Quarta-feira, Agosto 31
Terça-feira, Agosto 30
Ar e vento
Não sei de onde me vem esta repelência por balões nem o motivo porque nunca gostei de tal coisa. A verdade é que se dantes não gostava, com estes agora enchidos a hélio, ainda gosto menos; são medonhos, umas caras feias a esvoaçar, dentuças arregaladas, bonecos disformes; não sei como a criançada não desata num pranto assim que os vê.
Longe vão os tempos em que se soprava, soprava, era preciso muito fôlego para tão pouca duração: por vezes era mesmo uma questão de segundos e zás, rebentavam na cara. No dia seguinte estavam mirradinhos e sem graça, mas tinham tido o seu efeito, que não há festinha sem balões de muitas cores. Mas estes de agora, estes sempre em pé que se vendem por tudo o que é feira (e caros), não têm vida de festa; animam os pequerruchos em vez do algodão doce ou do geladinho e são servidos à la carte: um boneco-dentuças para a menina, um carro-dentuças para o menino e estão caladinhos.
Que graça têm se não se podem rebentar junto ao ouvido da menina? (ai que susto e uma gargalhada) Que efeito tem uma largada de balões pokémons e hello kitty?
Mas hoje posso escolher: larguem cinquenta balões só para mim.
Segunda-feira, Agosto 29
Les trois principaux édifices de Palma sont la cathédrale, la Lonja (bourse) et le Palacio-Real.
La cathédrale, attribuée par les Majorquins à don Jaime le Conquérant, leur premier roi chrétien et en quelque sorte leur Charlemagne, fut en effet entreprise sous ce règne, mais elle ne fut terminée qu'en 1604. Elle est d'une immense nudité; la pierre calcaire dont elle est entièrement bâtie est d'un grain très-fin et d'une belle couleur d'ambre.
Cette masse imposante, qui s'élève au bord de la mer, est d'un grand effet lorsqu'on entre dans le port; mais elle n'a de vraiment estimable, comme goût, que le portail méridional, signalé par M. Laurens comme le plus beau spécimen de l'art gothique qu'il ait jamais eu occasion de dessiner. L'intérieur est des plus sévères et des plus sombres.
Les Majorquins prétendent que leur cathédrale est très-supérieure à celle de Barcelone, de même que leur Lonja est infiniment, selon eux, plus belle que celle de Valence. Je n'ai pas vérifié le dernier point; quant au premier, il est insoutenable.
Un hiver à Majorque-George Sand
Fora de casa (3)
Há quem se irrite com os panfletos turísticos de excursões locais por nem sempre corresponderem à realidade. Pelo contrário, eu nunca os dispenso. Com bom senso, dá-se o devido desconto às promessas de visitas a locais idílicos para fotografias (sempre podem dizer que estiveram nas Caraíbas), grutas inesquecíveis, comezainas fartas, igrejas majestosas, povoações típicas, castelos maravilhosos, palácios fantásticos, vistas soberbas (leia-se os guias espanhóis onde tudo "es bello"), demonstrações variadas, e claro, os recuerdos de oportunidade.
Se tivesse que publicitar a minha rua diria que tem esplanadas agradáveis, comércio de qualidade, bem servida de transportes públicos, estacionamento gratuito, zona pedonal arborizada, diversas caixas multibanco com respectivos bancos, proximidade de grandes armazéns, acesso rápido ao aeroporto, saídas directas para radiais exteriores, ideal para sportinguistas mas sem descurar os benfiquistas, entre outras maravilhas da natureza. Mesmo sem praias espantosas, neve, desportos náuticos, ou locais de pesca à linha, um panfleto faz milagres. Isto em esquecer o turismo rural, o agroturismo, o ecoturismo, B & B, o turismo de natureza e a gastronomia de qualidade, que a minha aldeia nas berças poderia proporcionar.
Com mais ou menos qualificativos, maravilhas questionáveis ou paraísos exagerados, é sempre uma oportunidade para mudar de ares, apanhar umas cores, quebrar a rotina, fugir do secador, ler ou não ler, descontrair e fazer por esquecer ralações, deslealdades, uma blogoesfera persecutória e os cortes orçamentais neste lado da fronteira.
Haja saúde e um sorriso. Amén.
Domingo, Agosto 28
Fora de casa (2)
Desconheço se o business dos souvenirs/recuerdos terá sido afectado pela desgraça financeira que nos assolou, mas a verdade é que se vendem como pipoca quente. Do mais barato (ímanes, isqueiros, dedais, etc.) ao produto carote, há gente para tudo. "E ainda me falta levar qualquer coisa para a minha cunhada e para a sogra", lamentava uma turista de volta de colheres de pau temáticas, entre bases para copos em forma de mapa e panos de cozinha com imagens de catedrais. "Não leves nada, que não viste a ponta de um corno quando voltaram da Madeira", rezingava o cavalheiro entretido com garrafas de anis e canecas com bandeiras. "Levamos um chapéu ao mais velho e para a miúda nem sei bem; não gosta de nada, a gaiata".
São mais ou menos assim as conversas que se ouvem nos estabelecimentos da especialidade. Por mim, desde que me pediram quase dois euros por uma zurrapa preta a fingir café numa aldeia perdida na serra, fiquei logo com azia, sintoma de ter sido roubada com os dentes todos. Claro está que os preços pagos em aeroportos são obscenos, mas tem muito mais pinta.
Fora de casa
Costuma-me entender o que leva alguns maduros a envergar tshirts amarelo canário com "dizeres" temáticos a versar pintainhos a sair da casca e a ilustrar "Love XX". Estas criaturas animadas de diversas nacionalidades podem ser detectadas junto à saída de aeroportos, bares, locais de interesse turístico onde exista uma máquina fotográfica e outros maduros de calças à pirata. Também apreciam chapéus de palha e deles fazem uso seja onde for, sem cerimónias nem educação. Gostam de assobiar como que a chamar alguém e falam alto, muitas vezes em conversas indiscretas, ignorando que podem ser compreendidas pelo vizinho do lado; já assisti a algumas de bico calado, por vezes constrangida com a indiscrição dos assuntos falados na minha língua em locais distantes.
Enfim; a malta é remediada, mas tem hábitos civilizados e comportamentos urbanos. Há criaturas que mal põem o pé fora da fronteira dão largas à indumentária e à boçalidade em xanatas. Está claro que não falo somente dos portugueses.
Custa-me também entender o que leva pessoas idosas para locais com temperaturas tão altas que até os mais novos se têm em cuidados para as suportar. Vi gente a enfrentar o calor como um suplício, encarnadas, esbaforidas, exaustas e praticamente derretidas; se muitas forem parar ao inferno, já levam um avanço no que vão encontrar.
Ser turista tem as suas particularidades, mas o melhor mesmo é ser lá fora como cá dentro: nunca se sabe quem se pode encontrar.
Enfim; a malta é remediada, mas tem hábitos civilizados e comportamentos urbanos. Há criaturas que mal põem o pé fora da fronteira dão largas à indumentária e à boçalidade em xanatas. Está claro que não falo somente dos portugueses.
Custa-me também entender o que leva pessoas idosas para locais com temperaturas tão altas que até os mais novos se têm em cuidados para as suportar. Vi gente a enfrentar o calor como um suplício, encarnadas, esbaforidas, exaustas e praticamente derretidas; se muitas forem parar ao inferno, já levam um avanço no que vão encontrar.
Ser turista tem as suas particularidades, mas o melhor mesmo é ser lá fora como cá dentro: nunca se sabe quem se pode encontrar.
Sábado, Agosto 27
Sexta-feira, Agosto 26
Autour de nous, toute la culture, inclinée sur des tertres fertiles, était disposée en larges gradins irrégulièrement jetés autour de ces monticules. Cette culture en terrasse, adoptée dans toutes les parties de l'île, que les pluies et les crues subites des ruisseaux menacent continuellement, est très-favorable aux arbres, et donne à la campagne l'aspect d'un verger admirablement soigné.
Un hiver à Majorque-George Sand
Un hiver à Majorque-George Sand
“...uno de esos paisajes que nos atrapan porque no nos deja desear ni imaginar nada más...”George Sand
Les premiers jours que nous passâmes dans cette retraite furent assez bien remplis par la promenade et la douce flânerie à laquelle nous conviaient un climat délicieux, une nature charmante et tout à fait neuve pour nous.
Je n'ai jamais été bien loin de mon pays, quoique j'aie passé une grande partie de ma vie sur les chemins. C'était donc la première fois que je voyais une végétation et des aspects de terrain essentiellement différents de ceux que présentent nos latitudes tempérées
Un hiver à Majorque-George Sand
Un hiver à Majorque-George Sand
Quinta-feira, Agosto 25
Imagens de alguns locais por onde andaram Chopin e George Sand e um pouco o presente retrato de uma ilha quente: os produtos locais numa terreola bem cuidada, o negócio das pérolas de cultura e uma construção embargada à beira-mar em avançado estado de construção.
"Nous arrivâmes à Palma au mois de novembre 1838, par une chaleur comparable à celle de notre mois de juin. Nous avions quitté Paris quinze jours auparavant, par un temps extrêmement froid; ce nous fut un grand plaisir, après avoir senti les premières atteintes de l'hiver, de laisser l'ennei derrière nous. A ce plaisir se joignit celui de parcourir une ville très-caractérisée, et qui possède plusieurs monuments de premier ordre comme beauté ou comme rareté."
Un hiver à Majorque-George Sand
Sexta-feira, Agosto 19
Quinta-feira, Agosto 18
Coisas boas em tempos de crise
Para além de uma receita boa e barata de arroz de Grelos com Bacalhau por 6,41 € para 4 pessoas , sempre temos as praias das redondezas para quem vive perto do mar; para quem está longe, temos pena, sei bem o que isso é. São só vantagens: durante este período de êxodo para outras bandas não é difícil estacionar (não exageremos e levemos o carro), o areal está espaçoso, não há filas para as casas de banho e os cafés são servidos rapidamente.
Durante o trajecto convém ignorar os smarts com moças excitadas e os grunhos do costume; é preciso ter calma porque não se vai "picar o ponto" nem a nenhuma reunião de trabalho. Conselho amigo: evitar os nervinhos e o stress.
Chegando ao areal, escolha uma aberta simpática (o local não é despiciendo), respire fundo e sossegue. Instale-se com ordem: sapatos, toalha, chapéu (guarda-sol, lancheira, revista, livro, i pod, e óleo para cabelo são opcionais), roupa dobrada, bronzeador e considere-se na praia. À sua volta vê muitos jovens de corpo bonito e bikinis reduzidos, mas não se ponha com nostalgias do seu tempo de adolescência; pense que as hormonas provocam disparates dos quais ainda hoje tem memória. Na vizinhança da toalha também encontra gente igual a si (percebe do que falo, naturalmente), está ali para mudar de ares, falar de banalidades, descontrair e apanhar uma corzinha que perdure até ao regresso ao trabalho.
Entretanto já lhe deve ter dado a fome e a sede. Recorda-se quando era criança e viajava com os seus pais? ainda não tinham feito dez quilómetros e já estava a pedir comida? A mim dá-me logo para sacar da caixa da fruta (pão opcional) e da garrafa de água. Não vá na conversa de levar frutos secos e liofilizados; até podem tirar a fome, mas dão uma sede desgraçada.
Por fim tome uma rica banhoca. Vá por mim: a água está magnífica.
Quarta-feira, Agosto 17
Os espelhos
Old Women of Arles-Gauguin
Vejo-as chegar com ar abatido e perguntam se podem descansar um pouco. A princípio não entendi bem; as empregadas trataram-nas pelo nome e pareciam ser duas clientes idosas a necessitar de cabeleireiro. Sim, os cabelos ralos e desbotados estavam a pedir coloração e secador. Entretida com a conversa sobre os benefícios das plantas medicinais, entre uma limas e vernizes, só mais tarde me apercebi que vinham mesmo descansar, sentar-se um pouco antes de continuar a caminhada.
Seriam duas irmãs, com ar de prosperidade há muito desaparecida, roupa sem brilho, mas ambas com uma fiada de pérolas sob a camisa clara na pele magra. Imaginei-as bonitas e graciosas em tempos de abundância. A vida deve ter-lhes cortado as voltas e ali estavam cansadas, de cabelo desbotado, sapatos cambados, mas com uma dignidade que nunca perderam, não obstante as reformas miseráveis que as faziam percorrer distâncias a pé num corpo que já não aguentava.
Sentaram-se em frente a um espelho, mas nunca se viram de frente. Cabeça erguida, orgulho ferido, evitaram olhar para as mulheres presentes, porventura envergonhadas de tanta fraqueza e velhice. As funcionárias trataram-nas com carinho à chegada, mas nem uma palavra trocaram; precisavam das forças todas recuperadas naqueles instantes. Fugiam dos espelhos, das presentes e não pude deixar de me sentir constrangida perante a pobreza, o cansaço e a velhice. Aquelas duas irmãs, sem o brilho e abundância de outrora, que educadamente pediam uma cadeira para repousar, não vinham à patetice das limas, dos vernizes azuis e dos pés dentro de uma tina. Silenciosamente vinham só descansar os corpos magros, vergados pela idade e pela falta de saúde. Fugiam da própria imagem, dos olhares alheios e da nossa comiseração. Evitei olhá-las e não houve conversas de circunstância, mas que estivessem à vontade.
Passados breves minutos, levantaram-se, agradeceram e sairam uma atrás da outra, aquelas duas mulheres, em tempos graciosas e elegantes, agora sem forças nem dinheiro para taxi que as deixe à porta. Pobres e velhas numa grande cidade.
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No ma-schamba, a Ana L, uma moça da minha terra, deu-lhe o título certo: Recados do futuro.
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No ma-schamba, a Ana L, uma moça da minha terra, deu-lhe o título certo: Recados do futuro.
Terça-feira, Agosto 16
Match point
Movimentam-se aos pares, quase sempre machos, e escolhem quase sempre a nossa vizinhança. Sem darmos por isso, o número de jogadores pode até vir a aumentar assustadoramente e com ele a probabilidade de alguma bola nos acertar na tola. Correm, agacham-se, vociferam ou urram de contentamento, do grande feito, de uma grande jogada e nós ali tão perto. Sem querer, mais por medo do que por admiração ou desdém, acabamos por seguir o bater da bola no vai-vem das raquetes, toc, toc agora mesmo aos nossos pés, a curta distância dos corpos vulneráveis no areal.
Não se cansam nem largam a bola, mais ou menos preparados, mais ou menos atléticos, correm como podem e com eles o nosso olhar; toc, toc, bate a bola, mais um gritinho, pois sim mas já chega, antes que. Esforço físico, dizem eles; se a bola me acertar já não a levam, dizemos nós, tantas vezes perante um patético desempenho desportivo ou um barrigudo sem graça.
O alheamento é praticamente impossível, a maré está alta, o areal curto, mas continuam, batem e correm, ou não batem mas correm na mesma, um, dois ou três pares. Não é ilegal, dizem eles; nem na praia nos larga o velho jacobinismo.
Mais uma corrida, nova batida, desta vez falhada para eles, dorida para outros: match point limpinho rente à orelha. Tudo legal.
A oeste nada de novo (2)
A gula dos estabelecimentos de restauração vai devorando os passeios e os que estavam em más condições o verão passado continuam por reparar. Naturalmente há tascas que há muito deviam estar fechadas, mas eu sou só turista e posso escolher; fujo da javardice e do mau aspecto como Maomé do toucinho.
A crise também parece ter-se instalado nas janelas das casas, tal é o número de placas com “vende-se” ou “aluga-se”. Entretanto os mais sensatos tentam adaptar-se aos novos tempos, criam novos hábitos e largam velhos vícios. Para além desgraça a céu aberto, hão-de safar-se melhor os mais prudentes e os mais ricos. A miséria tem cada vez mais dificuldade em se manter escondida, mas a pobreza, essa está bem presente nas estatísticas malditas que não param de crescer.
Encontro praticamente as mesmas caras, gente que o tempo e as vicissitudes da vida trataram melhor ou pior, mas revejo-as sempre com gosto. Espero encontrá-las no ano que vem, com mais ou menos rugas, um quilito em excesso, mas sempre com saúde. De ano para ano as expectativas vão diminuindo e a esperança agarra-se como se pode, sem a força de outros tempos, mas nem por isso menos presente.
Entretanto o sol recusa-se a aparecer e parto para novas pastagens mais amenas longe das quebras de lealdade e das minudências sem sentido que acabam por nos cercar (e quebrar).
Comigo levo sempre a saudade dos que me amaram sem condições e uma mala cada vez mais leve. A idade não nos cura os desgostos, mas torna-nos mais práticas.
A crise também parece ter-se instalado nas janelas das casas, tal é o número de placas com “vende-se” ou “aluga-se”. Entretanto os mais sensatos tentam adaptar-se aos novos tempos, criam novos hábitos e largam velhos vícios. Para além desgraça a céu aberto, hão-de safar-se melhor os mais prudentes e os mais ricos. A miséria tem cada vez mais dificuldade em se manter escondida, mas a pobreza, essa está bem presente nas estatísticas malditas que não param de crescer.
Encontro praticamente as mesmas caras, gente que o tempo e as vicissitudes da vida trataram melhor ou pior, mas revejo-as sempre com gosto. Espero encontrá-las no ano que vem, com mais ou menos rugas, um quilito em excesso, mas sempre com saúde. De ano para ano as expectativas vão diminuindo e a esperança agarra-se como se pode, sem a força de outros tempos, mas nem por isso menos presente.
Entretanto o sol recusa-se a aparecer e parto para novas pastagens mais amenas longe das quebras de lealdade e das minudências sem sentido que acabam por nos cercar (e quebrar).
Comigo levo sempre a saudade dos que me amaram sem condições e uma mala cada vez mais leve. A idade não nos cura os desgostos, mas torna-nos mais práticas.












