domingo, janeiro 7

Dress code (I)

Se eu tivesse uma loja de roupa chamava-lhe Dress Code. Não só porque gosto da sonoridade das palavras, mas porque existe de facto uma espécie de código, ligado provavelmente a um determinado grupo tribal, ou ecossistema, como metaforicamente gosto de lhe chamar, que pode ser tanto integrador como traumático (é uma expressão demasiado forte, mas pronto). Já há algum tempo que ando com vontade de escrever sobre dress codes, mas tenho estado à espera de alguma reconciliação com o "meio". Como a reconciliação não há forma de chegar e porque já se esbateu a minha habitual humilhação natalícia (já explico) decido-me finalmente. Duvido que caiba num só post, melhor para mim, que tenho assunto para mais dois ou três dias, assim tenham paciência para me aturar. Já perceberam que não sou antropóloga, socióloga ou etnóloga, mas também não sou crítica de cinema e escrevo sobre filmes, não sou escritora mas tenho um blog. A expressão dress code pode por vezes significar uniforme, mas nem sempre é líquido que assim seja. Vejamos o exemplo do golfe, provavelmente um dos dress codes mais rígidos na área do desporto. Perfeitamente aceite e exigido inter pares, mais do que um vestuário, é a característica grupal de um team.
Seria aqui que podia entrar uma ou outra citação de Roland Barthes, mas certamente os estimados leitores já sabem imenso sobre conotação, denotação e semiologia, de forma que é de todo irrelevante. Podíamos falar do dress code dos toureiros, um código cheio de tradições, significados, rigoroso, imutável e perfeito. Mas será um dress code? Penso que toda aquela simbologia é muito mais do que isso. Pensemos agora em uniformes. Sinceramente, o primeiro que me ocorreu foi o vestuário exigido nas escolas mas sobretudo em colégios particulares, na sua maioria de carácter religioso. Quem se viu obrigado a usar uniforme anos a fio e em idades tramadas como a adolescência, sabe como pode ser, aqui sim, traumático. Mas com o tempo, a idade e a razão, não tenho agora a menor dúvida de como era o sistema mais integrador e perfeito que alguma vez conheci. Voltarei a este tema mais tarde. E de que falamos quando falamos de vestuário aconselhável ou mesmo obrigatório para entrar em igrejas, mesquitas ou outros locais de culto religioso? De bom senso, evidentemente. Ou de respeito, talvez seja mais correcto. Não me repugna cobrir o corpo para entrar numa mesquita, assim como gostaria de não ver capelas, igrejas, catedrais visitadas por hordas de alcinhas, shorts, umbigos e afins. O respeitinho é muito bonito, mas isso sou eu a falar, que sou uma incorrigível conservadora. Sobre o dress code da juventude, de artistas da música e do show bizz, não escrevo, não sei, nem me interessa. As tribos, a moda, os tiques, os hábitos, tudo passa com uma velocidade que não consigo acompanhar. Nem quero. Para amanhã e depois ficam os requisitos de sobrevivência urbana, ou melhor, os kits integradores que nos aceitem em bares e discotecas, as páginas sobre vestuário aconselhado pelo fantástico "Livro das Noivas" que herdei da minha mãe, da realeza de chinela no pé, da tirania dos adereços, dos cabelos, do in, do out e claro, do dress code nos blogs (mostra-me o teu template, dir-te-ei que és). E quando o dress code é exactamente não ter dress code? Ou melhor, e quando se nasce com o dress code? Sem dinheiro, mas com o código incorporado? Ah! Isso é ser bcbg - bon chic bon genre. Não vem na National Geographic mas em livros como Official Preppy Handbook (americano) Official Sloane Ranger Handbook (inglês) ou o BCBG, Le Guide du Bon Chic Bon Genre. Não deixarei de referir estes ecossistemas nacionais, que também os há. Conheço-os pelo nome, pelas praias e pelos os lugares à mesa. Muito cinzento escuro, grenat e beije. Não me esqueço de falar sobre a minha humilhação anual nas compras de Natal, mas isso fica para o fim. Aliás, como tudo o que nos custa falar. O que é que isso tem a ver com dress code? Acompanhem-me a uma rua de Lisboa e ficarão a saber. Mais tarde.

15 Comments:

Blogger cinderela-dos-pes-grandes said...

Interessantíssimo!... Aqui fico roendo as unhas para saber mais sobre o que nos quer dizer!... ;)

Sublinho particularmente o que diz sobre os uniformes da nossa adolescência: agora temos a tirania das "marcas" (dress code?) a estabelecer distinções de pacotilha entre miúdos em idades TRAMADAS... Em especial nos socialmente mais frágeis, em todos os sentidos..

8:51 da tarde  
Blogger Ela said...

Os códigos existem, algumas vezes, de forma cruel. De qualquer maneira, as pessoas são socialmente identificáveis pela forma como vestem. O problema está na discriminação que tal código implica. Quanto à fardas dos colégios,apoio.Incondicionalmente. Sugiro até que as escolas públicas as adoptem. Não só é esteticamente bonito, como permite aos miudos de idade TRAMADA entenderem que, a forma de vestir, não deve definir ninguém!

10:32 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

As fardas não eram exclusivo só dos colégios, ou por outra, nos liceus não havia fardas mas havia "as batas".
A distinção era feita por quem só a vestia no liceu e por quem já a trazia vestida de casa.
Todas as que tinham andado em colégios, quando tranzitavam para os liceus, traziam a bata vestida de casa.
Há sempre distinções.
Obrigado por me fazer relembrar.

11:15 da tarde  
Anonymous Mike said...

The woman in red - tipicamente bon chic, beaux jambes...

11:57 da tarde  
Blogger MissPearls said...

Caro Mike
Como gosto de o ver por aqui :)

Marta, Ela, Cinderela,
Obrigada pelos vossos comentários

12:01 da manhã  
Blogger jcd said...

Este é um texto cheio de promessas. Deixo só um pequeno reparo: o "bom senso" de que fala, com razão, para entrar em igrejas, ou para turistas visitarem mesquitas, não se aplica de igual forma para as mulheres que frequentam mesquitas. Primeiro,porque para o aplicar seria necessário que as mulheres pudessem lá entrar o que nem sempre, dependendo dos dias e dos horários, é possível, e segundo porque quando é possível muitas vezes só podem frequentar a parte de cima, muitas vezes com pé direito baixo, com pouca ventilação e claro, a obrigatoriedade de se cobrirem integralmente. Comparo esta situação com aquela de tempos idos em que, na Igreja, as senhoras se sentavam à frente e os homens atrás!

10:03 da manhã  
Blogger Ela said...

Cara Miss Pearls; não agradeça os meus comentários. É sempre um prazer "visitá-la". Parebéns pelos posts.

10:46 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Tirando em situações em que o vestuário usa-se ou para ter a piada de seguir uma tradição (por exemplo, na entrega dos prémios Nobel) ou por "razões racionais" (por exemplo, nas forças armadas), qualquer outro dress code é uma violação da liberdade individual. Pelo menos é o que me ocorre de momento.

Jaime
www.blog.jaimegaspar.com

2:10 da tarde  
Blogger ariel said...

Ai que o meu primeiro comentário parece que foi para o espaço. As vezes acontece-me.
Dizia eu que acho este tema muito giro.Tudo quanto tem a ver com trapos, perfumaria e quejandos, põe-me literalemente a cabeça à roda... quanto a cores sou mais pró pretos/brancos, encarnados, castanhos e pasteis. Cusca como sou, aguardo com impaciência a parte relativa à humilhação anual nas compras de Natal...e já agora adoro o título "Dress Code" mui bien.
:)

4:30 da tarde  
Blogger MissPearls said...

Ariel:
Ai que não vai ser fácil :)
Cusca :)

4:40 da tarde  
Blogger Baducha said...

Continuarei expectante...à restante dissertação sobre o "Dress code"!

4:50 da tarde  
Anonymous JC said...

Bom, Senhora das Pérolas, podemos estar aqui a correr o risco de confundir, ou apenas fundir, duas coisas que podem não coincidir: o "dress code" e o "gosto". Que quero eu dizer com isto? Obviamente, ninguém vai para S. Carlos de fato de banho ou para a praia de fato. Menos chocarreiro: ninguém vai jantar de fraque ou almoçar de smoking. Estamos no terreno puro do "dress code", aquele que por vezes se estabelece mesmo quando convidamos ou somos convidados: casual, smart casual, jacket & tie, etc. Mas, se dissermos que "quem é quem" não usa um laço de smoking pré feito, ou se pensarmos como são e podem variar a camisa e gravata que se usam com o fraque, podemos já estar a falar de outra coisa que não o "dress code" puro e duro: o "gosto", que ajuda, juntamente com o aspecto físico, o modo de falar e a pronúncia, ou o comportamento social (e etc) a definir a origem de classe. Ou, voltando ao terreno do "dress code" versão mais pura, o corte do fato e o modelo do colarinho... O assunto é aliciante... Mas, agora não tenho tempo e não gostaria de ter deixado de participar.
Bom tema, sem dúvida.

Cumprimentos

JC

7:43 da tarde  
Blogger MissPearls said...

De black ties não entendo nada, sorry.
MAs com a sua autorização vou usar o seu comentário como post , tipo "feito pelos seus leitores!

May I?

8:11 da tarde  
Anonymous JC said...

Claro que pode. Se amanhã tiver tempo (duvido, esta semana está tramada), volto ao assunto. Mas, já agora, a questão Sloane Ranger não se reduz ao vestuário, é mtº mais vasta, mas acho isso você sabe. Em Portugal, até há quem se dedique a fazer listas das palavras "correctas" e "incorrectas". Mas nesse campo atribui-se a ela própria o título de especialista a Mª Filomena Mónica!!!

10:27 da tarde  
Blogger Pedro Barros said...

"Acompanhem-me a uma rua de Lisboa e ficarão a saber."

I wish...

8:16 da tarde  

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