Terça-feira, Dezembro 29



Jack Nicholson e Faye Dunaway no filme Chinatown , no tempo em que não se discutia a importância dos produtos orgânicos na vida sexual (meaning sexo verde)

Segunda-feira, Dezembro 28


Marcos Portugal 'Le Donne Cambiate' Abertura
City of London Sinfonia

Frente & verso

Ouço o temporal da minha janela. O demo endoidou de vez, anda à solta e a soldo de Lucifer "Arch-regent and commander of all spirits". Vendavais fortes e chuvas violentas deixam a nú as fragilidades de um país feito de estruturas mal amanhadas resultantes de obras (mal) feitas pour épater les bourgeois e de pouca limpeza preventiva. Desta vez, a expressão "ocorrência" bateu-nos à porta, ou melhor, entrou pelas portas dentro e a televisão mostra a nossa realidade ao vivo e com poucas cores. Lá fora, em países distantes onde os elementos parecem andar sempre loucos, em locais que não reconhecemos, as imagens não nos tiram o sono nem a vontade de jantar. Por cá, ainda há gente a comer à luz do gerador.
Entretanto, péssimos sinais para quem se aventura nas estradas portuguesas. O rendilhado legislativo feito de buracos e pontos sem nó em diplomas mal regulamentados, só deveria espantar os que não conhecem a justiça que temos, mas sabemos que há direitos mais "humanos" que outros. Estes, pelos vistos tresandam a álcool, mas não faz mal.
Enquanto isso, a blogoesfera anda ocupada com minudências, ataques pessoais (alguns chegam dos jornais) enxovalhos e balanços, neste lugar onde é suposto todos termos ideias, sermos felizes e bem sucedidos. Na vida real, a minha amiga J. terminou a quimoterapia, a L vai começar a primeira sessão, a filha da C não sobreviveu aos químicos e se alguém quer ouvir tragédias reais, também tenho duas, de caixão à cova. Na hora de todas as verdades, remember Harry Block?*: The most important words in the English language are not "I love you" but "It's benign." **
Até já. Vou ver como andam os gatinhos rafeiros da minha rua, que hão-de estar à espera do jantar. Os domésticos, mais calmos e burgueses, ouvem a Antena 2. Até têm outro miar.

*The Tragical History of Doctor Faustus - Christopher Marlowe
**Deconstructing Harry - Filme de Woody Allen

Só isto

A família que me resta — uma avó e um irmão — reuniu-se há dias num presépio das berças, frio como a noite dos tempos. Eu fiquei em Lisboa, coberto de cinzas, a tentar erguer alguma coisa que se parecesse com a família que tinha. Aqui não cheira a lenha, nem caminhamos sobre as pedras, nem precisávamos de um dia de mortos.

Pelo Luis Miguel, no Vida Breve. Ambos caminhamos sobre as mesmas pedras.

Sábado, Dezembro 26

Bichos

de Paris
de Buenos Aires
de Lisboa
do Central Park

Fim de festa

Durante uns dias não vamos ouvir outra coisa senão gente a lamuriar-se de tanto alimento que ingeriu durante estas festas. Por mim, acho mal e não me queixo. Lamentar-me de uma mesa farta, essa agora?! Pois os sonhos e o bolo-rei têm o mesmo sabor no resto do ano? Julgo até que o presente do marido, dos pais ou dos irmãos, a surpresa do namorado e o artesanato dos filhos adquire um significado diferente, objectos de que se vai falar no resto do ano e pelos quais se tem um carinho e uma lembrança especial. Diga-se para o bem e para o mal: sei de crianças desoladas por receberem uma prenda mais cara do que as dos irmãos, e por isso uma única prenda, motivo de todas as tristezas. Nestas coisas, o número conta, estou farta de o repetir.
Voltando aos estômagos pesados de perú, bacalhau e cabrito, recordo-me de ter ouvido, o ano passado, uma madura numa perfumaria pedir um creme milagroso para a cara, dizia ela, desgraçada de tantos fritos. Dir-se-ia que a qualquer momento lhe poderiam saltar azevias das bochechas e erupções de filhós da testa. Enfim. Já lhe tenho ouvido chamar muitos nomes, mas fritos, foi a primeira vez.
Pois eu gosto do Natal, de uma linda mesa cheia de iguarias que não tenho no resto do ano, gosto da travessa de trouxas de ovos da minha irmã, das rabanadas, do bolo-rei, e de comer tudo aquilo a que tenho direito. A queixar-me não tenho o direito.

Sexta-feira, Dezembro 25

O dia vai alto



«Lux fulgebit hodie super nos, quia natus est nobis Dominus.
- Hoje sobre nós resplandecerá uma luz porque nasceu para nós o Senhor»
(Missal Romano: Antífona de Entrada, da Missa da Aurora no Natal do Senhor).

A liturgia da Missa da Aurora lembrou-nos que a noite já passou, o dia vai alto; a luz que provém da gruta de Belém resplandece sobre nós.
Mensagem «Urbi et Orbi» de Bento XVI


Só o Natal nos faz perceber que a justiça é a concretização da verdade profunda do homem, chamado a viver em comunhão com os outros homens e que só homens justos podem ser obreiros da justiça.



Quinta-feira, Dezembro 24


J. S. Bach - (2/3) Weihnachtsoratorium BWV 248 - Kantate IV - Nos. 39-40

O Natal fica um pouco melhor com o mais virtuoso entre os virtuosos, o mais talentoso dos talentosos.

Outro calor (1)


Entretanto, dou uma volta pelos blogs, jornais, pelo que se fala e as atitudes dividem-se. A Helena Matos, enquanto espera pelo espírito de Natal, ainda tenta a crónica boazinha, como refere no texto de hoje: "Uma crónica que seja uma espécie de versão adulta das redacções sobre a paz, os golfinhos e a salvação do planeta que as criancinhas escrevem laboriosamente. Uma crónica que não ofenda, que não vá contra o espírito "sininhos a tilintar", muitos beijinhos, menino Jesus nas palhinhas característicos da época", mas foge-lhe a mão para a política. Não se chateie. Depois das filhoses e do bacalhau com broa, isso passa e amanhã outras ralações virão, tão certo como o Maomé fugir do toucinho.

Outros falam e escrevem com sobriedade de coisas sérias, política e assim. Bem sei que não me deveria espantar, mas este ano a novidade é alguma violência verbal e até má criação. Os tempos estão muito estranhos e, decididamente, não são os meus.

Um pouco por todo lado vivem-se ares de generosidade episódica e fraternidade sazonal. É normal, mesmo sabendo que isto da generosidade ou está na natureza de cada um ou não está. Que as (boas) atitudes para com os outros têm 365 dias cada ano, mas a gente faz-se de parva e, com algum cinismo, aceitamos meia dúzia de horas de altruísmo alheio. Deve ser isto a que chamam "saber viver" ou espírito natalício.

E por ser Natal, também me dá para algum metabloguismo um nadinha nostálgico mas sentido, pois isso devo aos meus leitores. Pode ser que ainda tenha alguma aberta entre a corrida para o bolo-rei do Estoril, toalhas de linho e travessas de sonhos. Voltando à crónica da Helena, está cheia de razão sobre as mesas de Natal dos que se dizem "gente famosa": "Perante a parafernália que colocam nas mesas, verifico que não sobra espaço para a comida: troncos, velas, frutos, bolas, fitas, enfim tudo menos comida ou espaço para ela". Desconfio que aquilo deve ser tudo para inglês ver e nada daquilo lhes pertence. Não troco a minha mesa conservadora e tradicional por nenhum daquele folclore, eu que sei quem quebrou a asa da terrina e riscou a travessa grande.

Vamos então a outra corrida e outra viagem, semelhantes a tempos passados, dos recados e das entregas, a maior das secas para uma criança em terras de província, mais uma rua, outra casa, que manda a mãe as filhoses à amiga viúva, ao primo doente, e à família enlutada, que era mesmo assim que ditava a tradição. Tal como hoje, a noite que nunca mais chega...



Quarta-feira, Dezembro 23

Outro calor


Vamos ver se há algum sossego nestes dias agitados. Tranquilidade, uma azevia e um vodka tónico que também tenho direito e sempre é Natal. Estão assim inauguradas as festas, ou melhor cerca de vinte e quatro horas algo alucinantes mas um pouco mágicas. É disso que eu gosto no Natal: de alguma magia, da surpresa, da reconcialiação e de alguma paz. Nada é como dantes com as mortes dos meus amores, mas há no Natal, como eu o vejo, alguma esperança e fraternidade.
Recebo um mail de uma amiga a passar as festas no Algarve, a contar-me que esteve há dias a retirar dezenas de baldes de água da cave de casa da avó. Parece que tanto embelezaram o centro histórico que impediram a permeabilização da praça e quando a maré enche, andam todos de balde na mão. Diz-me que poderia dormir noutra casa mais conforrtável, mas que prefere a casa antiga cheia de recordações de infância. Também ela me faz companhia a sul com um gin, desafiando a vida com água tónica de 2003. Uma coisa é certa: o leite creme e as fatias da China hão-de ter saído deliciosas, que aquilo são mãos habituadas a folhear folhas antigas.
Entretanto, e apesar de tanta paz entre os homens, uma criatura deixou-me penar cerca de meia hora com o carro bloqueado. Ainda ousei uma ou duas buzinadelas, mas o xinfrim custa-me tanto a mim como à vizinhança sem culpa nenhuma. A polícia informou-me por telefone que iria demorar, pelo que só me restava esperar e fazer o que estava na minha mão. O borgesso não pediu desculpas e eu também não.
Até já.

Terça-feira, Dezembro 22

Mele Kalikimaka/Bing Crosby and the Andrews Sisters (canção de Natal do Hawai)
Esther Williams

Segunda-feira, Dezembro 21

Inverno

HERMIONE

What wisdom stirs amongst you? Come, sir, now
I am for you again: pray you, sit by us,
And tell 's a tale.

MAMILLIUS
Merry or sad shall't be?

HERMIONE
As merry as you will.

MAMILLIUS
A sad tale's best for winter: I have one
Of sprites and goblins.

"Winter's Tale" Act 2, Scene 1

Estamos quase a entrar no solstício de Inverno. Quis Constantino I mandar festejar o filho de Deus contra os pagãos que celebravam o filho da luz.

Domingo, Dezembro 20


TCHAIKOVSKY - THE CHRISTMAS TREE WALTZ OF THE SNOWFLAKES

Sábado, Dezembro 19

Lisboa à noite



Sexta-feira, Dezembro 18

Geração vinil



Beach Boys - Good Vibrations

Nem todas as vibrações são más.

Rotundamente triste

Já me tinham avisado que as iluminações de Natal no Marquês de Pombal estavam de uma pobreza confrangedora, mas nunca imaginei que a penúria fosse tão grande.
A não ser que metade da estátua estivesse de luzes apagadas, o que não acredito, o que vi foi um Marquês polifracturado, enfaixado por ligaduras desde a clavícula até ao tendão de Aquiles. Umas luzinhas em forma de gaze pareciam querer proteger o monumento das diversas luxações e até afrontas de que tem sido alvo, nomeadamente, publicidade a céu aberto mesmo nas barbas do Marquês a empresas de telecomunicações, marcas de automóveis, isto sem falar no o deserto paisagístico na Fontes Pereira de Melo, etc. Tudo feridas expostas a quem passa naquela zona e que em tempos foi uma das mais nobres da cidade.
Depois das luzes apagadas, até os leõezinhos devem estar aparvalhados com as strobe lights por detrás da juba. Um monumento nacional versão tuning, nunca tinha visto.

Quinta-feira, Dezembro 17



Quarta-feira, Dezembro 16

Concurso: Finalíssima

Estava-se mesmo a ver que, à semelhança de anos anteriores, prémios nem vê-los. Pareceu-me logo muita fruta, essa coisa dos prémios fantásticos.
Pois foi assim que o Luis Novaes Tito resolveu a questão do vencedor: Atribuiu ex-aequo o primeiro prémio aos vinte e sete concorrentes, o que me parece, não desfazendo, uma tremenda injustiça para com a linda peça que apresentei a concurso e nem digo mais nada. Ainda podem pensar que estou despeitada.
Mas ainda me chego ao palco para desejar ao Luis e família, umas Festas Felizes, um excelente ano novo e para lhe agradecer este novo concurso de Natal. O que é importante é andarmos por cá todos para o ano, com saúde e disposição para outra peça do Presépio.

No tempo em que só havia microfilmes

Carole Lombard with Clark Gable in their only film together, No Man of Her Own

e em que as bibliotecárias (louras) se deixavam enroscar nos braços do Clark Gable.

No tempo em que só havia microfilmes (2)

Spencer Tracy e Katharine Hepburn no filme "Desk Set"

uma bibliotecária (lindíssima e eficiente) namoriscava entre as estantes de livros. Coisas de filmes.

Enquanto isso, um computador com nome de mulher, Miss Emmy, ameaçava tomar o lugar e o trabalho das diligentes (e elegantes) bibliotecárias da estação de televisão, receosas da mudança. Nada que um romance não viesse resolver.

No tempo em que só havia microfilmes (3)


Tal como ainda hoje acontece, também no passado se faziam filmes de qualidade duvidosa, por boas razões.

Segundocreio, trata-se do primeiro filme de Hollywood explicitamente anti-McCarthy, em que Betty Davis desempenha o papel de bibliotecária numa pequena cidade e se recusa a retirar das estantes o livro 'The Communist Dream', em troca de um acréscimo de fundos que o conselho local pretendia atribuir.

Fotografia da LIFE: Betty Davis em Storm Center (1956)

No tempo em que desapareceram os microfilmes


as bibliotecárias ainda usam chinó e os livros, alinhados nas estantes, hão-de ter um brilho azul . Os bustos não serão de Jedi famosos, mas de outros personagens que a história se encarrega de criar.

Jocasta Nu para Obi-Wan "If an item does not appear in our records, it does not exist."
(STAR WARS, EPISODE II: ATTACK OF THE CLONES (2002).

Terça-feira, Dezembro 15


JULES ET JIM
Directed by FRANCOIS TRUFFAUT Music by JEANNE MOREAU

Um tigre, dois tigres, três tigres

A senhora Woods que me perdoe a minha falta de solidariedade feminina (aliás, por onde andará quando precisamos dela?), mas seja bem-vinda ao planeta Terra onde parece ter acabado de aterrar. Acredito piamente que na terra onde corre leite e mel, onde tem residido graças às virtuosas tacadas do seu marido, não exista infidelidades. É possível que, no Olimpo dos seus resorts privativos não exista sacanice, mas isto aqui, entre terráqueos, o mundo é manhoso e raramente sensato.
Ui, que não deve ter sido nada fácil saber não de um caso, nem de cinco, mas de dez casos em que o seu marido terá andado envolvido (veja bem a delicadeza desta expressão). Ui, só de imaginar os mil pretextos que terá ouvido, mil e um treinos em greens de lençóis alheios, até a mim me dói, que quem não sente não é filho de boa gente.
Desejo-lhe a maior das sortes, até porque espero que o seu marido abandone rapidamente o período de nojo (ainda por cima), volte às tacadas profissionais e deixe os demais jogos para amadores. Por mim, continuarei a seguir as suas desventuras domésticas nos episódios da Fox News , que são muito mais juicy. As notícias que cá chegam são coisas de meninos.
Pode não servir de grande consolo, mas não esqueça que não foi a primeira nem será a última, e escândalos no showbiz sempre houve e sempre haverá, lá no céu das estrelas como aqui na terra dos simples. Certamente estará recordada do Hugh Grant, um rapaz de aspecto conservador que se meteu em alhadas com um@ criatura que nada tinha de divine, e o outro maduro, o Georges Michael, apanhado entre arbustos de parques públicos e casas de banho duvidosas e decerto mal cheirosas.
Cheer up! o dinheiro não traz felicidade, mas pelo menos não terá que dividir os tupperwares.

Segunda-feira, Dezembro 14

Aprendendo alguma coisa


The Fragility of Goodness- Luck and Ethics in Greek Tragedy and Philosophy

Para afastar os ventos de mediocridade que pairam por tantos lados, enfastiada com os trolls ou trolhas de serviço, não desfazendo no trabalho honesto destes últimos. *

Aqui fica a Martha Nussbaum a falar sobre sobre Hecuba e a beleza (moral) da fragilidade, "ethical life", vingança e traição. (Obrigada)

Hecuba de Euripedes

* Bem sei que nada tem a ver, mas como o blog é meu, recordo-me bem daquele russo de meia idade, operário da construção civil que, diariamente, e durante algum tempo, vinha à biblioteca pública durante a hora de almoço. Trazia uma maçã, tirava um livro do bolso, e sentava-se a ouvir os cd's de Tchaikovsky ou Stravinsky. Não, isto não é romance nem lirismo. Antes fosse.

Comentário do Jansenista:
Como num comentario de Proust, as vezes surpreendemo-nos quando o silencio nos revela que as badaladas da torre da igreja continuam a soar e com a mesma cadencia - e que era so o facto de estarmos imersos na confusao e no ruido que nos estava a privar dessas sabias e reconfortantes reconfirmacoes de uma autenticidade mais recondita e discreta.
Os trolls sao criacoes fantasticas dos tempos medievais - dos tempos, lembremo-lo, em que se dizia que nem uma so flor era capaz de crescer fora dos muros dos conventos. As vezes regressamos a isso, e que conveniente que se torna entao termos espessos muros em torno do nosso jardim!
Acho que e isso que procuro traduzir nas alusoes a um Ashram: a ideia de um bastiao de invulnerabilidade contra o alarido. 11:23 PM

Domingo, Dezembro 13

No seu lugar


Num dos poemas mais fascinantes (se assim se pode dizer) da minha existência, Eliot descreve a essência e as fases da vida, em associação com lugares que define como "Houses live and die: there is a time for building And a time for living and for generation" (...), ou seja, "Home is where one starts from*".
Acredite o leitor que não sei como me fui lembrar de Eliot. Hoje arrependo-me de os meus conhecimentos de poesia não passarem de um lamentável mínimo bastante confrangedor, mas julgo que é para isso que servem os balanços da vida que surgem com a idade. E por aqui me fico quanto a confessionalismos, que nunca são boa companhia.
Creio ter recordado do poema por uma constatação, muito pouco poética (provavelmente errada) de que, na generalidade, cada vez se passa menos tempo em casa. Talvez por isso, mesmo que ainda existam telefones fixos, a tendência é para usarmos telemóveis onde as pessoas possam ser contactadas, seja numa esplanada, nos treinos dos miúdos, no teatro ou num restaurante, onde francamente não dá jeito nenhum estar com conversas.
No meu caso, honra seja feita a meia dúzia de pessoas que se encostam nos sofás que reconheço à distância, usam o velho aparelho, hábito antigo que não perderam nem querem vir a perder. Não é para dar recados nem avisos rápidos, é mesmo para falar, dizem. Ou melhor, dizemos uns aos outros, sem nos dispersarmos com quem passa e sem condicionamentos de voz ou linguagem. Eles estão lá com os seus objectos, os seus cheiros e os seus jeitos, e eu gosto de os imaginar assim. Por isso, agrada-me pensar que é outra forma de ver e ser visto. Sem sair de casa.

* EAST COKER (No. 2 of 'Four Quartets')-T.S. Eliot

Sexta-feira, Dezembro 11

Em draft

Um dia destes, em vez de um post, escreve referências bibliográficas.

Quinta-feira, Dezembro 10

Concurso

Afinal a tradição ainda é o que era e o Luis Novaes Tito, entre a política e os lugares onde foi feliz, lançou de novo o concurso menos competitivo de que tenho memória: o concurso de presépios de Natal, este ano com a representação do burro.
Confesso que ainda hesitei entre um jerico em prata portuguesa e este, da mais pura porcelana do chinês da Ajuda. Optei por este último, um lindo exemplar de olhar nostálgico e de orelha murcha um pouco rachada. Como boa conservadora, dou valor à patine do tempo e à memória das formas.
Espero que desta vez, isso dos prémios fantásticos seja uma realidade, pois há quatro anos que ganho um glorioso 1º lugar ex aequo com os restantes concorrentes, e nunca vi prémio nenhum, que me desculpe o Luis pela observação.

Geração (muito) vinil




Anita O'Day - That Old Feeling

No tempo em que a música não cortava maionese

Um pouco de paz


A propósito do excesso de ruído que me rodeia e que me incomoda, assunto barulhento tão bem retratado há uns tempos por António Barreto no Público, verifico (mas posso estar enganada) que há muita gente que pouco tempo se aguenta em casa. Não estou a falar sequer desta festiva e colorida época natalícia, na qual é suposto estarmos todos felizes, com ruas e centros comerciais apinhados, sacos engalanados, luzes e badalos. Aliás, e não é por acaso, que voluntariamente fico entrincheirada num ambiente no qual, pelo menos posso controlar o termostato, condicionar os níveis acústicos e ostracizar os pais natais, o que, confesso, me dá algum gozo. Já quanto a árvores de Natal, se não há pinheiro a sério, não contem comigo. Pois é, agora usa-se tudo mastigado, reciclado e as árvores são poupadas ao abate, azar o meu. Aqueles adornos brancos ou prateados, estilizados, raquíticos, minimalistas, vagamente coniformes, podem ficar deslumbrantes em muitas casas & decoração, mas não na minha. Assim sendo, as renas e as "merry seasons" ficam onde devem estar, lá longe, onde a noite se confunde com o dia, entre saunas e neve em abundância. O azevinho verdadeiro, pobrezinho, já foi desaparecendo e nunca se sabe se a bicharada se lambuza com as bagas vermelhas. Pois fica o eucalipto e outra planta cheirosa cujo nome desconheço, ao bom estilo "back to basics", a lembrar a minha aldeia, ou aquilo que hoje me parece que eram aqueles tempos distantes.
A manhã acordou cinzenta mas não me queixo. Não fosse a humidade entrar-me pela clavícula dentro, diria que é um dia perfeito. Entretanto foi já declarada oficialmente aberta a época de paz e amor entre os homens de boa vontade, com votos de solidariedade, tolerância, contra a guerra, a fome e o aquecimento global. Se os bons espíritos fossem decretados com as decorações de rua, teríamos Natal quase até ao Carnaval.
(cont.)

Quarta-feira, Dezembro 9

Geração vinil




What a wonderful world this would be - Sam Cooke (The witness)

Desta vez acompanhada do riso de Kelly McGillis a rodopiar nos braços do capitão John Book com a sua eterna camisa azul e calças castanhas.
Ou a forma como mil e um tratados sobre tensão sexual se reduzem a troca de olhares, um banho com esponja e uma dança num celeiro. Ah! Os celeiros no cinema!

Para o blog CINE-AUSTRALOPITECUS

NOTA:
Jonathan Littell, autor de "As Benevolentes", o melhor livro que li este ano, ganhou o "17th annual Bad Sex In Fiction Award" atribuído pela Literary Review pela passagem nesse livro que começa por "This sex was watching at me, spying on me, like a Gorgon's head".
Nem sempre os melhores autores têm boas idéias.

Segunda-feira, Dezembro 7

Pascal Rogé e Debussy, que faz bem à saúde e a saúde está primeiro.

2009

Os melhores livros de 2009 segundo The Economist :
"The best books of 2009 covered the financial crisis, climate change and the war in Afghanistan, as well as justice, corruption, cooking and the power of literature". (Sugestões no Twitter via José Manuel Fernandes)


Um blog feito por um Belga, cheio de ambientes cuidados, bom gosto e harmonia. Este blog - The neo lyfestyle - devia ser meu.

Sábado, Dezembro 5

Até ao fim

Profissional até ao fim, pediu que na campa fosse gravado "ver também".
A morte está cheia de remissivas.

Quarta-feira, Dezembro 2

Terça-feira, Dezembro 1

Old habits die hard

O homem é ele e os seus hábitos cheios de lugares, aromas, comportamentos, trajectos, o lado para adormecer, modos de dormir, de sorrir, de falar, cruzar as pernas, roer as unhas, gestos de carinho, formas de amar, de ignorar, concordar, praguejar, calar, agradecer, olhar as mãos, fugir do olhar, mexer no cabelo, correr o fecho, tirar os brincos, o anel, o shampoo, o amaciador, o almoço dos miúdos, o casaco na cadeira, as chaves no móvel, a maçã, o café, o cigarro, a nódoa na gravata, os cereais, a luz de presença acesa, os passos no corredor, a porta do elevador, o fio dental, o creme de dia, pôr a mesa, gestos de gente diferente de hábitos iguais.
Bons hábitos, outros maus, uns saudáveis outros nem por isso, gestos repetidos, alguns irreflectidos, maquinais, trajectos que fazem a nossa vida, que nos ocupam o dia, os sons de respirar que ouvimos à noite, os costumes que cultivamos e os vícios que não deixamos numa check list que nem reparamos.
São os hábitos, rotinas do nosso contentamento e por vezes o automatismo do desencanto. Pergunto-me de que serão feitos os teus gestos, que gosto terá o teu encanto ou que formas tomam os teus desagrados. Interrogo-me se vigias o meu sono, se sentes o meu cheiro ou se ris do que me faz rir, rotinas boas como um vício que se quer guardar. Bem sei. É o hábito de escrever ficção.

Segunda-feira, Novembro 30

Há dias assim



Rose, Rose, o meu blog por uma Rose.!

YOUNG AT HEART-Dean Martin
Absolutamente fantástica

Web log na calçada

Depois de uma breve e frustrante incursão no mundo da restauração (onde nem tudo corre sempre assim tão mal), constato com alguma irritação que o panorama do comércio de vestuário também já viu melhores dias, e não falo sequer de grandes armazéns. Seja porque as empregadas se sentem indispostas, mal pagas, cansadas ou até sem qualquer jeito para a função, a verdade é que se torna cada vez mais difícil encontrar um bom atendimento. Não são necessários grandes sorrisos nem mesuras. Um pouco de afabilidade e alguma competência já me chegam, que sei arranjar-me sozinha. Curiosamente, talvez devido a frágeis contratos laborais ou a alguma formação, a verdade é que me entendo muito bem com as meninas de uniforme. São despachadas e cordatas. Ça suffit. Claro que há simpáticas excepções no comércio de rua. São essas que nos fazem voltar aos locais onde somos bem recebidos. Por mim, trato os outros como gostaria que me tratassem a mim, e sei do que falo.
Têm sorte comigo, as criaturas mal encaradas, que não sou pessoa para cenas estridentes nem quezílias de trapos. Aprendi a poupar-me e não compro guerrinhas de balcão, mas conheço muito boa gente que não lhe custaria nada, como represália, pedir todos os modelos trinta e oito em cinco cores. Estes últimos dias, uma maçada, têm sido fatalidades umas atrás das outras, praticamente corrida à vassourada com o ar de enfado não de uma, nem de duas, mas de três filhas de Deus mortinhas por me ver pelas costas. Mas quando a dondoca da televisão a meu lado pediu lençóis Ralph Lauren para a criança, a parvalhona mudou logo de registo, e eu mudei de loja.

Domingo, Novembro 29



Jackie Brown - The Delfonics - Didn't I ( Blow Your Mind This Time )

São manchas, senhores.

Depois do folhetim (em meados de 2007) do abate de 97 plátanos durante a reabilitação do Campo Pequeno e a sua posterior substituição por algumas árvore-palito assistimos, de novo, ao corte de mais árvores na sequência da requalificação do Jardim França Borges, mais conhecido por Jardim do Príncipe Real. Em ambos os casos, as árvores apresentavam sinais de maleitas diversas (dizem) e decidiram (quem pode) cortar o mal pela raíz, literalmente.
Quando ouço falar em requalificação e reabilitação, temo sempre o pior. Os resultados estão à vista, ou melhor, foram levados pela serra eléctrica, pela cupidez imobiliára, ou por zelo burocrático sem gosto nem sentido histórico. Quem vier por fim, que apague a luz.

Sábado, Novembro 28

Domingo à tarde


Fica mesmo assim, em italiano. Temo que o meu português arruine o original: "In un convento fondato dai domenicani sorge una tra le più antiche e affascinanti profumerie, la preferita anche di Caterina de' Medici", a Officina Profumo farmaceutica Santa Maria Novella, instalada em Florença non è solo un luogo di vendita, ma un vero e proprio museo della tradizione fiorentina.
Se os abençoados produtos, cultivados originalmente no "orto dei simplici", eram bons para a Catarina de Medicis, também em mim hão-de fazer milagres. Tinhas razão, Luis Miguel. De Florença para Lisboa, mesmo ali, na Rua da Misericórdia, uma loja de estilo depurado cheia de tisanas, cremes, chocolates, óleos, para mulheres, homens e crianças, cheiros maravilhos e texturas fantásticas, em frascos à antiga como já não se veêm, que hão-de curar o corpo e dar vida à alma.

Uma das fotografias do blog O Silêncio dos Livros, no Origem das Espécies,também com deliciosos registos (anotados e comentados) sobre pequenos poderosos, zeladores que nos apascentam e enochatos, ou a ironia inteligente que faz falta em tempo de crise.

Não fico propriamente exultante, mas nem sempre a boa escrita é um parque de diversões.

Quinta-feira, Novembro 26


ÚLTIMA DAS MITFORD : Deborah Mitford Cavendish, Duquesa de Devonshire. Talvez a mais decente das irmãs e ainda bela. Autora de obras sobre Chatsworth, solar dos Devonshire e uma das mais belas casas de Inglaterra, mecenas de Lucian Freud e anfitriã frequente de Noel Coward (autor de Imagine the Duchesse’s feeling). "


"The Stately Homes Of England"-NOEL COWARD
.
“"Twenty-three and a quarter minutes past," Uncle Matthew was saying furiously, "in precisely six and three-quarter minutes the damned fella will be late”
Nancy Mitford



Hyde Park Gardens, uma mansão londrina
Quem nunca mandou recadinhos, que atire o primeiro post.

Quarta-feira, Novembro 25

Cilindrada

No ínicio era o alinhamento da direcção (esta expressão é todo um programa). Acedi aliviada pela ausência de maleitas maiores, se bem que essa coisa da linha justa não seja muito do meu agrado. Pela segunda vez insisti na questão dos pneus novos e no limpa pára-brisas novinho em folha. Os inspectores haveriam de reparar no meu zelo. No entanto, em menos de nada, a lista ia sendo alongada com pormenores, peças e problemas dos quais não sei nem quero saber. O sr. mecânico desconhece a minha difícil relação com máquinas de quatro rodas, pelo que tento evitar fazer ar de fastio, mas não uma indisfarçável cara de parva.
Ainda consegui fixar a problemática do óleo, a complicada questão das velas e, por fim, as mazelas do tubo de escape, que nunca escaparão ao olho treinado desses tais inspectores que me infundem um temor ao nível de uma sentença do exame de código ou mesmo de uma resposta das Finanças. Torno a insistir nos pneus novos e no limpa pára-brias novinho em folha que haveriam de ser bem avaliados, mas que em nada contribuem para impedir o sentimento de pequena delinquente culpada de desatenção ao óleo, às velas e desleixo com o tubo de escape. Bem vistas as coisas, já lá vão três dias, três molhas e, certamente, uma conta com grandes três dígitos, que isto anda tudo ligado.

Entre "cacos" e pedras

Exposição para "fanáticos" da autora, a que tive o gosto de assitir. Uma tarde deliciosa no meio de adereços e roupa que os actores usaram em diversos filmes passados no Egipto, objectos pessoais, documentários e uma fantástica colecção de livros. Lá estava também a carruagem do Expresso Oriente.
São estas coisas que separam as cidades civilizadas das outras, onde medra o deslumbramento saloio, os "topos de gama", a falta de vegonha e a vergonha da justiça que paralisa tantas vidas.





Exposição: Agatha Christie and archaeology no British Museum (8 Nov.2001- 24 March 2002)

Terça-feira, Novembro 24


Procol Harum - T.V. Caesar (Mighty Mouse) 1973 Music Video

Corte & escovinha

Gostava de saber o que iria pela cabeça daquele homem, ainda jovem, com quem há dias partilhei o mesmo salão de cabeleireiro (ainda se diz assim?). Parece-me que é bastante comum aparecerem por lá cavalheiros a cortar o cabelo. Nunca perguntei nem o tenciono fazer, mas acredito que fiquem um pouco constrangidos com aquele corropio feminino entre lavagens, secadores e verniz das unhas.
Ao contrário da restante clientela, não têm literatura adequada. Ou melhor, não me recordo de algum deles alguma vez ter aberto as revistas cor de rosa ou de cabelos (levante o dedo aquela que nunca o fez). Depois, ninguém lhes dá conversa, o que me parece agradecerem.
O cavalheiro do outro dia, sentado entre uma madura com alumínios no cabelo e outra madura de mão estendida com cabeça enrolada numa toalha, aguardava pacientemente a sua vez, enquanto ia estudando a vitrina dos cremes. De facto, o panorama era pouco animador: o desgraçado ficou a saber que o bebé da M tinha nascido com 3 kilos e meio, dormia bem e chorava pouco, que o talho tinha receitas novas e que a electricidade estava pela hora da morte. Chegada a hora de ser atendido, meia dúzia de tesouradas depois, escovinha no pescoço e estava pronto a sair, mas não sem antes ter pedido o frasquinho de gel do qual terá ficado com boa impressão. Mesmo sem ter direito a espelho na nuca, pareceu-me aliviado por sair dali. Nós ficámos. Uma mais loura, outra mais nova, a mais velha de unhas pintadas e a mais jovem ainda com mais manias.
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Texto reeditado

Segunda-feira, Novembro 23

2

-Ah! Em criança não gostava de smarties?


1

Se acaba de chegar a este blog, vai começar a sentir-se ensonado...



Sábado, Novembro 21


pois o que a gente busca
nas dobras do amor
é a cura para a morte
que não tem consolo

Fernando Assis Pacheco, R., 1992, "Respiração assistida"
Le Roman de la rose - The Garden of Pleasure (e-card da British Library)


GILBERT BECAUD " LES MARCHÉS DE PROVENCE "

E é assim

(...) persisto na ideia de conviver harmoniosamente com a modernidade embora só me sinta feliz no reduto do que já conheço. Uma agenda Filofax. Um disco que já ouvi. Um autor que não me surpreende, Uma bebida que conheço há anos. O eterno cozido à portuguesa do Painel de Alcântara. O croquete do Gambrinus. Vergilio Ferreira. João Gilberto. O pastel de massa tenra do Frutalmeidas. Gosto do que é novo, mas o confronto cansa-me. Gosto de conhecer novas cidades, mas logo que posso volto a Londres e a Barcelona, (...) Propositadamente, misturo o que não se mistura - para que se perceba que há, no conservador não assumido, algo que está aquém e além da ideologia ou sequer da cultura familiar. Como se tivesse uma marca genética que não se consegue vencer por decreto."
Pedro Rolo Duarte "Voz baixinha: sim, eu sou...."
Jornal I. Esta semana "Conservadores".

Também, "Porque não sou conversador" de Rogério Casanova e entrevista com João Pereira Coutinho, alguns amigos, locais e objectos nos quais me reconheço.

Sexta-feira, Novembro 20

Com penas



Andam meio apardalados, os pássaros da minha janela. Noutros tempos, logo que começava a escurecer, enfiavam a cabeça sob as asas e assim ficavam até o sol nascer. Caladinhos, sem piar.
Not anymore. Agora ouço-os tagarelar à luz do dia e, incansáveis, não param quando o sol se põe. Tomam coisas esquisitas os pássaros da minha rua, baralham-me o dia e a noite, privam-me dos sinais que induzem o sossego, como o toque de campainha, o apito de uma fábrica ou o sino das Avé-Marias. Como a Irmã M., que rezava ao som da buzina do meio-dia no quartel de bombeiros.
Diz-me um entendido que já deveriam, por esta altura, ter partido para as terras quentes do sul, mas vão ficando por cá, a passarinhar, com as temperaturas amenas que encontram nas árvores da cidade. Afinal, a natureza é muito simples.
Chilreiam todo o dia, twitam, namoriscam sem sair dos galhos, comunicam sem saltar dos ramos, enfileirados, truculentos, todos iguais, tagarelas, desconfio que gostam de se ouvir. Os mais inquietos saltitam de árvore em árvore, uma bicada aqui, uma vénia acolá, à procura de comida ou companhia em vôos solitários rasantes à minha janela sem beira, disputando o espaço com acerto, conhecedores do norte e do sul. Não tenho asas, mas tenho pena, não vos entendo.
(Imagens: Edward Hopper)

3 anos


Dia 24 de Novembro é a festa dos 3 anos do 31 da Armada. No Lollipop (LX Factory) às 22:30.
Sou pessoa para garantir que, à semelhança das anteriores, há-de ser uma grande festa.

Quinta-feira, Novembro 19


Bird On The Wire Leonard Cohen

E as manhãs, o que são?*

Descobri há pouco tempo que não conhecia as manhãs. Para as manhãs, nunca estou. Vou, regresso, corro, já com a luz posta, com a cidade em movimento em edíficios fechados. Quando as ruas se esvaziam e cada um toma o seu lugar, a manhã enche-se dos seus habitantes, gente com quem não me cruzo nas manhãs dos meus dias a néon e ar condicionado, que toma o espaço que os outros libertam, com um ritmo mais lento, com passo menos seguro e com mais tempo. São os idosos, os reformados nos correios com as notas, as facturas e as pensões, os casais nos bancos à procura de uma vida em casas sonhadas, as mulheres e os homens com impressos, sisas, obrigações, fichas de chamada nas finanças, uma geração de mulheres sem impostos e sem rendimentos, de alcofa e porta-moedas que percorre o mercado, ao peixe, à carne que há-de ter pronta à noite para os seus.
Vejo-as chegar no 47, acordadas há muito, com o saco, o almoço, o avental, a bata, os sapatos para trocar, o carteiro a tocar às campainhas de casas vazias com contas a pagar, notícias e cartas timbradas. Sem farda, os cobradores tentam arrecadar as quotas, os fiscais fazem vistorias, os limpa-chaminés vão tentando a sua sorte e, lá ao longe, ainda se ouve o assobio do amolador. Nas zonas de comércio, há muito que os pedintes tomaram os seus lugares, os artesãos arrumaram a mercadoria e os homens dos retratos prepararam as tintas.
O trânsito, condicionado e programado à força de sinais, tenta mexer-se, encaixar-se nas ruas estreitas das descargas e circular por entre o caos das avenidas na pressa para o escritório. Os arrumadores vão chegando pouco a pouco, acordando lentamente de ressacas sem fim, tentam as primeiras moedas para a dose do dia e junto aos semáforos, juntam-se o velho Borda d'Água e os novos jornais. São os tempos modernos.
São estas manhãs que terminam quando as ruas se enchem de novo, de gente a correr, barulhenta, com horas marcadas, relógios de ponto e estômagos vazios. A estes conheço-os, ocupamos os mesmos espaços, caminhamos lado a lado, cruzamo-nos sem nos vermos e mais tarde, já quase sem luz vamos esvaziando as ruas e enchendo as estradas na viagem de volta. Até ao outro dia. Para mim, para eles, sem estas manhãs que não vemos.
*
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Texto editado, para a C.

Quarta-feira, Novembro 18

Do outro lado


Ensinam os genealogistas que se deve mencionar, no verso das fotografias, informação que permita, no futuro, identificar as imagens, ou seja, o local, os intervenientes, a data, a ocasião, etc.
São curiosas, as fotografias antigas, com o seu habitat natural em velhos álbuns, gavetas de cómodas ou caixas antigas. São, na maior parte das vezes, registos de momentos felizes ou simplesmente formais, onde se encontra um pouco de tudo, desde fotografias de estúdio com meninos vestidos de marinheiro, de carnaval, o fato da 1ª comunhão, o bebé gorducho com os refegos , até casais janotas em cadeiras compridas, qual dos dois com o bigode mais garboso.
Tal como agora, lá estão as fotografias ao lado da personalidade importante, influente, abastada, o presidente, o patrão, o senhor engenheiro ou o parente rico. Hoje chamam-se celebridades ou ronaldos, não desfazendo na carreira meritória dos jogadores de futebol nem nos grandes feitos e vidas gloriosas das pessoas conhecidas como "importantes".
Saídas das molduras, lá estão as fotografias dos homens fardados da família, em tempos de guerra, registos de locais e gentes exóticas, guardadas na esperança de até ao meu regresso. E claro está que não poderiam faltar as imagens perto de monumentos, à la minute, os casamentos, as férias, e os parentes afastados a quem perdemos o nome e o rasto.
Do outro lado, no verso, mãos zelosas registaram ocasiões para que não se perdessem nas recordações nem nas gavetas, como um teatrinho de escola. É nisto que o digital fica a perder, feito de caracteres normalizados sem mãos que acarinham as memórias.

Terça-feira, Novembro 17

Num vulcão perto de si



Assim ficou a terra quando a lava se cansou de correr para o mar.
Por aqui andou também a Rachel Welsh nos finais dos anos 60 a filmar o filme One Million Years B.C. Não sei se, passados tantos anos, seria uma boa ideia vê-la emergir das águas escuras, mas a qualquer momento pode surgir a Estátua da Liberdade como no Planeta dos Macacos.
Não me recordo de alguma vez ter visto tal filme, mas às horas tardias a que irá para o ar, não será a Rachel Welsh nem as dentuças de qualquer dinaussário que me tiram o sono.
(Lanzarote)

Domingo à tarde



Longe da política que me agasta e dos inflamados fracturantes cheios de "direitos fundamentais", fico-me com as palavras do Filipe Nunes Vicente sobre a felicidade , com a série"Uma questão de transportes", com o delicioso Saponáceo, tudo isto acompanhado ao piano com as fotografias do Jansenista.
Não fico mais animada, mas nem sempre a boa escrita tens fins recreativos.

Domingo, Novembro 15


Daniel Barenboim - Moonlight sonata - 1ºmov Adagio sostenuto
Beethoven - Sonata No. 14 C sharp minor Op. 27 No. 2



Jacqueline du Pré: A Celebration of Her Unique & Enduring Gift

Sábado, Novembro 14

Coisas antigas


Valha-me Deus, mas esta louça ainda existe, ainda sobrevive ao fim de tanto tempo? Eram horríveis, aqueles armários de cozinha das cidades junto à fronteira, cheios de pyrex esverdeados e amarelos, fruto de um ingénuo contrabando com que os nacionais se entretinham aos fins de semana à míngua de outras diversões e da peseta barata.
Às vezes tento explicar aos mais novos, mas não conseguem compreender que a internet, as playstations e a Bershka nem sempre existiram. Não estranho. Já mulher, casada, voltei a alguns daqueles lugares, e faltavam-me sempre as palavras certas para explicar a alegria do passado que a escassez indígena nos provocava naqueles passeios de infância.
Durante anos, atazanei a minha mãe com traumas antigos que ela, sem contraditório e sem pestanejar, me causou até à idade adulta, obrigando-me a usar uns sapatos medonhos (caríssimos) que comprava em Espanha sempre que se aproximava o Inverno. Eu queria mocassins como os primos de Lisboa, mas o argumento era sempre o mesmo, que os meninos lá em baixo não apanhavam tanto frio. Deixa lá as galochas que isto não é a apanha da azeitona. Para me apaziguar, escolhia umas calças de ganga, um frasco de colónia da Puig e sabonetes pretos, de que não me recordo o nome. Os meninos compravam chumbinhos para a flober e davam-se por satisfeitos. No final do dia, havíamos todos de ir beber Coca-Colas como se não houvesse amanhãs e os adultos bebiam cerveja e petiscavam saladinhas deliciosas em balcões corridos, em locais onde entravam homens e mulheres. Sim, locais onde entravam homens e mulheres sem recriminação nem estigma. País da treta, o nosso.
Arrastada sem um ai para lojas de correeiros e de material de caça onde a língua nunca foi obstáculo, não via a hora de subir a escadas rolantes que me haveriam de levar à camisola exclusiva no liceu e ao êxito calculado na festa de garagem.
E foi assim, que durante anos a fio, as cozinhas das terras junto à fronteira se foram enchendo de garrafas La Casera (uma trampa de gasosa), pyrex variados, pimentão vermelho e condimentos para enchidos. A vizinhança agradecia as pantufas, os caramelos, o turrón (terrun, para os nacionais) e o brandy com o touro. Eu agradecia tudo, à excepção dos sapatos, e voltava sempre feliz.
Deixei estar a louça onde a encontrei. Suave contrabando, sobreviveu ao controlo da fronteira, a mudanças de casa, de mãos e há-de sobreviver assim nas minhas recordações.

Sexta-feira, Novembro 13

Entretanto, no Vida Breve, um dos meus blogs preferidos, vive-se assim:"
O jardim do Palace Hotel Bussaco, antes de me etilizar com três gin-tónicos na varanda e de perder sem qualquer dignidade ao crapô."
Perante um gosto irrepreensível, sempre acreditei que não é a ideologia que separa as pessoas.


Larry David - Lemonade




Absolutely Cuckoo - 69 love songs
Magnetic Fields

Quinta-feira, Novembro 12

Mas a "3ª via" teve o fim que se conhece

Porque leva um saco de bananas, perguntava um jornalista português em reportagem durante a Queda do Muro. "Para os meus filhos. Nunca viram bananas", foi a reposta do habitante de Berlim Oriental. É por estas e por outras que tenho dificuldade em compreender tantas hesitações e explicações titubeantes. Não sei porquê, mas recordo-me sempre de um sketch do Herman José no papel de Diácono Remédios com dificuldades em verbalizar a expressão "ver...melhos".

Nos documentários que têm passado recentemente nas televisões sobre os países de leste durante a Cortina de Ferro, antigas estrelas pop, fotógrafos, humoristas e escritores da antiga República Socialista da Checoslováquia descreveram a mentira e a hipocrisia em que todos pareciam estar envolvidos e explicaram como a retórica comunista, envolta em propaganda, era tão diferente da realidade.

Durante a Primavera de Praga, uma cidadã é acordada pela mãe: "Marta, fomos invadidos". "Mas invadidos por quem? Os americanos já cá estão. Porque querem invadir-nos?" Foi assim o começo da Operação Danúbio e do processo de normalização, em que o suicído de Jan Palach (imolado pelo fogo) viria a ser um símbolo da luta contra a repressão. As imagens de Václav Havel vigiado na sua própria casa deveriam transmitir alguma coisa, e que uma revolução, mesmo de veludo, implicou uma coragem mal silenciada de lutadores antigos.
Da Roménia de Ceauşescu vimos imagens da destruição da cidade antiga para que o ditador pudesse realizar o seu megalómano Palácio do Parlamento, os relatos da inúmeras mortes de operários durante a sua construção, a paranóia de trazer gente dos campos para as cidades, desenraizando-as das suas origens e enfiando-as em casas absolutamente miseráveis, com escassez de alimentos e torturados pelas baixas temperaturas.E quando já nada havia para comer, visto que todos os bens alimentares eram exportados, sobravam os pés de porco, verdadeiros patriotas que não saíam do país.
As derradeiras imagens deste casal de ditadores, repetidas vezes sem fim, mostravam uma Elena Ceauşescu (com mau cheiro, nas palavras do guarda) que gritava "Criei-vos como uma mãe". Bem vi, e nunca me hei-de esquecer, dos "seus filhos" deficientes abandonados como animais em instituições inqualificáveis.
É por isso que não percebo quando os ouço defender um regime apascentado por esta gente canalha.

O camarada Dubček teria gostado



Good Bye, Lenin!

Era de noite e fazia frio, em 9 de Novembro de 1989. As imagens dos documentários mostram mares de gente a atravessar uma estreita fronteira física entre duas cidades que os homens dividiram para separar homens e ideologias. Era também à noite que se ouviam tiros junto ao muro que derrubavam quem o ousava passar.
Era de noite quando milhares de berlinenses de leste sairam à rua depois de ouvirem, incrédulos, a informação saída do bolso de um dirigente confuso numa conferência de imprensa atabalhoada. As imagens que temos desses momentos não nos deviam deixar indiferentes e, por isso, tenho pena que os mais novos as troquem por patetices modernas em horário nobre. Se tivessem perguntado quem era aquela gente vestida de forma antiquada, saloia, pobre, em carros de plástico, ter-lhes-iam dito que houve tempos em que uma cortina de ferro dividia uma Europa que eles agora atravessam livremente.
Quando visitei Berlim pela segunda vez após a queda do muro, estive no Cafe Sybille na austera Karl Marx Allee, à espera de encontrar alguma coisa de um tempo perdido, cuja memorabilia se vende agora na rua a turistas e colecionadores. Pareceu-me que o ar do tempo também já tinha passado por ali, como um modesto café da minha província, à espera do camartelo. Dizem-me que o Café Adler junto ao Checkpoint Charlie já fechou e pertence actualmente a uma rede local de cafés. Agora, só a sua memória nos livros, filmes e nas histórias de espionagem.

Por isto tudo, coisas minhas, recordei as caricatas cenas do filme "Goodbye Lenin" com a improvisação patética de um telejornal a incensar Erich Honecker, a estátua do Lenin a ser retirada, e o anúncio da Ikea nos cartazes da cidade. Foi também o começo de uma história de amor em tempos de liberdade, mas isso agora não importa nada.





When You are Old
WHEN you are old and gray and full of sleep
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true;
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face.

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how love fled
And paced upon the mountains overhead,
And hid his face amid a crowd of stars.

William Butler Yeats

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Neste mês de Novembro, cheio de sombras no nosso calendário dos afectos, e em particular neste dia, um poema a quem não vimos envelhecer. A saudade que temos deles e a falta que nos fazem.

Segunda-feira, Novembro 9

Excepcionalmente, porque dia não é dia, este sujeito em ceroulas. Ainda hoje, uma unha encravada na vida e na cabeça de muita gente. .

Sábado, Novembro 7

Je suis perdue from JMC on Vimeo.


JE SUIS PERDUE
por Gigi Gaston - video de Jean-Luc Godard
Do Almocreve das Petas

Obrigada

Quinta-feira, Novembro 5

Magnetic Fields - I Don't Believe in the Sun

Coisas de amigos


Lá de bem longe, o Combustões do Miguel
Falamos sempre de si.

Zarah Leander - Bitte an die Nacht (from "Damals")

Ao fundo da rua, Um amor atrevido

Je Maintiendrai, a falta que faz
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