Domingo, Janeiro 30
Retire o talão
Para além das caixas tradicionais, uma cadeia de hipermercados instalou, há já algum tempo, diversas caixas self-service pelas quais tenho uma particular estima. Nada tenho contra a interacção com as funcionárias (de novo quase sempre mulheres), mas tratando-se de poucos produtos, trato pessoalmente do assunto com maior rapidez, se bem que a máquina por vezes se arme em parva, sendo necessária ajuda externa.
São máquinas falantes como um GPS ou uma informação de call center, sensíveis como um vidrinho e espertas como os anúncios a marcas de óculos feitos por quem não deles precisa.
Mas nem toda a gente tem o mesmo jeito (competências) para lidar com estas self-service. Por vezes fico mesmo um pouco surpreendida com a total inaptidão de muitos clientes; olhando para eles parecem-me leitores de livros difíceis, viajantes por terras distantes ou utilizadores de alta tecnologia, mas chegando à máquina, interpretam com dificuldade as instruções fornecidas: não encontram os códigos de barras, baralham-se com os sacos e hesitam no pagamento.
Estas palavras cordatas não revelam exactamente o que me apetece chamar-lhes, quase vinte minutos depois de estar na fila à espera que aqueles dois se despachem. Que chatice.
Mas pensando melhor, estes clientes sem jeito estão do lado dos bons, dos que sabem os preços, dos que fazem contas, dos que precisam de economizar. Anda por aí muita gente emproada e empossada que nem sabe que estas máquinas existem.
Sábado, Janeiro 29
Visita (IV)
Sound of Music - Climb every mountain
Corria aquela ano maldito de 1938. Muito tempo antes das vagas de emigração para o Brasil, França e dos jovens do Erasmus que vão e não voltam, fomos todos apanhados em cheio pela Anschluss. O presidente do Conselho haveria de decretar a neutralidade do nosso país, mas as notícias demoravam a chegar ao alto da serra, ainda longe de Salzburgo onde viviamos, um sítio maravilhoso, diga-se, de fazer inveja à menina Heidi, uma petiza risonha dos alpes suiços.
No meio de tanta beleza e isolamento, a única vizinhaça era uma villa que víamos ao longe e onde raramente entrávamos: uma casa maravilhosa com lindos jardins, fontes e onde viviam 7 meninos, um senhor do exército, uma nanny a precisar de um corte de cabelo mais feminino e um ou outro empregado. Como sabem, por aqueles lados não se pratica o desporto nacional da intromissão na vida alheia, pelo que pouco mais sabiamos sobre a família.
Por mim falo, mas havia dias em que aquela gente me irritava muito, todo o dia a cantar serra abaixo, serra acima. De tanto os ouvir, cheguei mesmo a aprender a tocar xilofone : do re mi do mi do mi mi... e por aí em diante. Constava que a jovem governanta tinha vivido num convento de onde foi aconselhada a sair e a fazer-se à vida, exaustas que estavam as freiras de tanta música. A moça pouca vocação religiosa deveria aparentar e dava-se mal em clausura, onde a sua voz de rouxinol ecoava de manhã à noite, abrindo assim caminho para as Whoopi Goldberg do futuro.
Apesar de serem muitas crianças, eram pouco ruidosos. Talvez o capitão lhes impusesse uma rigidez e disciplina militar, sou eu a imaginar, mas com a chegada da menina Maria, tudo mudou: sacavam das guitarras e dos ferrinhos e todo santo dia cantavam Do-re-mi, My favourite things, entre outras dezenas de canções. Cantavam muito bem, essa era a verdade; músicas muito mais alegres dos que as enfadonhas canções portuguesas de faca e alguidar ou desgosto e ciúme (ou vice-versa). The hills were always alive with the sound of music
Um dia houve uma grande festa na villa. Por nós passou uma mulher loura deslumbrante, que vim a saber ser a noiva do capitão. Era muito gira, mas feita com os invasores e o pai das crianças já estava embeiçado pela governanta insonsa mas boazinha com quem acabaria mais tarde por casar, a contento de todos.
E a história termina aqui: nós voltámos para esta terra duma austera, apagada e vil tristeza e a simpática família numerosa foi cantar para outra freguesia, onde o capitão não tinha que fazer a Deutscher Gruß.
Mas as canções andam por aí.
Quinta-feira, Janeiro 27
Três anos na Tailândia, e muitas leituras depois, eis o livro do Miguel: The Portuguese-Siamese Treaty of 1820. Quem não percebe nada do assunto (como eu), fica a saber.
Fico orgulhosa dos sucessos dos meus amigos.
Terça-feira, Janeiro 25
Por boas razões
ISNA (concelho de Oleiros e capa do jornal Público, com fotografias extraordinárias)
Uma bonita povoação portuguesa onde vivem as nossas grandes amigas (daquelas que já não há), e que foi a freguesia com a menor taxa de abstenção em todo o país: nem o frio nem a idade os meteu em casa. Gente de muito trabalho e sabedoria : "Se não votarmos, somos esquecidos", argumenta António."
Espanha e o admirável mundo novo por ordem e legislação
Não resisto ao último post da Rititi :
O maior problema da Espanha não é o desemprego, a ETA, o desgaste social, a emigração ilegal ou o deterioro da economia. Não, o maior problema de Espanha é a péssima qualidade da classe política. Gente sem mais preparação que uma carreira dentro do aparato do partido, sem experiência no mundo laboral, patrocinada pelos impostos dos cidadãos cuja realidade nem conhece nem pretende conhecer e cujo quotidiano teima em legislar inspirada por epifanias que roçam o ridículo e que provocariam a gargalhada geral se não tivessem essas ocorrências estafúrdias carácter legal e afectassem o dia-a-dia da cidadania.
(...)
Depois da Comissão para a Racionalização dos Horários Espanhóis, dessa aberração por inepta e incapaz que foi a ex-ministra de Igualdade Bibiana Aído (para quem dizer que uma mulher é “membro” de uma associação é sinal inequívoca do machismo histórico que assola as nossas sociedades), da luta contra o tabaco que finalizou numa lei que trata os fumadores como cães sarnosos sem direitos, do desleixo e má-fé no tratamento das corridas de touros, da cruzada contra a gordura nos hambúrgueres, o sal na mesa e o álcool nas ruas, agora chegou a vez “criar uma sociedade que não permita que ninguém se sinta humilhado. Uma sociedade onde sentir-se seguro e amparado pela lei“, segundo palavras da nova Ministra da Saúde, Política Social e Igualdade, Leire Pajín, uma miúda de 34 anos que deu o salto das juventudes socialistas para o mundo (...) continua.
Segunda-feira, Janeiro 24
Outras cruzes
As pessoas que estão nas mesas de voto são um pouco como as funcionárias dos consultórios médicos (e até como os cobradores dos comboios), com quem convém manter uma atitude cordial: a qualquer momento podem informar-nos de que não podemos votar, que só há marcações para o mês seguinte (e até que estamos no comboio errado).
Perante estas individualidades, aconselha a experiência que não devemos hostilizar quem se encontra à nossa frente com o poder de correr connosco, pelo que é aconselhável manter um comportamento cordato e positivo, pensar que tudo vai correr bem...vai correr bem...
Na mesa de voto, felizmente, não tenho tido problemas apesar do cartãozinho um pouco sebento com as letras a desvanecer. Já com as senhoras dos consultórios (sempre mulheres?) nem sempre a vida me corre de feição e acabo sempre por mendigar a informação de uma desistência.
Pois bem, quando comecei a votar em Lisboa, havia no local aproximadamente vinte mesas de voto e claro, com a minha juventude, votava sempre nas últimas. Com o passar dos anos, tenho vindo a aproximar-me perigosamente das primeiras seis, deixando para trás os mais jovens, a curta distância das senhoras de casacos de peles, excesso de base e cabelo ripado.
Estou por tudo. Também quero chegar-me à frente com saúde, mesmo com o cabelo vermelho saído do bingo de Blackpool.
NOTA: Tenho andado a interrogar-me sobre a razão pela qual os escuteiros não me impingiram, este ano, nem calendários nem canetas. Será que existe alguma "lista negra" de pessoas a quem é inútil tentar vender o merchandising?
NOTA 2: Perante o boletim de voto, faço uma cruz modesta e confirmo duas, três vezes se ficou no lugar. Ninguém vê nada, pois não?
Aos ossos, cidadãos.
Imagine-se uma sala cheia de "entrevados" com maleitas de ossos, músculos e essas coisas chatas que levam um ror de tempo a sarar: um pedala como se velocidade induzisse a cura, outra rebola com uma bola gigante, uma idosa faz movimentos ao pulso, uma recém reformada bate recordes na passadeira e eu vou-me fritando aos poucos com eletrodos ligados a máquinas.São estes os meus companheiros matinais na luta por uns ossos direitinhos e músculos enxutos. Cada um com a sua maleita diferente, para a qual não são necessárias legendas nem tradução pois as máquinas tudo explicam: equipamentos para pé, perna, braço e osteoporose [entretanto termina o tempo dos eletrodos e ligam-me a coisas magnéticas].
Invejo-lhes a energia logo de manhã. Depois de uma breve explicação sobre o andamento da maleita e do aparecimento de novas dores (hoje saiu uma ciática para a senhora do canto e uma hérnia para o cavalheiro junto à porta), entra-se na ordem do dia, ou seja, a conversa do costume praticada em muitas corridas de taxi: só ali num bocadinho, Cavaco 3, abstenção 1, nulos zero, mas nada chega para nos animar [terminou o tempo para os magnéticos e vamos aos raios]. A "roubalheira nos impostos" põe o senhor a caminhar mais depressa, os descontos nos medicamentos descontrolam os movimentos à idosa e os aumentos dos transportes desiquilibram o ciclista. Por esta altura já estarei um pouco mais frita, cozida e assada (por esta ordem), pronta para me despedir; "gelo", insiste a técnica, "repouso", aconselha a idosa, logo a mim, que nunca fui dada a dores de cotovelo.
Visita III

A minha tia já me tinha falado dela em cartas que me envia regularmente de St. Mary Mead onde se encontra em convalescença, aldeia pacata onde o tempo corre devagar. Apesar de me assegurar repetidamente que a Mrs. Jones se tem esmerado no acompanhamento diário e nas tarefas domésticas, isso não me impediu de sentir alguma inquietação: uma idosa com pouca visão e ossos frágeis é motivo mais que suficiente para me tirar o sossego.
E foi assim que fui parar a St. Mary Mead, aproveitando uns dias de férias por gozar. Ia fazer-me bem, pensei. Descanso, leio, passeio pelas redondezas e, lá no fundo, espero por uma volta na minha vida. Ia finalmente conhecer o famoso "country" das séries da BBC e dos filmes com o Colin Firth e com o Jeremy Irons.
Foi numa dessas manhãs em que me preparava para sair, que conheci pela primeira vez a Miss Marple. Já me tinham confidenciado que, apesar do ar aparentemente distraído, era uma pessoa intuitiva, atenta aos pormenores, com uma inteligência viva e muito conhecedora da natureza humana. Dos mexericos locais retinha sinais e aspectos que consideravam relevantes e, vá-se lá saber porquê, acabavam sempre por se provar de grande utilidade para deslindar pequenos mistérios: "Qualquer coincidência é sempre digna de nota. Poderá desfazer-se dela mais tarde, se for apenas uma coincidência", costumava dizer.
Como ia dizendo, vinha visitar a minha tia. Trocámos algumas palavras, as suficientes para confirmar tudo aquilo que me tinham revelado sobre a sua perspicácia e saí, tranquilizada por deixar as duas entregues à discussão sobre a mudança do horário dos comboios.
No dia seguinte, voltámos a encontrar-nos na única mercearia da aldeia e estou mais que certa que não lhe escapou o conteúdo do saco das minhas compras (uma garrafa de vinho decente, entre outras coisas), nem a pressa que revelei (que teria visto em mim, a gentil Miss Marple?).
Não tornei a pensar mais no assunto, enredada que andava com a minha vida, mas no dia seguinte - recordo perfeitamente que era Domingo pois todos se dirigiam para a igreja - íamos praticamente chocando junto à casa de chá onde estavam afixados os horários dos comboios. Desculpei-me como pude, atrapalhada. Tranquilizou-me justificando-se também com alguma pressa, olhando para a torre da igreja e para a pequena medalha que trago ao pescoço, lamentando não existir nas redondezas nenhum local de culto da minha religião.
Despedi-me, balbuciando uma qualquer banalidade, mas nada lhe escapou: olhou em direcção à estação e perguntou: "someone special, my dear?"
Domingo, Janeiro 23
Sábado, Janeiro 22
Coisas do frio (II)
Claro está que muita gente que se queixa do frio anda mal agasalhada.
Não falo dos mais novos, com sangue na guelra, mas mesmo assim, que falta lhes faz um casaco quente que lhes resguarde os traseiros, as barrigas e o pescoço desabrigado! O cachecol, companheiro de invernia, tem agora outra função que não a de agasalhar: fica giro no decote, de comprimento exagerado quanto inútil e de materiais sem a função de aquecer.
Claro que o frio por cá é para "amadores". Como escreveu o Francisco, "Quando eu era miúdo (bom, eu vivia no meio do frio) vestíamos de Inverno, de meia-estação (bem vistas as coisas, a estação «mais elegante») e de Verão. No Inverno, se havia frio, vestíamo-nos para o frio. Hoje, na verdade, algumas pessoas queixam-se do frio mas estão vestidinhas para um Outono morigerado, com brisas tépidas durante a tarde e sopro de Norte depois do crepúsculo".E há ainda as casas: muitas delas de construção manhosa, sem isolamentos nem exigências ambientais. Algumas com jacuzzi e sanitários de luxo, mas sem vidros duplos; cozinhas modernas, mas salas com carros dentro; LCDs de grande porte mas com vento pelas frinchas.
Mais uma acha de lenha e boa noite.
Coisas do frio (I)
Ao contrário de muitos queixosos do frio, gosto do Inverno ou melhor, agrada-me a ideia de conforto junto ao calor. Ao final da tarde, nestes dias tão curtos, com alguma neblina, gosto do cheiro a madeira, de iluminação amável, e do sossego da noite. Algo parecido a umas trincheiras que nos protegem dos outros, do frio e da hostilidade do mundo.
Nem todos os cheiros de final de tarde e neblina são iguais; por vezes são as recordações das lareiras dos meus avós ou de minha casa, mas o mais recorrente é o frio seco das ruas estreitas e empedradas da minha aldeia, feita de casas modestas com chaminés encardidas. Havia sempre o cheiro de madeira a arder para dar algum calor ao desconforto do frio que era muito. Claro está que esta ideia romântica e bucólica, pouco tinha a ver com a realidade da altura: o cheiro a fumo entranhava-se nas roupas e no cabelo e as cinzas eram uma batalha diária.
Mas agrada-me recordar estes cheiros de fim de tarde antes de regressar a casa. Nem sempre são felizes, mas são só meus.
Sexta-feira, Janeiro 21
Visita II
As janelas estão encardidas à direita e a minha silenciosa companheira de viagem dormita de cortinas fechadas. Fico sem poder ver as encostas do Tejo com as árvores arrumadinhas e as casas perdidas no meio do nada que vão desaparecendo com o balouçar do comboio. É má conselheira a falta de vistas, que nos traz de volta a tristeza das ausências e as lágrimas que não se podem conter. Por isso, nunca sei se custa menos chegar ou partir.
As sombras vão descendo sobre o rio enquanto o corredor se desasossega. O céu azul de hoje faz esquecer os últimos dias com muita chuva e frio, como se quisesse retribuir o nosso cuidado e esmero.
Ao meu lado direito já não reconheço ninguém, mas suponho que mesmo sem saberem o meu nome, me tiram às feições lá no fundo das suas memórias. Por vezes sinto olhares desconhecidos ou comentários em voz baixa ou alta, amáveis ou tristes, mas a nenhum deles me habituei :"És tão aprecida, igualzinha, dizem". O cabelo branco que continua a surgir sem piedade, estimula as semelhanças e creio que foi isso mesmo que terá pensado um antigo professor de liceu que subiu comigo o elevador da estação.
Venho da casa de um amiga idosa de voz doce e trato amável, sobrevivente das maleitas do corpo e das tragédias da vida. Mas fala-me com orgulho dos netos e mostra-me a fotografia do menino bisneto, uma criança linda. As romãs e tudo o consegui trazer pesam no braço e mais braços tivesse.
Estou de volta à cidade que não é a minha, mas também não sei de que terra sou. Passa entretanto o cobrador e mostro-lhe o bilhete num inconfessável receio de estar no comboio errado (de onde me virá este receio?). Os restantes passageiros são silenciosos, nada de matracas de estudantes, de sons telemóveis ou conversas em alta voz e pela primeira vez abro o Bolaño, leio a capa e a contracapa. Mas antes, o sumo e os ovos verdes. E vontade de fechar os olhos. As figurinhas da arte da guerra podem esperar.
(Dia de Todos os Santos)
Quinta-feira, Janeiro 20
Não ficar em casa
Amanhã, este blog participa na festa de encerramento do candidato Cavaco Silva, pelo que poderá ser facilmente reconhecido pelo template amarelo. Agrada-me continuar a ser a mesma conservadora .
E votar. Porque posso.
Mulheres-soldado no Afeganistão (que diz isto sobre a nossa civilização?)
No Jansenista, sempre um blog amigo.
Ganância
Abomino a ganância. Não suporto gente que se julga dona do meu tempo e o usa como lhe dá na real gana. Foi também por causa da ganância (dinheiro fácil e rápido) que chegámos onde agora estamos. Greed. Greed.
O médico combina às 17, somos atendidos duas horas depois, fazem marcações em massa para a fisioterapia e ficamos todos a perder, apesar de haver mais gente à minha frente, a cabeleireira diz-me uma hora impossível de cumprir, esforçamo-nos para ser pontuais e, inutilmente, fazem-nos esperar. Usam o nosso tempo sem inteligência nem pudor, faltam à verdade, pura e simplesmente não cumprem, sabendo de antemão que não é para cumprir.
Pergunto-me muitas vezes se não é possível ser de outra forma: 17 horas são 17 horas; não são 17.30. Nem 18h. E a gente espera e quantas vezes desespera. A maior parte das vezes é necessário que espere porque a doença não se adia. Mas muitas vezes, em situações de pouca urgência, não volto. Não volto nunca mais. Bem sei que o dinheiro faz falta, mas a verdade também.
Não entro em sítios onde a saída de cheiros não funciona, não volto onde o café chega frio, onde o valor pago não se justifica, onde não se cumprem datas, nem onde a empregada se incomoda a atender, porque custa tanto fazer bem como fazer mal. Possivelmente em locais de luxo tudo é diferente: um cliente é o cliente e ponto. Por isso julgo existirem "personal trainers", "shoppers", "private banks", etc. mas são coisas a que só alguns podem chegar e a muitos faz suspirar.
Posto isto, desabafo inconsequente, e porque me esforço para chegar a horas e aviso quando me atraso, é por vezes uma carga de nervos. Conheço gente que nem sai para não se maçar, mas viver tem riscos que devem ser vividos. Creio mesmo que misturo ganância com falta de cuidado, dinheiro rápido com falta de brio, comparo a desatenção à incúria, e o blog é que paga. Só não gosto que me façam de tola.
Quarta-feira, Janeiro 19
"On a besoin de frivolité"
Uma linda mulher (agora com 54 anos) que andou pelas passarelas como poucas. Para desanuviar das "celebridades" de chinela:
Inès de la Fressange eleita "Parisienne de l'année en 2009"
Visita
Como de costume, foi Miss Lemon quem abriu a porta com o seu habitual aspecto arrumado e tão irrepreensível como as cartas que dactilografava. O gentil capitão Hastings lia o jornal a um canto e o famoso detective belga tratava da correspondência do dia; rotinas a que me habituara a observar desde que passei a ocupar o apartamento em Whitehaven Mansions, no piso inferior ao de Poirot.
Recordo com gosto a primeira vez que amavelmente me convidaram a entrar, num momento de atrapalhação com as canalizações devido à ausência do porteiro. Depois de reparada a situação, com o aquecimento central no seu melhor, agradeci-lhes a disponibilidade e mais uma vez fui recebida com grande delicadeza: afinal eramos dois estrangeiros numa cidade que não nos pertencia e à qual nos tentavamos adaptar.
Trocámos entre nós comentários pouco lisonjeiros sobre a comida inglesa e não conseguimos evitar o riso perante a sua proverbial ironia:
Trocámos entre nós comentários pouco lisonjeiros sobre a comida inglesa e não conseguimos evitar o riso perante a sua proverbial ironia:
"The English do not have a cuisine. They have food. Overcooked meat, boiled vegetables, inedible cheese. And the day they invent English wine, I am retreating to the Continent."
A boa disposição, a deliciosa tisane que bebemos e a conversa quase me faziam esquecer a dor que constantemente sentia no braço direito. Foram demasiados esforços, um móvel mal colocado, pesos mal calculados e o resultado estava à vista, ou melhor, persistia bem escondida sob o casaco de malha.
Quando me estendeu uma bandeja com biscoitos, suponho que tenha reparado em qualquer sinal de dor da minha parte, se bem que nunca tenha verbalizado qualquer queixume. Nada lhe escapava:
- Une tendinite Mademoiselle?
















