Domingo, Novembro 27
ganhe alguma coisa num concurso, se bem que este ano já tenha recebido a minha fabulosa prenda de Natal.
Em bom rigor, não me importava nada de ganhar este relógio do Michael Kors, mas ainda não foi desta. Temos pena.
Aqui fica o meu texto. O tema era Qual a sua hora preferida do dia e porquê?
As manhãs
Descobri há pouco tempo que não conhecia as manhãs. Para as manhãs, nunca estou. Vou, regresso, corro, já com a luz posta, com a cidade em movimento em edíficios fechados. Quando as ruas se esvaziam e cada um toma o seu lugar, a manhã enche-se dos seus habitantes, gente com quem não me cruzo nas manhãs dos meus dias a néon e ar condicionado, que toma o espaço que os outros libertam, com um ritmo mais lento, com passo menos seguro e com mais tempo. São os idosos, os reformados nos correios com as notas, as facturas e as pensões, os casais nos bancos à procura de uma vida em casas sonhadas, as mulheres e os homens com impressos, sisas, obrigações, fichas de chamada nas finanças, uma geração de mulheres sem impostos e sem rendimentos, de alcofa e porta-moedas que percorre o mercado, ao peixe, à carne que há-de ter pronta à noite para os seus.
Vejo-as chegar no 47, acordadas há muito, com o saco, o almoço, o avental, a bata, os sapatos para trocar, o carteiro a tocar às campainhas de casas vazias com as contas, as notícias e as cartas timbradas. Sem farda, os cobradores tentam arrecadar as quotas, os fiscais fazem vistorias e os limpa-chaminés vão tentando a sua sorte.
Por aqui e por ali, as manhãs também têm os vendedores de hortaliça e leite e lá ao longe ainda se ouve o assobio do amolador. Nas zonas de comércio, há muito que os pedintes tomaram os seus lugares, os artesãos arrumaram a mercadoria e os homens dos retratos prepararam as tintas.
O trânsito, condicionado e programado à força de sinais, tenta mexer-se, encaixar-se nas ruas estreitas das descargas e circular por entre o caos das avenidas na pressa para o escritório. Os arrumadores vão chegando pouco a pouco, acordando lentamente de ressacas sem fim, tentam as primeiras moeda para a dose do dia e junto aos semáforos, juntam-se o velho Borda d'Água e os novos jornais. São os tempos modernos.
São estas manhãs que terminam quando as ruas se enchem de novo, de gente a correr, barulhenta, com horas marcadas, relógios de ponto e estômagos vazios. A estes conheço-os, ocupamos os mesmos espaços, caminhamos lado a lado, cruzamo-nos sem nos vermos e mais tarde, já quase sem luz vamos esvaziando as ruas e enchendo as estradas na viagem de volta. Até ao outro dia. Para mim, para eles, sem estas manhãs que não vemos.
Tanbém concorri com este texto a outro concurso há uns tempos, mas não lhe ligaram pevide. Parecem parvos.
Sábado, Novembro 26
Diário de uma gata enquanto blogger (12)
Cá estamos de novo as duas noutro Inverno; a patroa com os pés quentes e eu enrolada aos pés dela. Cá vamos, com as nossas coisas: eu faço desacatos, ela ralha, mas depois voltamos a ficar amigas, que a madura não é de ressentimentos.
Já me cheira a Natal e, mais dia menos dia, vou ter mais umas coisinhas novas para brincar (roía-se muito bem a árvore sintética do ano passado). Não sei porquê, mas o jingle bell chegou mais cedo este ano. E se a patroa anda satisfeita, melhor para mim, menos me maça. Tem graça envelhecermos as duas, seguir-lhe as rotinas, ouvir-lhe o riso e sentir-lhe as angústias. Às vezes parece um pouco parvinha (se eu pudesse dizia-lhe das boas), mas a moça lá tem os receios dela, e medos, pois então. Tem dias em que até tento dar-lhe um pouco de colinho, que isto de vivermos juntas já nos vamos conhecendo. E ainda dizem que as gatas são foleiras e pouco amigas. Pois eu não me esqueço dos meus tempos de rua, rafeira assumida, bem vi muito cão que não conhecia dono.
Agora que sou praticamente dona deste pedaço, boa vida e boa cama, patas quentinhas e pêlo escovado, gente amiga à nossa mesa, ouço daqui o riso da patroa e quem lhe faz bem a ela, também o faz a mim. Boa noite amiguinhos, que vou ali roer mais um pouco de sofá, satisfeita por não haver no mercado ração sem sal.
Agora que sou praticamente dona deste pedaço, boa vida e boa cama, patas quentinhas e pêlo escovado, gente amiga à nossa mesa, ouço daqui o riso da patroa e quem lhe faz bem a ela, também o faz a mim. Boa noite amiguinhos, que vou ali roer mais um pouco de sofá, satisfeita por não haver no mercado ração sem sal.
Quarta-feira, Novembro 23
"Conta-me os teus sonhos"
Na radio regressaram as canções de Natal e, quase como num reflexo, ia deitar-lhe a mão para a calar, que tinham sido muitos natais sem vontade de cantigas. Porém, deixou-a ficar. "E que se lixe a Dickinson, mais a esperança em forma de ave que pousa na alma a cantar melodias sem palavras e sem nunca parar. Pois eu gosto das melodias, gosto das palavras, e a esperança morre muitas vezes, chega mesmo a morrer todos os dias".
A verdade é que andava inquieta e cheia de medo, mas que raio lhe havia de acontecer. A vidinha estava a correr como Deus quer, sem sobressaltos, clarinha como água, com os croissants aos Sábados na praceta, as compras no mercado da zona, uns livros, filmes de vez em quando, um ou outro jantar com amigos, e agora isto. Coisas do acaso, a cena do costume (girl meets boy) e, por arrastamento, o kit completo dos sentimentos, que é como quem diz ansiedade, nervosinho, falta de apetite, e tudo aquilo que a gente está farta de experimentar.
Durante dia, até chegar o sono, ia desfiando as contas do rosário das dúvidas do costume, mais as contas do passado, mais espinhos que rosas, mas porventura o melhor é como no filme e largar o que já passou, que só se encontra mil passados e nenhum futuro.
Curiosamente, no meio de todo este sobressalto tinha encontrado tranquilidade e recuperado um pouco da alegria perdida. Quem a conhece, viu-lhe a casa de Natal com luzes a piscar, os desejos embrulhados em papel vermelho com estrelas, as tristezas meteu-as em caixas com azevinho, as saudades embaladas em cartolinas prateadas com estrelas azuis e as alegrias em pacotinhos com laços de seda.
Ouço-a rir lá na cozinha. O riso faz-se também das lembranças que se libertam do passado, dos momentos em que se omite, com cumplicidade, o que está sempre presente. Lá em cima, os deuses e os anjos hão-de ajudar, disse-me ela, que até já deixou de fumar.
Terça-feira, Novembro 22
Sexta-feira, Novembro 18
Quinta-feira, Novembro 17
Nunca digas nunca
Bobbie Gentry - I'll never fall in love again
Há muito que se lhe não conhecia um namorado, uma paixão, um devaneio ou um desvario. Se ela tinha dates, affairs, ou afins, era segredo bem guardado. Que nunca abria a boca para falar nesses assuntos íntimos, como lhes chamava, era uma grande verdade. A gente bem tentava sacar um nome, um caso, uma paixoneta, um béguin, mas nem uma palavra, comoção ou brilhozinho nos olhos.
De resto, parecia-nos agora mais moderna com a idade, mais ousada no vestir, mas também mais apaziguada e sorridente. Se a querem ver irritada, considerem-na uma "mulher interessante" e toda a artilharia pesada do insulto silencioso desaba sobre vós. Julgo que tinha encontrado pequenas alegrias com a felicidade das amigas, poucas mas boas, e o tempo tornara-a totalmente implacável com o lambe-botismo, o arrivismo e a deslealdade. Queixa-se das mazelas da idade (mas disso nos queixamos todas), das rugas que foram aparecendo, dos cabelos brancos mais que muitos e da falta de energia (bem sei o que é isso).
Depois da fase apocalíptica, considerava-se integrada, conformada e arrumada. Por gentileza, todos a contrariavam; que disparate, estava na mesma (mentira), agora é que estás bem (hipocrisia), quem sabe as coisas boas que estão para vir (e as más, por essa ordem de ideias).
Mais ou menos conciliada com o passado, agradava-lhe ver fotografias antigas que ia comentando entre entres dentes com um sorriso ou com uma raivinha que ainda não conseguia esconder: que nervos, tanto disparate, que figura, onde tinha a cabeça, boas pernas, soutien errado.
Sempre que viajávamos no carro dela encontravamos alguns dos cds do costume, os clássicos, um ou outro modernaço, o Bach do seu coração, músicas que tinham signficados especiais, mas curiosamente nunca lhe detectei ponta de nostalgia romântica. Como mulher de hábitos, acostumei-me a vê-la comer com parcimónia e moderação (uma vida a lutar contra os genes deixa as suas marcas), mas gostava do seu gin, da cerveja ao final da tarde. Estava arrumada, dizia ela, mas não estúpida.
Viu casar as amigas, calou as confidências, ouviu-nos os delírios, acarinhou-lhes os filhos, acolheu-as nos divórcios, conheceu-lhes amores novos, em tudo esteve presente sem recriminações nem hesitações. Porém, naquela tarde, achei-a diferente. Não sei se seria de um novo modelo de vestido que agora ousava vestir, se pelo olhar. A verdade é que estava diferente. Quando pediu uma tarte com gelado achei curioso, quando sorriu para a mensagem do telemóvel, pensei que ali havia caso: sempre as facturas electrónicas, as promoções e as ofertas de novos serviços, suspirou, mas a mim não me enganou.
Tocou o telefone e pelo olhar e sorriso, percebia-se que não se tratava das habituais chamadas da mãe, amigas ou irmãs. Balbuciava palavras curtas, mais trejeitos que sons, trocando silêncios de cumplicidade. Fingindo-me desinteressada, pus-me à escuta na despedida: "Às oito horas está óptimo. Na tua casa ou na minha?"
Estou mortinha por voltar a encontrá-la. De preferência com aquele vestido vermelho que lhe ficava tão bem.
Adaptação de um texto ecrito há alguns anos
Terça-feira, Novembro 15
Segunda-feira, Novembro 14
Sábado, Novembro 12
Sexta-feira, Novembro 11
F(r)ios de memória
Reconheço num ou outro local da cidade cheiros antigos das minhas memórias. Geralmente ao final da tarde, em que a penumbra esconde portarias largas e recortes de prédios altos, o nevoeiro mistura-se com sensações antigas, com a pacatez do previsível, com os aromas duma cozinha, de madeira na lareira ou de camisola quente.
Recordo o velho bueiro da rua, as últimas filhós da aldeia, o jornal regional, e as conversas amenas enquando se ajeitava o lume, algo semelhante a trincheiras que nos protegem dos outros, do frio e da hostilidade do mundo
No ar sentia-se o cheiro a mosto dos lagares e só o sino interrompia o silêncio nos campos abandonados, vã poesia para quem sai mas não para quem lá fica. Tenho ideia do frio seco das ruas estreitas e empedradas, de casas modestas com chaminés encardidas envoltas no cheiro de madeira a arder e a dar algum calor ao desconforto do frio que era muito. Recordo o cheiro a fumo entranhado nas roupas e no cabelo e a cinza, uma batalha diária.
Há uns tempos descobri um perfume com fragâncias de madeira e musgo. Diziam-me na loja que "transmitia sensualidade". E eu que só queria um bocadinho do fim de tarde da minha rua.
Albuns (quase) a sépia
Por vezes dou comigo no canal Memória, não exactamente o meu, particular, privado, em circuito fechado e inacessível a olhares alheios, mas o da televisão, com assinatura mensal.
Independentemente dos excessos dos anos 60, do vestuário apalhaçado dos setenta, dos penteados encaracolados da década de 80, ou da misturada nova rica dos anos 90, é algo confrangedor verificar a passagem do tempo nas personalidades que por lá aparecem, sejam elas artistas, políticos, ou o que forem.
A verdade é que quem pode vai fazendo por adiar a velhice; um estilo de vida saudável com boa alimentação, exercício físico, com a ajuda da medicina e um empurrãozinho da estética/cosmética, a pele demora mais a enrugar e o corpo a quebrar. Uns vão envelhecendo melhor ou pior, assim a saúde, os genes e por vezes a carteira o permita.
No entanto, não deixa de me surpreender a onda revivalista de festas temáticas com músicas passadas, em que se cantava inocentemente "Bad Case Of Loving You", onde se dançava tudo a que se tinha direito, desde slows compungidos (If you leave me now) até às mais inomináveis pimpineiras, mas what a feeling, valha-me Deus! Revivem-se tempos dourados de uma pista de dança onde nos divertiamos como se não houvesse amanhãs, mas agora com menos leveza, (algumas) rugas e cabelos brancos.
Existem inclusivamente estações de rádio especialmente dedicadas à nostalgia musical, e de tempos a tempos vão saltando dos baús trapos de modas antigas, devidamente autorizados pela ditadura dos fashionists.
Como em tudo na vida, nestas coisas da nostalgia é aconselhável a moderação: o dantes é que era bom e tal, nem sempre corresponde à verdade (aliás, meia dúzia de rewinds no meu canal memória são suficientes para me arrepiar). É bonito estarmos vivos, pá, mas ainda há muito para viver, assim haja esperança e saúde. Vivamos em paz e que o Senhor nos acompanhe.








