sábado, agosto 2

O empata - Público 02.08.2008, Pedro Mexia "Não vem na Fundamentação da Metafísica dos Costumes mas devia. Se existe no mundo um "imperativo categórico" é a solidariedade heterossexual. Um homem nunca põe obstáculos aos desejos carnais de outro homem com uma mulher, excepto se for pai ou filho ou pretendente. Os homens são naturalmente competitivos, mas quando não existe competição a solidariedade é a regra de ouro. Se um homem está interessado numa mulher, os outros homens têm a obrigação moral de o ajudar. Isso implica que dêem informações, números de telefone, que facilitem encontros, inventem desculpas, que emprestem o telemóvel e o automóvel. Um homem que não faça isto comete traição masculina. Pode ser um moralista ou um canalha, mas é em todos os casos um empata. E não há categoria moral mais repugnante que o empata. O que é que o empata empata? Como este é (como se dizia antigamente) "um jornal de família", não vale a pena escrever as letras todas. Ele empata aquilo que não se empata a ninguém. E faz isso com gozo e impunidade. Esta malfadada figura cria barreiras entre homens e mulheres, desobedecendo vilmente às ordens de Javé e outras divindades que quis que a gente crescesse e se multiplicasse e tal. O empata não reconhece esse imperativo categórico, que é uma lei ética independente da decisão pessoal e que se aplica a toda a gente. Empatar o aconchego alheio é uma atitude semelhante à omissão de auxílio a um atropelado. Não vejo por que é que uma coisa é crime e a outra não. É o mesmo dever de humanidade básica que está em jogo. E é exactamente isso que o empata não reconhece. O empata nega a sua humanidade e a dos outros. O empata é um monstro ético. Há uns tempos perguntei a um cidadão alguns dados sobre uma rapariga que conheci. O meu tom foi cordato e casto. A curiosidade talvez mate o gato, mas também lhe dá vida, e eu estava mais curioso que um gato curioso. E daí não vinha mal nenhum. O próprio cardeal Ratzinger me teria fornecido informações sobre a miúda, tivesse ela sido sua aluna em Tubinga. Mas este camarada não estava pelos ajustes. Que não, que não podia, não sei quê, a deontologia e o catarino, que não estava em condições de, que nunca se permitiria. Não sei como é que ele reagiria se o aliciassem para um desfalque ou uma limpeza étnica, mas não imagino um discurso mais beato e sisudo. Estava ali, à minha frente, um exemplar raro, tipo lince da Malcata, do empata. Este posterga-coitos achava que era a barragem de Cahora Bassa da moralidade alheia. O Catão de Campolide. Aquilo que o próprio Kant (não exactamente um folgazão) reconheceria ser um dever ético básico, este atrasa-cópulas recusava com cara de caso. Não estava nas suas competências exercer a solidariedade masculina, ainda que na sua versão mais superficial. Imediatamente se tornava um poço de virtude, um dique de decência, um enjoado, um Savonarola de Sacavém. Este obstaculiza-amplexos cuspia em milhares de anos de luta pela decência ética, cuspia nas Declarações dos Direitos do Homem e na pursuit of happiness americana. Diz-se que o próprio Moisés trazia uma décima primeira tábua que estipulava o imortal "não empatarás", mas parece que a deixou cair entre uma sarça e dois arbustos, que a vegetação no Antigo Testamento era um bocado madrasta. O empata fazia tábua rasa de uma civilização que assentou sempre na solidariedade masculina, um dos últimos portos de abrigo neste mundo cão. Disse que não, que não devia, que não se permitia, o pedaço de asno, a bestiaga, calcando aos pés uma das mais belas criações do espírito humano que é a fraternidade entre um homem e outro homem. Empata da pior espécie, idiota chapado, doutor Mengele da amizade, ele não foi capaz daqueles mínimos olímpicos do "é tudo o que sei, espero que te safes", este empata dos empatas, este catastrófico castrado, sacristão dos desejos dos outros, Bokassa da decência humana. "

1 Comments:

Blogger Dona Diotima said...

"Posterga-coitos" e "Javé" na mesma crónica, só podia ser o Pedro Mexia.

12:41 da tarde  

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