Sábado, Dezembro 31
O ano velho termina com sol mas não com as lides domésticas, a exigir sempre uma permante dedicação, com tudo a regressar aos seus lugares, armários e gavetas. Que isto seja uma questão de princípio mas não um modo de vida. Alguma desordem tem a sua graça, torna o espírito mais livre e vive-se com menos constrangimentos. Coisas minhas.
Que o ano novo que aí vem seja bondoso e suave para todos. Que esta cidade se torne mais amigável e que a luz verde encha Alvalade de alegria.
Fico por aqui, com optimismo moderado, que os tempos não estão para festas.
Escolha, para terminar o ano, a superstição que mais lhe aprouver, porque mal não há-de fazer.
Obrigada pela vossa companhia neste blog um pouco rarefeito e de actualização intermitente.
Que os vossos desejos se cumpram, assim como os meus que também sou filha de Deus.
Encontramo-nos aqui em 2012. O importante é voltar.
Steve Harley & Cockney Rebel- Make Me Smile Live
Para todos os que, durante 2011 me fizeram sorrir.
Para todos os que tornaram a minha vida mais amável.
Obrigada pela vosssa amizade.
Sexta-feira, Dezembro 30
Finais de festas
Estes dias não tenho ouvido outra coisa senão gente a lamuriar-se de tanto alimento ingerido durante estas festas. Por mim, acho mal e não me queixo. Lamentar-me de uma mesa farta, essa agora?! Pois os sonhos e o bolo-rei têm o mesmo sabor no resto do ano? Julgo até que o presente do marido, dos pais ou dos irmãos, a surpresa do namorado e o artesanato dos filhos adquire um significado diferente, objectos de que se vai falar no resto do ano e pelos quais se tem um carinho e uma lembrança especial. Diga-se para o bem e para o mal: sei de crianças desoladas por receberem uma prenda mais cara do que as dos irmãos, e por isso uma única prenda, motivo de todas as tristezas. Nestas coisas, o número conta, estou farta de o repetir.
Voltando aos estômagos pesados de perú e cabrito, ouvi hoje uma madura numa perfumaria pedir um creme para a cara, dizia ela, desgraçada de tantos fritos. Dir-se-ia que a qualquer momento lhe poderiam saltar azevias das bochechas e erupções de filhós da testa. Enfim. Já lhe tenho ouvido chamar muitos nomes, mas fritos, foi a primeira vez.
Pois eu gosto do Natal, de uma linda mesa cheia de iguarias que não tenho no resto do ano, gosto que me ofereçam uma travessa de trouxas de ovos, frutas cristalizadas frescas e claro, de comer tudo aquilo a que tenho direito. A queixar-me não tenho o direito.
(Texto já editado)
Quinta-feira, Dezembro 29
Monção das cores
Vejo-as vaguear pelas lojas, nas ruas, meio perdidas nas grandes superfícies, olhos mortiços, olhar alheado e luto indisfarçavel. As ausências são lixadas nesta altura; as mortes recentes reabrem as suas feridas e, mesmo sem querer, afastam os felizes, como uma doença contagiosa.
"É isso", penso eu, "o anonimato pode ser benéfico; para as empregadas do comércio com quem falam são só mais uma cliente, uma anónima sem circunstâncias e por isso são tratadas sem perigo de contágio.
O anonimato serve para o desabafo, para a confidência e para o queixume. A indiferença também pode ser amiga, caso se fuja (nem que seja por momentos) do aconchego e a familiariedade. Compreendo-as. O coração continuará apertado, mas o tempo há-de ajudar. Porventura um dia poderão voltar de novo a sentir-se vivas e a cuidar dos vasos ou dos canteiros; as plantas sem raíz não são boas companheiras. Rapidamente ficam sem cor nem cheiro e definham como naturezas mortas. Ficam bem nos museus emolduradas, mas não nas nossas vidas. Com alguma sorte, mais tarde, a vida pode voltar a escrever-se com outras letras e hão-de vir novas celebrações, assim tenham o coração aberto para as receber,
Quarta-feira, Dezembro 28
Sexta-feira, Dezembro 23
Quarta-feira, Dezembro 21
Domingo, Dezembro 18
Diário de uma gata enquanto blogger (13)
Eu devia contar o que sei, mas confesso que temo retaliações (a comidinha boa, o quentinho, estão a ver a cena, não?). Quem me conhece sabe que sou uma gata fácil, que aceita subornos em troca de festas no pelo branco. Os maduros tratam-me bem e gosto de fazer amigos; ainda há dias conquistei um simpático que se declarava anti-gateiro primário, e agora já somos compinchas (o meu silêncio é barato e vende-se no supermecado em latinhas gourmet) .
Há uns tempos houve uma cena chata e tive mesmo que desabafar, algo magoada, nas costas do sofá que ainda estava em bom estado. Afinal a culpada fui eu, que acho fixe passear por entre as mil e uma caixinhas existentes em toda a casa no geral e na cómoda em particular. No tempos livres curto fazer gincanas, pé ante pé, toureando a moldura e a jarra, em voos rasantes sobre os guarda-jóias. É certo que as aventuras nem sempre correm bem e de vez em quando, pumba, lá temos alguns sinistros com os destroços espalhados sobre o chão, mas aquilo foi chato; doeu, pronto.
A história conta-se depressa: uma gaveta aberta, um apetite de malhinhas finas e douradas, aqueles fios tão bons de puxar, um brinquedo novo ao alcance das minhas patinhas. A patroa vê aquilo e não gosta do que vê, ou seja, uma gata de pelo branco mergulhada na gaveta e zás, uma caixa de lorenine contra o meu garboso cachaço. Não gostei, pois então, que sou uma bicha sensível. Três dias a fazer beicinho sem a demover, ela zangada comigo, eu a transferir a minha mágoa para as cadeiras da sala, mas já nos entendemos. A má notícia é que os lorenines ainda lá estão; a boa notícia é que não precisa deles.
Terça-feira, Dezembro 13
Se eu soubesse, escrevia assim
"Não têm coxas, nem rabo, nem carne nas pernas. As mamas apresentam-se como próteses mal coladas sobre uma parede de ossos. E o rabo, enfim, que rabo, alguém o viu? (...) Estão-me a dizer o quê precisamente com este anúncio, estimados senhores da Triumph: que umas gajas encanzeladas a fazer beicinho com o cu empinado e besuntadas em óleo fula são o novo paradigma de sensualidade? Ou que as suas clientes ideais deveriam ter este aspecto tremebundo? A quem vai dirigida esta campanha realmente? Às mulheres que nunca terão a barriga metida para dentro nem excesso de ossos? Ou aos homens? Nem sequer é para todos os homens, claro.
Os senhores da Triumph, ao escolher estas desgraçadas, não pensaram no povão, não. Pobre gosta de gorda. Já os homens sofisticados, esses gajinhos que não param de falar dos relojinhos e as sapatilhinhas e as calcinhas de marca, esses idiotas deslumbrados com as modas lisboas e os bares que são clubes no Cais do Sodré e restaurantes japoneses, esses sofisticados idiotas é que sabem de beleza. Para estes imbecis gaja boa é gaja magra e as mulheres querem-se biafrinhas, de ar enjoadinho, transparentes.(...)
A ideia que um homem me ache obesa em comparação com uma carcaça com sutiã que não pesa mais de quarenta e cinco quilos é assustadora. E triste. E cada vez que leio ou ouço um gajo a chamar gorda a uma miúda normal só me apetece mandar-lhe para a puta que o pariu."
Gosto sempre
o que escreve o Luis Miguel:"Até ao ano passado comprava lampreias de ovos na Pastelaria Suíça antes do Natal. A última vinha mergulhada na calda de açúcar que agora se usa para aumentar o peso (e o preço) das encomendas. Nunca mais lá pus os pés.
A pouco e pouco a decadência das casas de comércio tradicionais alcança também o bolo-rei. Na Confeitaria Nacional, a mais insigne entre quem não frequenta a Versailles ou a Garrett, provei hoje uma fatia que me pareceu adequada ao gosto dos novos tempos: quase nenhum sinal de frutas, massa pouco húmida, um resto de aroma a porto que talvez custe o emprego ao pasteleiro e em breve desaparecerá. (...)
Com o passar dos anos tornamo-nos conservadores, não por razões filosóficas mas porque o progresso nos dói e já não nos traz boas notícias. Eu só queria a minha fruta, a minha prenda e a minha lampreia tal como eram quando eu era criança e o tempo ainda não existia. Mas sei que é pedir muito."
O concurso do presépio
Há anos que andamos por aqui, eu e o Luis Novaes Tito, de candeias ás avessas na política, próximos na civilidade e nas coisas da vida que realmente importam.
Mais um ano com saúde (como venho repetindo: o importante é voltar) e mais um grandioso concurso de presépios de Natal, dos quais nunca ganhei nenhum (injustamente). O Luis, como bom socialista, coloca todos os concorrentes ex aequo. Eu, que de socializante nada tenho, aprecio a livre concorrência e apresento-me todos os anos com uma fantástica peça de faiança do mais requintado recorte estético, com a fezada de que este é ano.
Aqui fica, pois, um lindo camelo (colecção particular), que vai seguindo o rasto da estrela mais brilhante, não em Belém, mas algures numa residência lisboeta onde se festeja o Natal e não o Pai Natal.
Para o Luis, o meu glorioso exemplar, no já habitual estilo conservador e tradicional (mas não ultramontano) que me caracteriza:
Para o Luis e família (este ano renovada), Festas Felizes. Desconfio que algures na sua sala, existe um presépio que há-de vir a estar, no futuro, nas salas dos que lhe são mais queridos.
Segunda-feira, Dezembro 12
Domingo, Dezembro 11
Sábado, Dezembro 10
O caso da madura que devia estar a estudar e está a escrever posts numa biblioteca.
A viagem estava a correr bem, comboio a horas certas, lugar de luxo junto à janela e, não fossem as carpideiras dos lugares da frente, até podia ter um bom sono (caso existam bons sonos durante as viagens).
Grande seca, as conversas lúgubres que me chegavam aos ouvidos, triste fado o nosso com tanto queixume na voz, a morte, nunca se está bem, é assim a vida, e eu sem as poder evitar.
Entretanto levanta-se uma das lideres da choradeira com a devida écharpe; muita lamúria e uma casa de banho ali ao pé, de que se queixava a criatura de Deus? Passaram cinco, dez minutos, já havia gente de bexiga apertada junto à porta, e o marido perguntava se demorava muito, ela respondia do outro lado da porta que estava quase. Por mim, tudo bem; era menos uma naquele festival de lamentações que as viagens proporcionam assim que se juntam vários portugueses desconhecidos entre si.
Mas o tempo passava, dez, quinze minutos, o marido de olhar inquieto, batem à porta e nada. Que diacho, agora isto, chama-se o cobrador que abre a porta com chave mestra e mulher nem vê-la. Desapareceu, evaporou-se, mas para onde terá ido se ninguém a viu sair? É mais que certo que devem ter levantado a tampa da sanita; nunca se sabe que mistérios podem existir no fabrico de carruagens.
Entretanto (graças a Deus) chega-se ao destino. Muita conversa entre os passageiros e eu mortinha por sair dali, temos pena, mas aquilo não é filme para mim. Da mulher, nem rasto, nem vestígios, nem sinal, o Hitchcock há muito desaparecido e o Truffaut também.
Nunca mais ouvi falar do caso. Não foi assunto de jornal nem crime de televisão, o desaparecimento da idosa em retrete de comboio, mas não admira, pois o fisco ainda lá não chega. Só hoje, uma breve notícia falava no caso de uma mulher de écharpe ter sido encontrada na casa de banho de um avião, tendo sido detida para interrogatório. Há-de ser droga ou terrorismo, dizem eles.
Imagem do filme Nightmare At 20,000 Feet
Terça-feira, Dezembro 6
Conto Maior
Tenho para mim que as sequelas (seja de filmes ou livros) são sempre piores que as primeiras versões, mesmo assim arrisco a continuação do Conto menor (zinho), até porque este tem um final feliz e eu nestas coisas sou muito mariquinhas.
Adivinharam qual foi a primeira coisa que a Meredith lhe disse? Nada disso, caros leitores. Pensem pior, pensem hardcore, acertem-lhe na jugular ou onde lhe dói mais. Isso, atirem-lhe million dollar words antes de cair o pano.
Pois bem, passados muitos anos, a Meredith voltou a apaixonar-se. Não se pode dizer que tenham sido tempos fáceis, com o sacana do Clark a falhar pensões de alimentos enquanto passeava a dirty bitch num topo de gama que entretanto lhe tinha saído na rifa com a gestão de uma empresa juntamente com um chorudo cartão de crédito que ela (a outra) se encarregava de gastar nas lojas da Avenida. E ela, a contar os tostões, numa correria sempre com os filhos atrás, casacos puídos e sapatos baratos, a fazer contas à vida, pescada barata e carne picada numa contabilidade apertada como o coração no final do mês. "Que se empalassem os dois", ia vociferando quando a mais velha informava que o pai queria trocar o fim de semana por "motivos profissionais". E lá ia ela mudar de planos, quando se imaginava já no melhor dos mundos, dois dias interinhos de sofá e tostas, sem forças nem vontade.
Apaixonou-se finalmente a Meredith, sem o viço de outrora alimentado a bons cremes, cabelos brancos disfarçados em casa, unhas quebradiças e corpo trabalhado à base da exaustão da multi-vida. Um homem bom, todos lhe diziam, mas ela cheia de cagufa, como iria ser: ela com duas miúdas, ele com um filho, são três, a conta que Deus fez, que para o peditório da natalidade já tinha a sua conta.
Família nova, valha-me Deus que estou frita e sem idade para estas coisas. Felizmente são muitos os cunhados e as cunhadas, a algum havia de agradar, e ria-se com nervoso miudinho. É pegar ou largar, se não gostam, temos pena, que sou eu, o meu passado, com os meus dois mailindos do mundo, com amor à prova de bala. Mas o Steve era um homem bom, que a estimava e aos seus dois encantos e, fugindo ao azar dos Távoras, todos os cinco se davam bem.
Família nova, valha-me Deus que estou frita e sem idade para estas coisas. Felizmente são muitos os cunhados e as cunhadas, a algum havia de agradar, e ria-se com nervoso miudinho. É pegar ou largar, se não gostam, temos pena, que sou eu, o meu passado, com os meus dois mailindos do mundo, com amor à prova de bala. Mas o Steve era um homem bom, que a estimava e aos seus dois encantos e, fugindo ao azar dos Távoras, todos os cinco se davam bem.
Até hoje, lembrar-se-á sempre daquele almoço, casa cheia de gente de quem mal sabia os nomes, à rasca com tantas vozes e elogiava o bacalhau que mal lhe passava na garganta. Não fosse o carinho daquele homem bom, fugia dali a sete pés. Podia ser pior, ia pensando, enquanto se endireitava na cadeira. Quando no final se dirigiram para a cozinha e lhe deram um pano da louça igual ao de todos os outros, sentiu-se em casa.
Sábado, Dezembro 3
Dia de descanso, dizem eles.
Ao contrário do que previa a meteorologia, o tempo está luminoso neste dia Feriado, dia de descanso por imposição legislativa. Pelo menos parece-me: provavelmente ando satifeito, como me fizeram notar os empregados do café da rua onde, uma vez por outra, bebo a minha água mineral com gás entre dois dedos de conversa com as moças do cabeleireiro. "Apareça lá no salão, vizinho, que lhe fazemos uma atençãozinha", dizia-me há dias uma morena com um fugidio sotaque brasileiro. Agradeço com o compromisso para breve de umas boas navalhadas, mas fosga-se, ali não ponho os pés. Elas nao sabem que fico sem jeito com tantas mulheres à minha volta, onde o pecado vai do lavatório para a cadeira de corte, entre toalhas e pentes por mãos sábias que me parecem doces.
Ao contrário das outras manhãs, as ruas parecem respirar ou ganhar fôlego para os dias úteis com gente em trânsito para empregos, compromissos, enfim, a viver quase sempre a correr.
Mas lá está aquele camelo a buzinar, afogueado, contra os segundos de hesitação do carro da frente. Muito corre esta gente, não se julgue que os que não trabalham levam as manhãs com mais lentidão e menos relógio., mas veêm-se poucos velhos. Preferem as manhãs dos dias úteis, os que gozam ainda de alguma autonomia para tratarem dos restos das suas vidas em farmácias, correios, médicos, um jogo de cartas ou o repouso no jardim com os netos que ainda podem ajudar a criar. Lisboa já foi uma cidade amável para os velhos, agora já não é. O cidadão carro tomou-lhes as pracetas, os passeios e os locais de lazer. E a gente deixa, é isso me aborrece.
Ausentes das manhãs de dias santos estão também os jovens, no sono dos justos depois de alguma noitada, de persianas corridas e quartos silenciosos. Cada vez em maior número, veêm-se alguns esforçados desportistas a correr ou de bicicleta, os cavalheiros do pão e do jornal, mulheres de sacos cheios, e jovens pais com os carrinhos de bebé, mas gosto de reparar nos amantes, cabelos ainda húmidos, em passo lento, cúmplices e de olhar ausente deste quotidiano. O tempo deles é outro, como o café que tomam sem pressas, em movimentos que só eles parecem reconhecer.
E nos Feriados de manhã na cidade grande, também ando eu. Que dirão os outros de mim?
Natureza-Morta com Um Cacho de Uvas Suspenso, c. 1630














