segunda-feira, junho 11

E as manhãs, o que são?*

Descobri há pouco tempo que não conhecia as manhãs. Para as manhãs, nunca estou. Vou, regresso, corro, já com a luz posta, com a cidade em movimento em edíficios fechados. Quando as ruas se esvaziam e cada um toma o seu lugar, a manhã enche-se dos seus habitantes, gente com quem não me cruzo nas manhãs dos meus dias a néon e ar condicionado, que toma o espaço que os outros libertam, com um ritmo mais lento, com passo menos seguro e com mais tempo. São os idosos, os reformados nos correios com as notas, as facturas e as pensões, os casais nos bancos à procura de uma vida em casas sonhadas, as mulheres e os homens com impressos, sisas, obrigações, fichas de chamada nas finanças, uma geração de mulheres sem impostos e sem rendimentos, de alcofa e porta-moedas que percorre o mercado, ao peixe, à carne que há-de ter pronta à noite para os seus. Vejo-as chegar no 47, acordadas há muito, com o saco, o almoço, o avental, a bata, os sapatos para trocar, o carteiro a tocar às campainhas de casas vazias com contas a pagar, notícias e cartas timbradas. Sem farda, os cobradores tentam arrecadar as quotas, os fiscais fazem vistorias e os limpa-chaminés vão tentando a sua sorte. Por aqui e por ali, as manhãs também têm os vendedores de hortaliça e leite e lá ao longe ainda se ouve o assobio do amolador. Nas zonas de comércio, há muito que os pedintes tomaram os seus lugares, os artesãos arrumaram a mercadoria e os homens dos retratos prepararam as tintas. O trânsito, condicionado e programado à força de sinais, tenta mexer-se, encaixar-se nas ruas estreitas das descargas e circular por entre o caos das avenidas na pressa para o escritório. Os arrumadores vão chegando pouco a pouco, acordando lentamente de ressacas sem fim, tentam as primeiras moedas para a dose do dia e junto aos semáforos, juntam-se o velho Borda d'Água e os novos jornais. São os tempos modernos. São estas manhãs que terminam quando as ruas se enchem de novo, de gente a correr, barulhenta, com horas marcadas, relógios de ponto e estômagos vazios. A estes conheço-os, ocupamos os mesmos espaços, caminhamos lado a lado, cruzamo-nos sem nos vermos e mais tarde, já quase sem luz vamos esvaziando as ruas e enchendo as estradas na viagem de volta. Até ao outro dia. Para mim, para eles, sem estas manhãs que não vemos.
*
Para uma colectânea de textos sobre "Momentos" organizada pelo blog Estes Momentos * Adaptação de "Noite, o que é?" no Aviz do Francisco José Viegas

7 Comments:

Blogger ISA said...

Um comentário off topic pra lhe dizer que a li na unica gostei muito. Mts parabéns. Beijinhos

4:39 da tarde  
Blogger MissPearls said...

Obrigada Isa
Bjs

7:22 da tarde  
Blogger ELA said...

Obrigada pela referência Isabel. Bjs

9:16 da tarde  
Anonymous Cristina Ribeiro said...

A manhã é a parte do dia que prefiro.
Principalmente a partir de Março,quando o céu fica mais azul e as árvores começam a ficar mais verdes.
Então a manhã de sábado...!Aos fins de semana,já na cidade,adoro deambular pelas ruas,sentar-me no jardim.
Durante a semana de trabalho,não vejo esse movimento todo de que fala,porque aqui tudo é mais calmo,e,para ser sincera nem dou muito pela diferença entre a manhã e a tarde;é por isso que associo a beleza da manhã ao fim de semana.Mas aí...

11:13 da tarde  
Blogger planeta Claudiano said...

Bom texto. Obrigada pela frescura. Visita http://claudiartes.blogspot.com

1:50 da manhã  
Anonymous cristina ribeiro said...

P.S. "Aí"=então...

3:55 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Carissima Vizinha,

A sua prosa está cada vez melhor!

(Será das más influencias dos Corta-Fitenses ? :-) )

Bom Sto. Antonio,

7:59 da tarde  

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