segunda-feira, março 26

História de um escândalo

Quando no início do filme Judi Dench afirma que todos lhe contam os seus segredos, lamentando-se que só tem um diário como confidente, fica-nos a imagem de uma mulher de meia idade meiga, confiável e tolerante. São necessários poucos minutos para nos desfazermos desta ideia tornando-se cada vez menos plausível que alguém se aproxime desta mulher azeda, amarga e solitária.
Aliás, a idade, o pânico da solidão e a falta de amor atravessa todo o filme. "You're not young anymore", grita para uma Cate Blanchett assustada, não só para a ridicularizar como para a aproximar do significado da falta de juventude. Na patética cena da banheira está todo o seu ressentimento contra a incompreensão dos outros e de Sheba em particular mas também um grande lamento por uma vida sem carinho nem sexo. É dessa fragilidade que ela retira a descrença com que diariamente enfrenta o relacionamento com os outros, com os colegas de profissão e com os alunos. Aliás, a não ser uma vaga e fugaz presença da irmã, nada mais existe no mundo desta áspera personagem a não ser um gato, a escola e a casa de uma nova amiga sobre quem escreve "She's the one worth waiting for."
Notes on a Scandal é sobretudo um filme sobre manipulação e poder, uma enorme e elaborada forma de manipulação e um comportamento patológico nas relações de poder.
A partir do momento em que Barbara vê Sheba com o aluno, jovem adulto simulando inocência e uma família disfuncional, assistiu-se a uma metódica e progressiva intromissão na vida íntima, privada e familiar da jovem professora :"I could gain everything by doing nothing", cheia de cenários imaginados e ilusórios. O ascendente que Barbara exercia sobre Sheba seria o passaporte para uma nova vida na aridez da sua agenda vazia.
Este "tudo" nada mais era que uma fantasia que foi crescendo patologicamente na mente desta mulher perturbada, agravada com a morte do gato, por quem terá tido um desgosto real. Provavelmente a única realidade da sua vida.
Ao som de um detestável Philip Glass que nos massacra os ouvidos, depois de ter encontrado o diário cheio das maiores insanidades, Sheba aterrorizada com a descoberta, ridiculariza Barbara comparando-a sarcasticamente a Virginia Wolf e à sua ideia doentia e fantasiosa de "love affair". A sua única e possível "vingança".
No final, já com Barbara reformada compulsivamente do ensino (da fina flor do proletariado local, como referiu), a história repete-se com o mesmo cenário e a circunstâncias semelhantes.
A vítima, essa será outra, porque afinal a vulnerabilidade, a solidão e a insegurança têm muitos rostos.

7 Comments:

Blogger Once In a While said...

Nem sempre comentando mas lendo-a diariamente Miss Pearls mais uma vez a minha admiração pela sua tão própria forma de arrumar as letras ..
Adorei a descrição.
Amei as últimas linhas..
Um abraço

3:56 da tarde  
Blogger Eterna Descontente said...

Perfeito, Isabel. É exactamente como escreveu.

4:53 da tarde  
Anonymous baducha said...

Eis um filme que me suscitou interesse logo que foi lançado no mercado americano. Ainda não o vi. Gosto especialmente de Cate Blanchett e Judi Dench (que já vi em palco).

O último parágrafo deste post associei-o a outro post seu - "sem rosto".
É impressionante a capacidade que Miss Pearls tem em colocar a palavra certa no lugar certo.
A sua sensibilidade e conhecimento dos afectos e sentimentos, deixam-me encantada mas também fragilizada...porque é disso que se trata, das nossas fragilidades.

10:47 da tarde  
Blogger Orlando Nascimento said...

Um grande filme! que nos faz pensar na vida, na solidão, na manipulação, na falta de rumo... em tanta coisa!

11:54 da tarde  
Anonymous baducha said...

Chama-se "sem nome" e não "sem rosto" o seu post!
As minhas desculpas pela incorrecção, Miss Pearls.
O meu cerebro encolheu-se com o frio.

12:29 da manhã  
Blogger MissPearls said...

Obrigada
Um filme bastante intenso, mas gostei muito. Duas grandes actrizes.
Isabel

1:31 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Belo post. Mas o que me agradou particularmente foi o comentário à música: haja alguém (!) que faça justiça à repetição da repetição do sr. glass. obrigado! mil vezes obrigado!
luis

12:52 da manhã  

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