sábado, março 17

A cor e o decoro

O Miguel Castelo-Branco (via telefone) não concorda totalmente com o meu post sobre as cores e eu também não concordo completamente com os argumentos dele. Cita Pastoreau e o Dicionário das Cores do Nosso Tempo. É um bom livro, muito explicado, a escrita é enxuta, mas se o autor tivesse lido o post certamente que teria mudado de opinião, dada a profundidade do meu estudo e a aturada observação do fenómeno colorido. Pena tenho que uma amiga comum não tenha participado na discussão, ela que é a pessoa que conheço que mais sabe de perfumes e da Harper's Bazar e que mais abomina as viagens low cost (por mim, que Deus as guarde e as mantenha).
Diz o Miguel que isto das cores é uma questão cultural. Também é, mas não só. Pensemos também no clima, na religião e no enquadramento social (antropológico, etnológico, etc.). Concordo que seja um fenómeno "de fora para dentro". Isto é, a sociedade, a cultura e as tradições acabam por se reflectir nas cores e na(s) forma(s) de vestir. Acho que aqui este amigo estaria a pensar em algum marialvismo nacional, mas não aprofundei. Ou estaria a pensar em Moçambique, uma terra onde foi tão feliz? Argumenta que grandes fluxos de imigração acabam por introduzir alterações nas formas de estar e de vestir nos naturais dos países de acolhimento. Concordo. Basta uma vista de olhos para verificar como o Brasil foi tão beneficamente eficiente neste aspecto.
Referiu igualmente o caráter mais fleumático (com as cores pastel) ou mais exuberante (vermelhos e os amarelos) das populações e a falta de ousadia dos indígenas portugueses (omitindo as cores vivas e preferindo as tonalidades escuras), em contraste com os espanhóis e os italianos. Nao concordo totalmente porque as coisas mudaram. As grandes cadeias de vestuário espanholas introduziram a moda internacional mas também as cores vivas e garridas. Mais salerosas, digamos assim.
Caro Miguel, já não andamos de xaile, lenço e meias pretas, a cantar o faduncho, a carpir Avé-Marias ou no "recato" da idade, mas aceito tudo o que você disser quando vir uma linda Tailandesa de bata. Que tal?
A propos: Voyelles - Arthur Rimbaud, no Jansenista

4 Comments:

Anonymous Anónimo said...

não será via "telefone"?

4:50 da tarde  
Blogger JC said...

Cá por mim, gosto da poesia que existe em algumas cores dos guaches e dos tubos de acrílico, como "amarelo ocre", "magenta", "amarelo cádmio", "carmezim", "azul cobalto", "branco de titânio", "azul da Prússia", "terra de Siena" ou "azul ultramarino". Chego a entrar na Papelaria Fernandes ali do Rato para ver os tubos e ler as cores. Há quem lhe dê para pior!
Cumprimentos

7:21 da tarde  
Blogger definitivo said...

E o "verde tropa"? Tem tudo a ver!...

Porque é que tem tudo a ver?!...

Sabem como se chama o sangue de porco - previamente cozido aquando da matança do bicho - frito às fatias, que acompanha um dos nossos mais típicos pratos portugueses, o famoso "Rojões à Minhota"?... VERDE!...

Tropa - Guerra
Guerra - Sangue
Sangue - Verde
Verde - Tropa

Então, tem tudo a ver ou não tem?...

Ou não fossem os "senhores da guerra", pessoas inteligentes!....

8:19 da tarde  
Anonymous baducha said...

Depois de ler tão sábias opiniões sobre as cores, apetece-me falar de um pequeno e interessante livro de Ludwig Wittgenstein chamado "Anotações sobre as cores". Edição bilingue (edições 70)

Os mais incrédulos exclamarão: "Wittgenstein a esta hora?!"
Ó pá desculpem qualquer coisinha, mas o Jansenista tem patins em linha e chega sempre primeiro :)

9:47 da tarde  

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