sábado, março 3

Estações fora de horas

Um outro mundo, as estações de serviço fora de horas. Falo daqueles estabelecimentos com pré-pagamento, onde se vende gasolina, bebidas, cigarros, pão, congelados, jornais, revistas e até comida para animais. Certamente saberão do que estou a falar. Em Lisboa há algumas deste género, que dão um grande jeito de dia para um litro de leite ocasional ou uma embalagem de queijo. À noite, pertencem a outro tipo de pessoas. Principalmente frequentadas por noctívagos sem gasolina, mas sobretudo procuradas para compra de cervejas ou cigarros, sem acesso ao interior, todas estas transacções se fazem através de um vido, sem qualquer contacto com o paciente funcionário.
Acredito que estejam todas vigiadas por câmaras, o que, apesar de dar uma certa segurança não nos impede de sentir algum receio. Muitas vezes são miúdos ou rufias maduros em estado alcoolizado ou com vontade de ficar, a avaliar pela quantidade de álcool que levam nos sacos. Outras vezes são solitários, com noites longas, a quem se acaba a companhia da cerveja e dos cigarros. São também locais para taxistas, funcionários com turnos nocturnos, local de passagem entre um bar e outro, viajantes que chegam com frigoríficos vazios, uma última paragem, uma necessidade ou uma precaução.
Sejam quais forem as circunstâncias (creio nunca ter lido nada sobre isto) e do pouco que conheço, se terão ou não alguma clientela fixa, lá estão eles, sempre abertos a produtos de última hora, ou melhor, fora de horas.
Quando os vejo partir ao volante, de voz entaramelada de tanto álcool e com passo incerto, fica por ali um amargo sentimento de impotência e comigo um aperto no coração. À nossa frente, um jovem casal de namorados leva uma noite cheia de precauções, funcionários de uniforme recolhem a casa com cigarros e chocolates e um cavalheiro pede uma revista com uma grande capa de corpo inteiro.
A todos, uma boa noite.
Dos comentários ao post:
Helena Cortes: "Como a noite transforma tudo, não é? Os lugares, nós, os outros e, especialmente, transforma o modo como nós e os outros olhamos e avaliamos.
Da Patrícia: "As estações de serviço fora de horas, os desvios de percurso, transportam-nos quase sempre para o receio dos 'pequenos nadas' que nos assolam e que teimam em lembrar a nossa fragilidade enquanto seres humanos. "

11 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Carissima Vizinha,

Uma das GALPs da vizinhança, certo ?

Tambem vendem lenha!

Bom fds

12:02 da tarde  
Blogger hcm said...

Isabel,

Confesso que tenho sempre algum receio quando, fruto de qualquer imprevisto ou mal calculada reserva, tenho de ir a uma bomba de gasolina à noite. E não é preciso ser muito tarde. Como a noite transforma tudo, não é? Os lugares, nós, os outros e, especialmente, transforma o modo como nós e os outros olhamos e avaliamos.

Helena

12:59 da tarde  
Anonymous baducha said...

As estações de serviço fora de horas, os desvios de percurso, transportam-nos quase sempre para o receio dos 'pequenos nadas' que nos assolam e que teimam em lembrar a nossa fragilidade enquanto seres humanos.

5:13 da tarde  
Blogger definitivo said...

Miss Pearls, e o livro?...
Uma sugestão(perdão) para o título: «A Transparência das Sombras».

Não seja preguiçosa, já não lhe falta tudo!...

5:43 da tarde  
Blogger tomas vasques said...

Miss Pearls: já presenciei duas ou três vezes o que descreve, e compreendo-a - o sentir e a preocupação.

12:27 da manhã  
Blogger MissPearls said...

Caro Tomás
Acho que deve ser isso que nós -os sóbrios - todos sentimos.
Um abraço

Definitivo,
Miss Pearls, e o livro?...
Desculpe, mas não percebi.

12:43 da manhã  
Blogger definitivo said...

Miss Pearls, todos julgamos possuir um «poder» que nos encobre algumas das nossas próprias sombras.

Todos temos um pecado, uma angústia, uma estranheza no conceito, uma certeza no preconceito, um amor, um desamor, uma nostalgia, uma inquietude, um desconforto, um momento menos feliz, um vício, um tique, um taque, um não sabermos quando nos pára o relógio...

Todos tentamos - tantas vezes! - fazer com que a figura da nossa própria sombra nada mais mostre senão os contornos do nosso corpo lindo, previamente e atempadamente embelezado com pós de aprendizes de feiticeiro.

Conseguimos? Acho que não. Se há coisas que não dominamos, são os mistérios da luz. Das luzes.

Luzes e sombras: às primeiras, fazemos questão de nos mostrarmos... escondendo-nos; às segundas, fazemos tudo para nos escondermos... mostrando-nos.
Ou seja, na vida, embora tenhamos a manta curta, todos fingimos que usamos... edredon.

Miss Pearls, quando escreve sobre as coisas, quando escreve sobre as pessoas, faz com elas nos pareçam cristalinas. Reais. Mais reais do que aparentam ser. Mais reais do que querem parecer. Sem sombras. Transparentes. Nuas. Cruas.

"A Transparência das Sombras".

Eu dou-lhe o título, e o livro, Miss Pearls?
Já se esqueceu da entrevista ao PRD na TSF? "Eu não sou capaz de escrever mais do que algumas linhas".

Não se engane, não nos engane, Miss Pearls.
E o livro?...

3:48 da manhã  
Blogger MissPearls said...

Deixemos os livros para os escritores caro Definitivo :)
Mas muito muito obrigada pelas suas palavras.

3:53 da tarde  
Anonymous baducha said...

Oh Miss Pearls, quanta gentileza da sua parte colocar o meu comentário no seu "penthouse"!

Ó tio Segismundo....onde tás tuuu?!
:)

6:13 da tarde  
Blogger ariel said...

"Quando os vejo partir ao volante, de voz entaramelada de tanto álcool e com passo incerto, fica por ali um amargo sentimento de impotência e comigo um aperto no coração. À nossa frente, um jovem casal de namorados leva uma noite cheia de precauções, funcionários de uniforme recolhem a casa com cigarros e chocolates e um cavalheiro pede uma revista com uma grande capa de corpo inteiro. A todos uma boa noite."

Miss Pearls, este texto é definitivamente, muito, muito bonito,delicado, sensível e atento.
:)

8:36 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Cara Miss Pearls

Apesar de não subscrever a proposta de título sugerida pelo "definitivo", subscrevo INTEIRAMENTE a sugestão do LIVRO feita pelo dito "definitivo"
Força (para o livro!!!!)
TeB

11:18 da tarde  

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