sexta-feira, abril 6








PÁSCOA

A senhora tia alisa a toalha
põe sobre ela talheres muito antigos
herdados dos avós que a terra come

quantos anos passados deste dia
ainda estaremos como agora juntos
na cozinha de Sangalhos
entre o fumo da lenha seca
e o cheiro misturado
das carnes e das hortaliças
que acabam de ferver no fogo esperto

minha mãe diz um dito qualquer
seca a vista embaciada
eu venho do pátio
certamente cantando

o tio – as urinas presas
no laço da bexiga –
conta uma história
da guerra de 14
do vizinho morto
como ele Manuel sorte infeliz

ao tempo que isto foi

Lisboa-3/4 XI-94
Fernando Assis Pacheco, Respiração Assistida, posfácio de Manuel Gusmão, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003

2 Comments:

Blogger JFR said...

A arte de dizer tanto - em tão pouco tempo e diminuto espaço -, sobre os costumes, a reunião da família às vezes distante, as estórias repetidamente contadas nas Páscoas que se seguem umas às outras e cujas tradições se vão perdendo de vista.

Obrigado por ter trazido aqui esse poeta das coisas simples e terrenas.

2:07 da manhã  
Anonymous baducha said...

A simplicidade eleva as sensações, cheiros e sabores.

4:39 da tarde  

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