quarta-feira, novembro 21

Com um brilhozinho nos olhos.

Com um brilhozinho nos olhos Perto de minha casa há uma florista. A avaliar pelo entra-sai, há muita clientela a comprar flores (e a que preços!). Mas hoje, não é a clientela no geral que me interessa. São os homens. Reparo com atenção quando saem com os seus ramos de flores (gostam muito do rosas, os cavalheiros), com alguma timidez, embaraço, sem jeito, a atravessar a rua em passo de corrida, pode ser que ninguém os veja, Deus queira que ninguém os aborde. O homem com quem hoje me cruzei, por exemplo, com um valente ramo de flores, quase que poderia dizer que sorria. Um sorriso apertado, envergonhado, indecifrável, mas era um sorriso. Como se o acto de transportar aquele ramo não estivesse na sua natureza, receoso que alguém lhe adivinhasse os pensamentos, o destinatário, lhe descobrisse a intenção, lhe capturasse o momento. No entanto, aquele homem sem jeito e possivelmente sem hábitos de florista, sorria. Aquelas flores tinham uma história, talvez fossem o início ou o mais um momento de uma história. Um romance, pensei logo. Um ramo de flores para fazer alguém feliz. E quando o homem se cruzou comigo, percebi que a felicidade era também aquele momento. Onde estarão agora aquelas flores? Abandonadas, espero, mas não esquecidas. Como lhes compete. Com um brilhozinho nos olhos dissemos sei lá o que nos passou pela tola do estilo: és o number one dou-te vinte valores és um treze no totobola e às duas por três bebemos um copo fizemos o quatro e pintámos o sete e com um brilhozinho nos olhos ficámos imóveis a dar uma de tête a tête

(música de Sérgio Godinho aqui)

(Já editado. Dedicado a alguém que faz anos hoje)

domingo, janeiro 21

Com um brilhozinho nos olhos

Perto de minha casa há uma florista. A avaliar pelo entra-sai, há muita clientela a comprar flores(e a que preços!). Mas hoje, não é a clientela no geral que me interessa. São os homens. Reparo com atenção quando saem com os seus ramos de flores (gostam muito do rosas, os cavalheiros), com alguma timidez, embaraço, sem jeito, a atravessar a rua em passo de corrida, pode ser que ninguém os veja, Deus queira que ninguém os aborde. O homem com quem hoje me cruzei, por exemplo, com um valente ramo de flores, quase que poderia dizer que sorria. Um sorriso apertado, envergonhado, indecifrável, mas era um sorriso. Como se o acto de transportar aquele ramo não estivesse na sua natureza, receoso que alguém lhe adivinhasse os pensamentos, o destinatário, lhe descobrisse a intenção, lhe capturasse o momento. No entanto, aquele homem sem jeito e possivelmente sem hábitos de florista, sorria. Aquelas flores tinham uma história, talvez fossem o início ou o mais um momento de uma história. Um romance, pensei logo. Um ramo de flores para fazer alguém feliz. E quando o homem se cruzou comigo, percebi que a felicidade era também aquele momento. Onde estarão agora aquelas flores? Abandonadas, espero, mas não esquecidas. Como lhes compete. Com um brilhozinho nos olhos dissemos sei lá o que nos passou pela tola do estilo: és o number one dou-te vinte valores és um treze no totobola e às duas por três bebemos um copo fizemos o quatro e pintámos o sete e com um brilhozinho nos olhos ficámos imóveis a dar uma de tête a tête

quinta-feira, novembro 17

Nunca digas nunca

Bobbie Gentry - I'll never fall in love again

Há muito que se lhe não conhecia um namorado, uma paixão, um devaneio ou um desvario. Se ela tinha dates, affairs, ou afins, era segredo bem guardado. Que nunca abria a boca para falar nesses assuntos íntimos, como lhes chamava, era uma grande verdade. A gente bem tentava sacar um nome, um caso, uma paixoneta, um béguin, mas nem uma palavra, comoção ou brilhozinho nos olhos. 
 De resto, parecia-nos agora mais moderna com a idade, mais ousada no vestir, mas também mais apaziguada e sorridente. Se a querem ver irritada, considerem-na uma "mulher interessante" e toda a artilharia pesada do insulto silencioso desaba sobre vós. Julgo que tinha encontrado pequenas alegrias com a felicidade das amigas, poucas mas boas, e o tempo tornara-a totalmente implacável com o lambe-botismo, o arrivismo e a deslealdade. Queixa-se das mazelas da idade (mas disso nos queixamos todas), das rugas que foram aparecendo, dos cabelos brancos mais que muitos e da falta de energia (bem sei o que é isso).
Depois da fase apocalíptica, considerava-se integrada, conformada e arrumada. Por gentileza, todos a contrariavam;  que disparate, estava na mesma (mentira), agora é que estás bem (hipocrisia), quem sabe as coisas boas que estão para vir (e as más, por essa ordem de ideias).
Mais ou menos conciliada com o passado, agradava-lhe ver fotografias antigas que ia comentando entre entres dentes com um sorriso ou com uma raivinha que ainda não conseguia esconder: que nervos, tanto disparate, que figura, onde tinha a cabeça, boas pernas, soutien errado.
Sempre que viajávamos no carro dela encontravamos alguns dos cds do costume, os clássicos, um ou outro modernaço, o Bach do seu coração, músicas que tinham signficados especiais, mas curiosamente nunca lhe detectei ponta de nostalgia romântica. Como mulher de hábitos, acostumei-me a vê-la comer com parcimónia e moderação (uma vida a lutar contra os genes deixa as suas marcas), mas gostava do seu gin, da cerveja ao final da tarde. Estava arrumada, dizia ela, mas não estúpida. 
Viu casar as amigas, calou as confidências, ouviu-nos os delírios, acarinhou-lhes os filhos, acolheu-as nos divórcios, conheceu-lhes amores novos, em tudo esteve presente sem recriminações nem hesitações. Porém, naquela tarde, achei-a diferente. Não sei se seria de um novo modelo de vestido que agora ousava vestir, se pelo olhar. A verdade é que estava diferente. Quando pediu uma tarte com gelado achei curioso, quando sorriu para a mensagem do telemóvel, pensei que ali havia caso: sempre as facturas electrónicas, as promoções e as ofertas de novos serviços, suspirou, mas a mim não me enganou.
Tocou o telefone e pelo olhar e sorriso, percebia-se que não se tratava das habituais chamadas da mãe, amigas ou irmãs. Balbuciava palavras curtas, mais trejeitos que sons, trocando silêncios de cumplicidade. Fingindo-me desinteressada, pus-me à escuta na despedida: "Às oito horas está óptimo. Na tua casa ou na minha?"
Estou mortinha por voltar a encontrá-la.  De preferência com aquele vestido vermelho que lhe ficava tão bem.
Adaptação de um texto ecrito há alguns anos

Coisa mais preciosa no mundo não há

Sergio Godinho - Com Um Brilhozinho Nos Olhos

sábado, outubro 31

Fim de tarde


(Sérgio Godinho - Com Um Brilhozinho Nos Olhos)
Não se lhe conhecia um namorado, uma paixão, um devaneio ou um desvario. Acostumei-me a vê-la sempre com a roupa entre o clássico e o antiquado, sapatos com o modelo de sempre, tacão médio e o cabelo com um corte, valha-nos Deus. Sempre que viajei no carro dela, encontrava sempre os mesmos cds, o Eros Ramazzotti e o Alejandro Sanz, mas curiosamente nunca lhe detectei ponta de nostalgia romântica. Como mulher de hábitos, acostumei-me a vê-la comer uma fatia de tarte de maçã com duas bolas de gelado e chá com dois pacotes de açucar. Sempre achei aquilo um exagero, mas ela ia sorrindo à medida que ia saboreando e também por isso a admirava.
Porém, naquela tarde, achei-a diferente. Não sei se seria pela camisa um nadinha mais desapertada, se pelo olhar. A verdade é que estava diferente. Quando pediu unicamente uma tarte sem gelado achei curioso, mas quando evitou o pacote de açucar no chá, pensei que ali havia caso.
Tocou o telefone e não pude deixar de ficar atenta. Atendeu e pelo olhar e pelo sorriso, percebia-se que não se tratava das habituais chamadas da mãe ou da irmãs. Ia balbuciando umas palavras curtas, mais trejeitos que sons. Fingindo-me destraída, prestei atenção às despedidas, que sempre achei matéria interessante:
"Às oito horas está óptimo. Na tua casa ou na minha?"


Goethe Garten- Weimar
Texto já editado, o qual me deu muito gosto escrever. Com uma dedicatória especial a quem, certamente, gostará de o ler, com as maiores felicidades.
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