Maresia

Zero pontos

O rapaz fez tudo como mandam as regras: apresentou-se ao telefone, disse ao que vinha e pediu a minha colaboração para responder ao questionário, qualquer coisa sobre o imposto do combustível, assegurando que seria breve.
Convencida de que as estatísticas necessitavam muito da minha opinião ou mesmo, quem sabe, se os meus dados fariam a diferença, disponibilizei-me a responder com a verdade, verdadinha às perguntas que me fossem colocadas.
Assim não quis o destino, pois a primeira pergunta, que tipo de viatura apreciava, valeu-me uma rápida desclassificação. A resposta nenhuma retirou-me de imediato da casa de partida, confrontando-me com as minhas fragilidades. Afinal nem sequer fazia parte do público alvo, informou-me gentilmente o rapaz. E sobre os portugueses dentro de viaturas? Ou viaturas nos passeios? Interessa-lhe? Insisti com o entrevistador, para que não considerasse ter perdido o seu tempo. Nada feito. Infelizmente, o mundo agitado dos combustíveis e os labirintos da fiscalidade iriam ter de passar sem mim.

Quarta-feira, Maio 7

A minha favorita geração vinil


Penny Lane - The Beatles

Dar voz


O sol perfeito para a Rainha Silvia

(Boas Vindas aos Reis da Suécia na Praça do Município)

Pague uma, leve duas ou mesmo três


Quem vai à feira dá (pouco dinheiro) e leva (alguma desilusão). Depois de lavadas e engomadas, as pechinchas compradas após uma trabalhosa escolha (encontrar, seleccionar, avaliar, re-avaliar) nem sempre as alegrias são as maiores. Sei de casos de malhas soltas em fantásticos casacos, cores arruinadas de roupa interior, botões desaparecidos em combate, tamanhos sobre avaliados, émes transformados em XXL, éles transformados em small e defeitos irrecuperáveis, mas nem sempre acontece o pior.
Claro que podem ocorrer coisas bizarras como confundir o nosso sapato esquerdo descalço com o sapato direito também descalço, semelhante ao da vizinha na banca de calçado (vulgo confusão), apesar das câmaras de video à nossa frente, conforme advertia alto e a bom som o vendedor precavido. Também não me apercebi de que alguém tenha enfiado roupa nos sacos sem pagar, desafiando os avisos dos comerciantes, nem sequer cheguei convencida de que o material era de qualidade superiores aos dos chineses, concorrência sempre presente nas técnicas de marketing dos feirantes.
No dia seguinte, constato com alegria que a planta de dois euros está radiosa, a pulseira continua impecável, a t-shirt facilmente pode ser alargada a ferro de engomar, a camisa tornou-se numa maravilhosa prenda a familiar com menos dez (??) quilos e os sapatos, após duas semanas na forma, ficam impecáveis.
Decididamente, a crise tornou-me uma optimista.

Terça-feira, Maio 6

Se do p ficar enxuto.....







Com os meus parabéns pelos 5 anos do Abrupto

"En esto, descubrieron treinta o cuarenta molinos de viento que hay en aquel campo (...)
— ¿Qué gigantes? —dijo Sancho Panza.
—Aquellos que allí ves —respondió su amo—, de los brazos largos, que los suelen tener algunos de casi dos leguas.
—Mire vuestra merced —respondió Sancho— que aquellos que allí se parecen no son gigantes, sino molinos de viento,(...)
—Calla, amigo Sancho —respondió don Quijote—, que las cosas de la guerra más que otras están sujetas a continua mudanza; "
"Dom Quixote de la Mancha- Miguel de Cervantes
(Imagens: Marmeleira:moinho de vento e Boticas: moinho de água)

Segunda-feira, Maio 5

Geração vinil


Dusty Springfield - The look of love

Café com história



Um dos locais mais emblemáticos da cidade do Porto, o café "A Brasileira", está em risco de fechar.
Segundo pude ler , em causa estão divergências entre um banco e o proprietário actual. Espero sinceramente que a questão se resolva a bem da cidade, de todos os clientes e turistas que se sentiam bem na "Brasileira", como é, aliás, o meu caso. Assim como o Majestic, são os meus lugares de encontro na cidade, local cheio de passado e elegância no meio da enorme banalidade que são, em geral, os cafés hoje em dia.

Post de 4 de Maio 2007 "Café "

Domingo, Maio 4



Sábado, Maio 3



"Caroline de Bendern - Pedro Mexia
Público de 03.05.2008
Os revolucionários veneram símbolos e multidões. A revolução é uma mitologia, e a mitologia também consiste em adequar uma realidade a uma ideia. Pensemos em Caroline de Bendern, a "Marianne" do Maio de 68. Uma rapariga loura de cabelo curto (ou apanhado?), pescoço e feições esculturais, braço direito em volta da cintura, casaquinho com botões, sentada aos ombros de um homem que não vemos, agitando uma bandeira vietnamita. É a mais memorável das raparigas de 1968, uma Julie Christie da rue Saint-Antoine. Uma mulher revolucionária é uma coisa, mas uma mulher bonita é sempre outra coisa.
Toda a gente já viu esta "Marianne", símbolo vivo da "revolução" (com aspas) de Maio, herdeira da outra Marianne, símbolo decrépito da revolução (sem aspas) de Julho. A agitação de rua não chega: é preciso o combate do imaginário. Os revolucionários de 1789 congeminaram uma beldade de maminhas soltas e barrete frígio, que se fez virtude em estátua e propaganda universal. Os revoltados de 1968, mais uma vez encabeçados por homens, também precisavam do seu rosto feminino. E nenhum outro ficou na memória como o de Caroline de Bendern. Ela foi capa de revista em todo o mundo, e ainda hoje é o mais belo poster da revolta parisiense.
Curiosamente, Caroline não passava de uma figurante naquela comédia. Não era francesa, nem estudante, nem trabalhadora, nem especialmente politizada. E (não se choquem) fez pose. Em Maio de 1968, Caroline tinha 27 anos. Inglesa, era neta do Conde de Bendern, e uma neta problemática. Andou por várias escolas internas inglesas, de onde foi sendo expulsa, depois mandaram-na para Viena, onde se meteu na boémia, e acabaram por lhe cortar a mesada. Então foi para Paris e Nova Iorque, e trabalhou como modelo. Caroline era uma rapariga do seu tempo, e dizia aquelas coisas vagas contra "a sociedade" e a favor da "mudança". À Normandie Magazine confessou em 1997: "Estava-me nas tintas para a política francesa, porque estava preocupada com a humanidade inteira." Nada mais inócuo do que estar preocupado com toda a humanidade.
Como é que esta jovem mulher se torna a Joana d"Arc do Maio vermelho? Ela ia no meio da multidão que marchava em direcção à Bastilha (os símbolos, os símbolos) e já lhe doíam os pés (é o que ela conta). Então alguém lhe pede que salte para os ombros de um rapaz e segure uma bandeira. A boleia era bem vinda. A questão da bandeira parecia mais complicada: "Não queria nem a bandeira vermelha - por causa dos comunistas que sabotavam o movimento - nem a bandeira negra, porque não sabia nada dos anarquistas. Mas a bandeira vietnamita convinha-me como símbolo de uma guerra que toda a juventude denunciava. De repente, sinto várias objectivas fixadas em mim." Nada a que uma modelo não esteja habituada: "Então tive como que um reflexo profissional. Instintivamente, endireitei-me, o meu rosto torna-se mais grave, os meus gestos mais solenes. Quis a todo o custo ser bela e dar uma representação daquele movimento à altura do momento."
Se os namorados de Doisneau, naquele famoso Baiser de l"Hôtel de ville também estavam ensaiados, como é que uma modelo ia fazer diferente? Ela admite: "No fundo, fiz pose. E fui armadilhada por essa pose. Porque de repente emocionei-me: esta multidão que se junta, justa, ardente, luminosa, com todas aquelas bandeiras, e este símbolo tão pesado na minha mão. Torno-me exactamente o que tento parecer. Já não represento nenhum papel, estou mergulhada no movimento e no instante, e consciente, eu que sou uma aristocrata inglesa, de uma responsabilidade." O avô conde, como é próprio dos avós condes, não se comoveu nada com as multidões ardentes: rasgou o testamento e disse à neta que não lhe aparecesse mais à frente. Caroline trocou a aristocracia do título pela aristocracia da celebridade, e convenhamos que há "armadilhas" mais graves. Hoje, diz que nunca se arrependeu do Maio. Quando muito, digo eu, está arrependida de não ter pedido royalties. "

"Do êxodo destes dias" em alta voz

Além de Dia do Trabalhador, o 1º de Maio também é ponte para mini férias.... (podcast)

O Pedro Rolo Duarte escolheu este meu post para o programa Janela Indiscreta na Antena 1.
Obrigada. O post fica francamente melhor lido por si.


(Do blog do Programa "Janela Indiscreta")

Sarah Vaughan: Shadow of Your Smile

Sexta-feira, Maio 2

O mistério das chaves


Já tenho lido na blogoesfera alguns posts divertidos sobre a problemática das meias desirmanadas ou desemparelhadas, ralação que creio percorrer os mais diversos lares. Desgraçadamente, este fenómeno não escolhe tipos, qualidade nem cores. Assim, com facilidade encontramos soquetes de algodão castanhos desirmanados com meias de mousse preta ou piúgas de lã azuis desemparelhadas com mini-meias de lycra cinzenta. Conheço quem tenha uma gaveta atafulhada destes especímenes solitários, na expectativa de que ainda venham um dia a aparecer. Grande erro. Diz-me a experiência que se não forem encontrados no prazo máximo de quinze dias, vá lá, um mês, é mais do que certo que nunca mais regressem ao lugar a que pertencem e onde foram felizes: à companhia do seu pé metade para se esburacarem e desaparecerem juntos, como lhes compete.

No entanto, existe outro fenómeno a que não se tem dado a merecida atenção: as chaves que vão aparecendo nas gavetas sem etiqueta nem lembrança do local a que pertencem. Pelo feitio, podem ser de portas exteriores, de gavetas, de malas, gavetas, de caixas, ou de qualquer outro sítio onde existe ou já existiu uma fechadura totalmente inútil.

É uma perda tempo pensar a que porta pertence esta ou aquela chave desgarrada ou este monte de chaves presas com um clip. Provavelmente, a mais pequena pertence a uma mala fora de uso. Ou talvez não. Talvez seja de alguma caixa de arrumações na outra casa. Esta maior parece ser de uma porta da rua. Mas não sei de que porta nem de que rua e pelos vistos, em nada têm contribuído para a minha segurança. Que é, aliás, para que servem. Desisto: "chave mal guardada não guarda nada".

Na fotografia: Alicia Keys

Quinta-feira, Maio 1

Os Londrinos vão hoje a votos, numa cidade com 5.500.000 eleitores registados.
"Your London. Your vote" é o site com tudo o que é preciso saber sobre os candidatos e acto eleitoral. Aqui e aqui também não faltam informações. É por estas e por outras que "A democracia é o pior dos regimes políticos... exceptuando todos os outros", como disse Churchill.
Onon River, Mongolia
A caminho do yurt na longínqua Mongólia, onde abundam umas fantásticas trutas que exigem caminhadas aventureiras.
Consta nos folhetos que o programa inclui uma viagem de helicóptero de Ulan Bator (com maravilhosos templos Budistas) até às estepes da Mongólia, onde um cavalo nos leva a rios frios de nomes impronunciáveis.
Confesso que estou a gostar deste espírito nómada em busca de uma boa pescaria. Talvez por isso ainda venha a apreciar as estepes do Genghis Khan, onde esse espírito é um modo de vida...

O ruído do nosso descontentamento

Em Janeiro deste ano, numa fantástica crónica sobre o ruído, António Barreto escrevia no Público:
"Terminadas as festas, nasce a esperança de reencontrar um pouco de silêncio e recato. Mas as ilusões morrem depressa. É possível que o volume de som baixe ligeiramente, mas a verdade é que o barulho se mantém. Veio para ficar. Há algumas décadas, instalou-se. Todos os anos aumenta. Todos os meses se diversifica. Todos os dias encontra novas formas de demonstração e uso. Entra-se num autocarro ou no comboio: há música. Sobe-se num elevador público, desce-se a um estacionamento subterrâneo: há música. Entra-se num avião ou numa sala de cinema: há música. Até em jardins públicos, a música brota dos altifalantes pendurados nas árvores. Música aparentemente doce, música aos berros, música estridente, música suave para atrair ao consumo, música agressiva para fazer as pessoas esquecer sabe-se lá bem o quê, música envolvente, mas música, sempre música. Música empacotada, música contínua sem fim, música indistinta, música feita de sortidos americanos e pots pourris das Caraíbas, música russa ao ritmo da Pigalle, mas música, sempre música. Telefona-se para um serviço, uma repartição, um banco: enquanto procuram ou se espera, enquanto se vai ver o dossier ou se pede esclarecimento ao computador, o incauto cliente leva com música. Fado ou guitarra. Orquestra ou bateria. Jazz ou valsa, tudo serve. Com relevo para os mais usados: As quatro estações, Eine kleine Nachtmusik e Para Elisa.
Nos restaurantes, cafés e bares, é um martírio. Televisões sempre abertas, aos berros, com desporto e telenovelas, talk shows ou a meteorologia. Rádios sempre no máximo, com relatos de futebol, notícias ou simplesmente música. (...)
Nos restaurantes, cafés e bares, é um martírio. Televisões sempre abertas, aos berros, com desporto e telenovelas, talk shows ou a meteorologia. Rádios sempre no máximo, com relatos de futebol, notícias ou simplesmente música. "
*
Foi neste texto que pensei quando entrei hoje no célebre Martinho da Arcada. Junto ao balcão, uma televisão debitava lá do alto a sessão parlamentar com um volume de som totalmente excessivo, que incomodava quem ali tinha entrado por uns momentos de tranquilidade, repouso, um café e um pastel de nata. Do altíssimo, ouviam-se vozes empolgadas sobre contratos de trabalho, enquanto no salão do lado pairava a sombra imperturbável de Pessoa, com um café, um cigarro e resmas de papel, assim como de tantos outros ilustres artistas que ali encontravam um ambiente que apreciavam.
Desse Martinho, dessa sala pequena com balcão e duas mesas, em nada se distingue de outras casas barulhentas onde o incómodo do ruído despacha rapidamente um café ou sumo e onde se engole um bolo em dois tempos. Eu só me incomodei à procura de outro balcão ou de outra mesa, de preferência sem televisão. É uma pena.

Terça-feira, Abril 29

Primeiras fotografias coloridas da Inglaterra e o apartamento da Coco Chanel no Alexandre Soares Silva (que também já descobriu a Adelaide de Sousa)
SEIGEN ONO -"Enishie"
(Enishie é a música do genérico do programa "Eixo do Mal"-Via
Íntima Fracção)

Do êxodo destes dias

A cidade encontra-se entre êxodos sazonais, muita gente com um pé cá outro lá, à beira-mar ou noutro sítio qualquer onde se procure vencer o tédio que a cidade provoca a tanta gente.
As agências de viagens, atentas ao calendário, põem os seus pacotes de fins de semana de Abril e Maio mesmo à frente do nariz e dos olhos do consumidor. Depois da publicidade às clínicas dentárias, restaurantes e urbanizações de encantar, eis que chegam ao vidros dos carros, presos ao limpa pára-brisas, brochuras para quatro noites e três dias no país ou no estrangeiro, vulgo Espanha. A mim calhou-me uma viagem relâmpago a Las Palmas, um bronzeamento rápido em Palma de Maiorca, um hotel com vistas em Ibiza e meia dúzia de mergulhos em Tenerife.
O folheto mais recente era pródigo em aldeamentos algarvios, aparthotéis de muitos pisos (tudo com vista-mar, claro) e imagens de praias que não reconheci, cheias daqueles chapéus de sol com palha, muito tropicais. Pára-ventos e mar atlântico cheio de ondas, nem vê-los. Ainda procurei campos de golfe, mas não cabiam nos vidros dos meu modesto utilitário.
Entretanto, a cidade vai folgando um pouco por todo o lado. Vários pedidos de desculpas estão colados às portas de diversos estabelecimentos comerciais: dia vinte seis de Abril lamentaram o incómodo e para o dois de Maio agradecem antecipadamente a compreensão. Eu fico sempre grata com estas atenções.
Mas nestas coisas de férias & feriados, a oferta é variada. Vejo gente que parte para as noites longas lá por detrás do sol posto, para a movida de alguma aldeia remota, para um spa junto a riacho esconso, experiências de eco-turismo de vida real (inclui massagens, step em ambiente natural e levantamento de pesos), braçada e meia num tanque de pedra com provável vida animal ou para descobrir a natureza no seu melhor, entre estevas e giestas secas, visitando oliveiras inacessíveis. Sim, porque há gente para tudo.
fotografia "Les vacanses de M. Hulot"

Domingo, Abril 27

Geração vinil


The Beach Boys - Wouldn't it be nice

Convidada fora de casa



Fiquei naturalmente lisonjeada com o convite do Rui Castro para escrever no 31 da Armada, à semelhança do que fizeram outros bloggers como a Helena Ayala Botto, a Ana Cláudia Vicente e o Filipe Nunes Vicente . Se achou que eu era capaz de meia dúzia de linhas, tomei logo a liberdade de rabiscar um pequeno texto num registo diferente do que mantenho aqui.
E foi assim a minha participação no 31 da Armada, com este pequeno texto editado 34 anos depois do 25 de Abril, e o meu bem haja ao Rui Castro.

Grande lata
A cerca de meia dúzia de metros da entrada para o parque de estacionamento de um centro comercial do centro da cidade, um carro topo de gama assenta arraiais em cima de um traço amarelo, um jeep de alta cilindrada pratica escalada desportiva no passeio e uma carrinha monovolume instala-se estrategicamente numa curva, impedindo a visibilidade. Depois de esgotadas todas as possibilidades de transgressão, ainda restava a 2ª fila e foi mesmo isso que aconteceu com um utilitário muito desenrascado. A tudo isto assisto na fila para entrar no parque de vários pisos onde não faltam lugares, enquanto os condutores destas viaturas, indiferentes aos sinais de proibição, se dirigem sem pressas para o centro comercial. Mais tarde haveria de me cruzar com a condutora do jeep acompanhada dos filhos num dos corredores da área de informática e com o tripulante do topo de gama (cujo rosto reconheci) a tomar calmamente o seu café num dos bares do edifício.
Sei bem que são muitos anos de maus hábitos, vícios tramados de vencer, num país com uma diminuta cidadania participativa, demasiada permissividade social para com estes comportamentos, sempre a contar com a morosidade da justiça, com a inércia da polícia ou com as vindas do Papa.
Escrevo de Lisboa, onde diversas gerações nunca viram a cidade sem carros nos passeios, mas infelizmente o problema encontra-se um pouco por todo o lado. Corremos o risco que seja considerado normal que em certas zonas (não falo de zonas históricas ou outras de impossível intervenção) dois peões mal consigam circular lado a lado, que os semáforos raramente estejam temporizados em função de quem se desloca a pé e que os passeios se encontrem atafulhados de carros, sinais de trânsito mal colocados, caixas de electricidade ou excesso de publicidade. E a avaliar pelo exemplo acima, convenhamos que o exemplo dos pais em pouco abona a favor de uma pacífica e agradável convivência urbana entre quem circula no espaço público. Entretanto, chegamos encantados de Amesterdão, Estocolmo e Viena, onde um sinal de proibição de estacionamento não é uma ficção e onde os passeios são território livre de dejectos de animais (pelo menos por onde tenho andado).
Nada disto está certo para quem, devido à idade, problemas físicos ou a algum tipo de deficiência, vê reduzida a sua capacidade de se deslocar. Que cidade esta onde tanta gente tem lata para deixar as latas onde devem circular as pessoas. Constrangida com o enorme número de obstáculos, expressei a minha indignação a uma amiga cega, que aliás tem uma autonomia incrível. Ela riu-se e respondeu-me que consegue andar, mas à custa de muitas nódoas negras nas pernas. Há muito tempo que não sentia tamanha vergonha.
Por estas e por outras é que quem está mal, muda (*) e fico satisfeita por pertencer a um pequeno grupo que anda por aí à procura de moinhos de vento com uma lanterna acesa durante o dia.
E como o 25 de Abril é quando o homem quiser, até que cada co-peão veja reconhecido seu direito a um metro de passeio, a Luta Continua!(*)

Resumo do Código do Passeio(*)

Art. 14: É proibido a um automóvel estacionar a menos de dois milímetros de uma porta ou portão
Art. 37: É proibido ao peão que se desloca no passeio subir para cima de um automóvel estacionado a 2 milímetros de uma porta ou portão.
Art. 76: O peão ligeiro deve recolher os ombros ao cruzar-se com um pesado.
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(*) “Sinais do Trânsito” – Manuel João Ramos, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000.

Sábado, Abril 26

Círculo de leitores

O João Villalobos esteve no lançamento da Revista Ler e conta como foi a festa no Diário de Notícias de hoje.
Como era previsível, o autor da capa não esteve presente "Nessa altura, já todos tinham desistido de esperar por António Lobo Antunes, que nem por ser tema de capa da revista abriu uma excepção à sua habitual reclusão misantrópica", mas apareceu muita gente que reconheci da contra-capa dos livros.

Georgie Fame - The ballad of Bonnie & Clyde

Estancia de los Rios, Chile
Diz a publicidade que fica na sombra dos Andes, a 40 milhas do Rio Cisnes. Para além de trutas, tem também uns fantásticos vinhos chilenos, tudo a fazer as delícias de um fim de semana sul americano, depois de uma curta viagem pela Colômbia com o filme "Amor em tempo de cólera". Dedididamente, a pesca com "mosca" deixou de ter segredos.

O caso de um post de cinquenta euros

O dia 25 de Abril é um dia como outro qualquer para se avariar a máquina de lavar e constatei com suprema alegria que é um dia tão bom como outro qualquer para a iniciativa privada, vulgo o Sr. Manuel, arranjador de tudo que envolva material ligado à corrente. Desconfio que nem dorme, de casa em casa ora são máquinas de secar ora o frigorífico de alguém cheio de aflições . Chega sempre atrasado, bem sei, mas penso sempre nas outras famílias que já socorreu antes de chegar a minha vez, e desculpo tudo.
Deixo-o sossegado enquanto abre a caixa de ferramentas e remexe nas entranhas da máquina, sempre na expectativa de que o veredicto não seja dramático. Aquilo que à primeira vista poderia ser uma coisa fácil de reparação, raramente se resolve com peças baratas ou mão-de-obra de curta duração. Quem já deixou o carro na oficina sabe do que falo. Nunca é um simples fio fora do lugar ou um modesto parafuso solto. A conta geralmente vem acompanhada de um saco com os despojos que nunca são coisa pouca. Aquilo deve ser tudo proporcional, creio eu.
Voltando ao Sr. Manuel, após uns longos dez minutos ouço-o exclamar "que delicioso". Sem saber o que de delicioso poderia haver numa caixa de detergente e tentando disfarçar o suspense causado por tal fascínio, foi com duplo alívio que vi o fumo branco da boa nova: "Já tem máquina".
Arrumou a bricolage, larguei uns deliciosos cinquenta euros sem pestanejar e é com uma deliciosa sensação que ouço a máquina de novo com vida. As delícias do lar têm destas surpresas e pensando bem, as praias do Algarve devem estar cheias.

Quarta-feira, Abril 23

Little Britain. Lou & Andy



Monty Python - A Book At Bedtime

Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor



Não posso deixar passar a efeméride de hoje: o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, instituído pela Unesco em 1996, festeja-se hoje em mais de 100 países. É dia de celebrar a importância do livro e os direitos da sua propriedade intelectual.
A cidade de Amesterdão será a próxima Capital Mundial do Livro, após Bogotá, que cessa hoje a sua titularidade. Na capital da Holanda estão já programadas inúmeras actividades e iniciativas como conferências sobre direitos de autor, publicação de obras científicas, abertura de novas bibliotecas e centros culturais, seminários e festivais como a parada de personagens da literatura infantil. Após Amesterdão seguir-se-à Beiture como Capital Mundial do Livro, sendo aí eleita a cidade para 2010. Guadalajara, Lisboa, Ljubljana, Riga, São Petesburgo, Viena e Wellington (NZ) já apresentaram a sua candidatura.
Quem sabe se será a primeira vez que fico satisfeita por Portugal poder vir a ser um país de eventos?

Entretanto, o Telegraph publicou a lista dos 110 melhores livros de todos os tempos para uma biblioteca perfeita* e a revista Ler (não deixem de comprar porque está muitíssimo boa) apresenta a lista dos 50 autores mais influentes do século XX, o que aprendemos ou deveríamos ter aprendido com eles.
E já agora uma curiosidade também da Ler: tradicionalmente, os presidentes americanos legam à América uma biblioteca e um museu com o seu nome, como por exemplo a espantosa biblioteca de JF Kennedy ou a de Reagan (em meio rural, a minha preferida). Como não poderia deixar de ser, também o Presidente Bush, já em final de mandato, definiu o edíficio na Southern Methodist University (Dallas) como o local onde a mesma será construída. Projecto para uma biblioteca, museu e um instituto, no valor de trezentos milhões de dólares assim por alto (Glub!), da autoria do arquitecto Robert A.M. Stern.
"Atentos às potencialidades de um assunto tão mediático, os editores de The Chronicle Review lançaram um desafio aos seus leitores: se fossem eles a decidir, como seria o projecto? Quais os traços dominantes? Só tinham de respeitar duas regras: desenhar na parte de trás de um sobrescrito e pensar em GW Bush". Envelopes não faltam e a votação continua a decorrer no site do jornal, onde se encontram as propostas enviadas. Coisas patuscas de um país livre.
* do blog Atlântico
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Artigo que escrevi para a Governância, uma publicação em linha
Sobre a biblioteca pública, sem bola de cristal nem nave espacial - Esfera Pública
(Vol. 2 / 2008, Fascículo 1 / Janeiro-Março) 27.03.2008
Maria Isabel Goulão
"A história das bibliotecas públicas portuguesas, como agora as conhecemos, é ainda muito curta, no entanto, foram vinte anos de um investimento público benéfico e marcante tanto para a cultura nacional como para as cidadãos dos municípios que delas têm vindo a beneficiar. "(cont.)

"O cartão"



"Da lista que o P2 me enviou comecei por escolher a internet ou o e-mail. Depois quase que me deixei tentar pela Zara, pois esta marca de roupa democratizou a moda. Graças à Zara aquelas calças tipo Armani mais aquele casaco "tipo qualquer outro criador" tornaram-se subitamente acessíveis. Mas na verdade a poucas invenções eu terei de estar tão agradecida quanto ao cartão Multibanco. Ao contrário da internet, do e-mail ou da Zara que trouxeram novas possibilidades, o cartão Multibanco poupou-me a velhos sofrimentos. Eu não sofria por não ter um Armani. Simplesmente não o tinha. Também não sofria por não usar a internet, porque a não ser na poesia não se sofre por aquilo que se desconhece."

Helena Matos para a edição especial do P2 do jornal Público de 5 de Março, a propósito do que mudou na nossa vida nos últimos 18 anos, por ocasião do 18º aniversário do jornal.

Mais do que ter democratizado a moda, a Zara tornou-nos todas diferentes e todas iguais. Falamos disso amanhã que hoje é tarde, mas se é "consumidor@", esteja à vontade para comentar.

Terça-feira, Abril 22

Dobras da vida (2)


Recordo-me bem de quando ela começou a trabalhar. Com os filhos já criados, a quem ensinou diária e exigentemente a aritmética, ortografia, os rios, História, os caminhos de ferro, o ditado, a geometria, o corpo humano e a fotosíntese, com o jardim cultivado e a vida encaminhada, surge-lhe a oportunidade de "começar a trabalhar". Creio que por essa altura os tempos ainda não eram difíceis para um emprego, geralmente para o resto da vida.
Na família não havia tradição de as mulheres trabalharem. Depois dos estudos, em colégios mais ou menos longe da casa dos pais, vinha o casamento ou raramente um curso superior. Ia cada um à sua vida.
Uma correcção: todas trabalhavam (e muito), mas havia mulheres que tinham empregos, as solteiras. Mais tarde havia de surgir o Magistério Primário nas cidades do interior e muitas delas