terça-feira, fevereiro 2

Muitos anos depois

Primeiro éramos dois ou três, mas rapidamente foram chegando muitos mais. Não falo de uma mesa de restaurante ou de café, mas do FaceBook, que serviu como local de encontro semelhante ao que tínhamos na nossa cidade de província. Foi com alguma surpresa, recheada de alguma saudade que fomos revendo caras e nomes da nossa infância e adolescência cujo rasto já tínhamos perdido. Pela nossa cidade de província, isolada das grandes capitais por estradas desgraçadas e comboio ronceiro (e Espanha ali tão perto), muitos ficaram e outros tantos partiram, levados pelo casamento, por melhores empregos e por outras oportunidades. Muitos de nós saímos para estudar e poucos voltaram, como aliás se verificou um pouco por todo o país. Foi assim que fomos separados pela vida e pelas suas contingências, depois de uma infância e adolescência em comum, vivida entre as avenidas durante os tempos quentes e (os poucos) locais de encontro que a cidade tinha para nos oferecer. Foi um encontro de amigos antigos, sem nostalgias nem espírito de Alex. Muitos anos passaram entre nós, cada um com a sua história pessoal, casamentos, divórcios, filhos, a morte que nos foi tocando a cada um e amigos comuns que prematuramente foram levados pela doença ou pela estrada. Mal nos conhecemos no presente, mas fomos unidos por uma cumplicidade feita de ingénuas aventuras, paixões da idade, o reconhecimento das nossas origens e de um passado comum. Ao contrário do que aconteceu com as amizades que fomos construindo, não são necessárias explicações nem histórias de vida. Se aqueles bancos falassem, haveriam de contar os nossos segredos e as nossas aventuras, contadas em voz baixa, treinada contra mexericos de cidade pequena, onde nos tratávamos pelo nome. Não vimos dos tempos de grandes idealismos, só os nossos, os que a adolescência permite e proporciona. Na sua maioria, oriundos de famílias tradicionais e conservadoras, depois de atravessada a juventude (com maior ou menor rebeldia), são raros os que não trazem com eles, ainda hoje, os traços das suas origens. Naturalmente, escrevo isto sem qualquer tipo de preconceito nem crítica associada. O que nos une é uma parte importante da nossa vida que vivemos juntos, e que não dá lugar a hipocrisias nem “revisionismos”. Passados todos estes anos, gente a quem o tempo e a vida tratou melhor ou pior, existiu somente a alegria de nos voltarmos a ver no presente. Porventura não voltaremos a ser os amigos do passado, mas o que nos liga, o tempo dificilmente poderá apagar: os nomes do ausentes, dos que sentimos saudades, as nossas músicas, o que nos entretinha, a noite sob as árvores, a escola e a rebeldia com hora marcada de chegar a casa. São agora as tecnologias que nos aproximam. Já não tocamos às campainhas para nos encontrarmos a horas determinadas pelos nossos hábitos e pela conveniência. Agora estamos sempre contactáveis, sem admoestações familiares (apaga a luz!) e a horários que a nossas vidas permitem. Antes do Facebook, já a blogoesfera ocupava um lugar semelhante a um café do século XIX, frequentado por tipos diferentes, do pouco letrado ao erudito, do sério ao humorado, do especialista ao generalista, do militante ao diletante, do anónimo ao identificado, em que uns se sentam sozinhos, outros partilham a mesma mesa e alguns dão dois dedos de conversa aqui e acolá. Vêem-se trajes discretos mas de bom corte, outros optam por um estilo mais arrojado, ou seja, mostra-me o teu template, dir-te-ei quem és. Lá no fundo, no canto inferior direito, se virem um sinal verde online, posso ser eu.
Publicado no Nicotina Magazine

4 Comments:

Blogger CPrice said...

delicioso e ao mesmo tempo algo comovedor .. Gostei imenso!

4:01 da tarde  
Blogger AB said...

Bem realista! Na emoção aqui reflectida encontra-se a ponte do passado presente. Muito obrigada por me fazer sentir e aproximar tanto do vivido, na beleza das suas palavras. Parabéns também por este blog.

Aida Beirão

11:15 da tarde  
Anonymous Eunice Bento said...

A neve,a avenida ladeada de árvores,a saída do Liceu, os bancos ,as palavras que circulam e chegam com a velocidade do novo ,atravessam pontes e tocam coração na memória que somos.Muito obrigada ,nomes esquecidos,( eu própria não me encontro na foto)mas lembro-me como se fosse hoje e o Pai Natal bateu à porta agora mesmo!!!Parabéns!!

11:35 da tarde  
Blogger Júlio Vaz de Carvalho said...

Obrigado por esta visita ao "ontem" que nos faz lembrar quem somos.

5:49 da tarde  

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