

Jack Nicholson e Faye Dunaway no filme Chinatown , no tempo em que não se discutia a importância dos produtos orgânicos na vida sexual (meaning sexo verde)
Um blog com seriedades, muitas banalidades, algumas frivolidades,pechisbeque, chá e torradas. Que me diverte.


Ouço o temporal da minha janela. O demo endoidou de vez, anda à solta e a soldo de Lucifer "Arch-regent and commander of all spirits". Vendavais fortes e chuvas violentas deixam a nú as fragilidades de um país feito de estruturas mal amanhadas resultantes de obras (mal) feitas pour épater les bourgeois e de pouca limpeza preventiva. Desta vez, a expressão "ocorrência" bateu-nos à porta, ou melhor, entrou pelas portas dentro e a televisão mostra a nossa realidade ao vivo e com poucas cores. Lá fora, em países distantes onde os elementos parecem andar sempre loucos, em locais que não reconhecemos, as imagens não nos tiram o sono nem a vontade de jantar. Por cá, ainda há gente a comer à luz do gerador.A família que me resta — uma avó e um irmão — reuniu-se há dias num presépio das berças, frio como a noite dos tempos. Eu fiquei em Lisboa, coberto de cinzas, a tentar erguer alguma coisa que se parecesse com a família que tinha. Aqui não cheira a lenha, nem caminhamos sobre as pedras, nem precisávamos de um dia de mortos.
Pelo Luis Miguel, no Vida Breve. Ambos caminhamos sobre as mesmas pedras.



J. S. Bach - (2/3) Weihnachtsoratorium BWV 248 - Kantate IV - Nos. 39-40
O Natal fica um pouco melhor com o mais virtuoso entre os virtuosos, o mais talentoso dos talentosos.
Entretanto, dou uma volta pelos blogs, jornais, pelo que se fala e as atitudes dividem-se. A Helena Matos, enquanto espera pelo espírito de Natal, ainda tenta a crónica boazinha, como refere no texto de hoje: "Uma crónica que seja uma espécie de versão adulta das redacções sobre a paz, os golfinhos e a salvação do planeta que as criancinhas escrevem laboriosamente. Uma crónica que não ofenda, que não vá contra o espírito "sininhos a tilintar", muitos beijinhos, menino Jesus nas palhinhas característicos da época", mas foge-lhe a mão para a política. Não se chateie. Depois das filhoses e do bacalhau com broa, isso passa e amanhã outras ralações virão, tão certo como o Maomé fugir do toucinho.
Outros falam e escrevem com sobriedade de coisas sérias, política e assim. Bem sei que não me deveria espantar, mas este ano a novidade é alguma violência verbal e até má criação. Os tempos estão muito estranhos e, decididamente, não são os meus.
Um pouco por todo lado vivem-se ares de generosidade episódica e fraternidade sazonal. É normal, mesmo sabendo que isto da generosidade ou está na natureza de cada um ou não está. Que as (boas) atitudes para com os outros têm 365 dias cada ano, mas a gente faz-se de parva e, com algum cinismo, aceitamos meia dúzia de horas de altruísmo alheio. Deve ser isto a que chamam "saber viver" ou espírito natalício.
E por ser Natal, também me dá para algum metabloguismo um nadinha nostálgico mas sentido, pois isso devo aos meus leitores. Pode ser que ainda tenha alguma aberta entre a corrida para o bolo-rei do Estoril, toalhas de linho e travessas de sonhos. Voltando à crónica da Helena, está cheia de razão sobre as mesas de Natal dos que se dizem "gente famosa": "Perante a parafernália que colocam nas mesas, verifico que não sobra espaço para a comida: troncos, velas, frutos, bolas, fitas, enfim tudo menos comida ou espaço para ela". Desconfio que aquilo deve ser tudo para inglês ver e nada daquilo lhes pertence. Não troco a minha mesa conservadora e tradicional por nenhum daquele folclore, eu que sei quem quebrou a asa da terrina e riscou a travessa grande.
Vamos então a outra corrida e outra viagem, semelhantes a tempos passados, dos recados e das entregas, a maior das secas para uma criança em terras de província, mais uma rua, outra casa, que manda a mãe as filhoses à amiga viúva, ao primo doente, e à família enlutada, que era mesmo assim que ditava a tradição. Tal como hoje, a noite que nunca mais chega...

Estava-se mesmo a ver que, à semelhança de anos anteriores, prémios nem vê-los. Pareceu-me logo muita fruta, essa coisa dos prémios fantásticos.
uma bibliotecária (lindíssima e eficiente) namoriscava entre as estantes de livros. Coisas de filmes.
Enquanto isso, um computador com nome de mulher, Miss Emmy, ameaçava tomar o lugar e o trabalho das diligentes (e elegantes) bibliotecárias da estação de televisão, receosas da mudança. Nada que um romance não viesse resolver.


The Fragility of Goodness- Luck and Ethics in Greek Tragedy and Philosophy
Para afastar os ventos de mediocridade que pairam por tantos lados, enfastiada com os trolls ou trolhas de serviço, não desfazendo no trabalho honesto destes últimos. *
Aqui fica a Martha Nussbaum a falar sobre sobre Hecuba e a beleza (moral) da fragilidade, "ethical life", vingança e traição. (Obrigada)
* Bem sei que nada tem a ver, mas como o blog é meu, recordo-me bem daquele russo de meia idade, operário da construção civil que, diariamente, e durante algum tempo, vinha à biblioteca pública durante a hora de almoço. Trazia uma maçã, tirava um livro do bolso, e sentava-se a ouvir os cd's de Tchaikovsky ou Stravinsky. Não, isto não é romance nem lirismo. Antes fosse.
Comentário do Jansenista:
Como num comentario de Proust, as vezes surpreendemo-nos quando o silencio nos revela que as badaladas da torre da igreja continuam a soar e com a mesma cadencia - e que era so o facto de estarmos imersos na confusao e no ruido que nos estava a privar dessas sabias e reconfortantes reconfirmacoes de uma autenticidade mais recondita e discreta.
Os trolls sao criacoes fantasticas dos tempos medievais - dos tempos, lembremo-lo, em que se dizia que nem uma so flor era capaz de crescer fora dos muros dos conventos. As vezes regressamos a isso, e que conveniente que se torna entao termos espessos muros em torno do nosso jardim!
Acho que e isso que procuro traduzir nas alusoes a um Ashram: a ideia de um bastiao de invulnerabilidade contra o alarido. 11:23 PM

Afinal a tradição ainda é o que era e o Luis Novaes Tito, entre a política e os lugares onde foi feliz, lançou de novo o concurso menos competitivo de que tenho memória: o concurso de presépios de Natal, este ano com a representação do burro.
Os melhores livros de 2009 segundo The Economist :


Uma das fotografias do blog O Silêncio dos Livros, no Origem das Espécies,também com deliciosos registos (anotados e comentados) sobre pequenos poderosos, zeladores que nos apascentam e enochatos, ou a ironia inteligente que faz falta em tempo de crise. Não fico propriamente exultante, mas nem sempre a boa escrita é um parque de diversões.



Hyde Park Gardens, uma mansão londrina 




Descobri há pouco tempo que não conhecia as manhãs. Para as manhãs, nunca estou. Vou, regresso, corro, já com a luz posta, com a cidade em movimento em edíficios fechados. Quando as ruas se esvaziam e cada um toma o seu lugar, a manhã enche-se dos seus habitantes, gente com quem não me cruzo nas manhãs dos meus dias a néon e ar condicionado, que toma o espaço que os outros libertam, com um ritmo mais lento, com passo menos seguro e com mais tempo. São os idosos, os reformados nos correios com as notas, as facturas e as pensões, os casais nos bancos à procura de uma vida em casas sonhadas, as mulheres e os homens com impressos, sisas, obrigações, fichas de chamada nas finanças, uma geração de mulheres sem impostos e sem rendimentos, de alcofa e porta-moedas que percorre o mercado, ao peixe, à carne que há-de ter pronta à noite para os seus.



Daniel Barenboim - Moonlight sonata - 1ºmov Adagio sostenuto
Beethoven - Sonata No. 14 C sharp minor Op. 27 No. 2

Entretanto, no Vida Breve, um dos meus blogs preferidos, vive-se assim:"Nos documentários que têm passado recentemente nas televisões sobre os países de leste durante a Cortina de Ferro, antigas estrelas pop, fotógrafos, humoristas e escritores da antiga República Socialista da Checoslováquia descreveram a mentira e a hipocrisia em que todos pareciam estar envolvidos e explicaram como a retórica comunista, envolta em propaganda, era tão diferente da realidade.
Durante a Primavera de Praga, uma cidadã é acordada pela mãe: "Marta, fomos invadidos". "Mas invadidos por quem? Os americanos já cá estão. Porque querem invadir-nos?" Foi assim o começo da Operação Danúbio e do processo de normalização, em que o suicído de Jan Palach (imolado pelo fogo) viria a ser um símbolo da luta contra a repressão. As imagens de Václav Havel vigiado na sua própria casa deveriam transmitir alguma coisa, e que uma revolução, mesmo de veludo, implicou uma coragem mal silenciada de lutadores antigos.
Da Roménia de Ceauşescu vimos imagens da destruição da cidade antiga para que o ditador pudesse realizar o seu megalómano Palácio do Parlamento, os relatos da inúmeras mortes de operários durante a sua construção, a paranóia de trazer gente dos campos para as cidades, desenraizando-as das suas origens e enfiando-as em casas absolutamente miseráveis, com escassez de alimentos e torturados pelas baixas temperaturas.E quando já nada havia para comer, visto que todos os bens alimentares eram exportados, sobravam os pés de porco, verdadeiros patriotas que não saíam do país.
As derradeiras imagens deste casal de ditadores, repetidas vezes sem fim, mostravam uma Elena Ceauşescu (com mau cheiro, nas palavras do guarda) que gritava "Criei-vos como uma mãe". Bem vi, e nunca me hei-de esquecer, dos "seus filhos" deficientes abandonados como animais em instituições inqualificáveis.
É por isso que não percebo quando os ouço defender um regime apascentado por esta gente canalha.
Good Bye, Lenin!
Era de noite e fazia frio, em 9 de Novembro de 1989. As imagens dos documentários mostram mares de gente a atravessar uma estreita fronteira física entre duas cidades que os homens dividiram para separar homens e ideologias. Era também à noite que se ouviam tiros junto ao muro que derrubavam quem o ousava passar.
Era de noite quando milhares de berlinenses de leste sairam à rua depois de ouvirem, incrédulos, a informação saída do bolso de um dirigente confuso numa conferência de imprensa atabalhoada. As imagens que temos desses momentos não nos deviam deixar indiferentes e, por isso, tenho pena que os mais novos as troquem por patetices modernas em horário nobre. Se tivessem perguntado quem era aquela gente vestida de forma antiquada, saloia, pobre, em carros de plástico, ter-lhes-iam dito que houve tempos em que uma cortina de ferro dividia uma Europa que eles agora atravessam livremente.
Quando visitei Berlim pela segunda vez após a queda do muro, estive no Cafe Sybille na austera Karl Marx Allee, à espera de encontrar alguma coisa de um tempo perdido, cuja memorabilia se vende agora na rua a turistas e colecionadores. Pareceu-me que o ar do tempo também já tinha passado por ali, como um modesto café da minha província, à espera do camartelo. Dizem-me que o Café Adler junto ao Checkpoint Charlie já fechou e pertence actualmente a uma rede local de cafés. Agora, só a sua memória nos livros, filmes e nas histórias de espionagem.
Por isto tudo, coisas minhas, recordei as caricatas cenas do filme "Goodbye Lenin" com a improvisação patética de um telejornal a incensar Erich Honecker, a estátua do Lenin a ser retirada, e o anúncio da Ikea nos cartazes da cidade. Foi também o começo de uma história de amor em tempos de liberdade, mas isso agora não importa nada.
When You are Old
WHEN you are old and gray and full of sleep
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true;
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face.
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how love fled
And paced upon the mountains overhead,
And hid his face amid a crowd of stars.
William Butler Yeats
.
Neste mês de Novembro, cheio de sombras no nosso calendário dos afectos, e em particular neste dia, um poema a quem não vimos envelhecer. A saudade que temos deles e a falta que nos fazem.
Je suis perdue from JMC on Vimeo.
JE SUIS PERDUE
por Gigi Gaston - video de Jean-Luc Godard
Do Almocreve das Petas
Obrigada