Domingo, Fevereiro 28

Um pouco de apocalise

Duas boas surpresas: o filme "Estado de Guerra" (que devia limpar o Óscar do melhor filme sem qualquer hesitação) e os chocolatinhos Fantasie da Nestlé, cujos despojos encarnados jazem no cinzeiro.
Em Estado de Guerra, entramos no fato de protecção dos militares, ouvimos-lhes a respiração ofegante, sentimos a tensão no gatilho e, com a câmara errática, vemos o suor do medo na paisagem a sépia e destroçada do Iraque. Somos como um dos membros da equipa anti-minas, sentimos-lhes os nervos e o pó do deserto na mira da metrelhadora; a lente leva-nos às varandas, aos telhados e aos topos dos minaretes à procura de um sniper ou de um movimento suspeito que deite tudo pelos ares, mesmos as crianças que brincam nas escadas. Procuramos com os dedos os fios certos da mina, tacteamos o chão por mais cabos e mais armadilhas (good job), enquanto o gato vadio passa ao nosso lado coxeando com uma perna só. Contamos-lhes os dias para o regresso a casa e vemos as caixas dos que ali ficaram, atraiçoados pelo engenho de outros homens. O miúdo espertalhão dos dvds piratas ganha a vida como pode, três pelo preço de um, no único traço humano que ultrapassa o dever de zelo do trabalho em equipa. Um grande filme.
Imshee! Imshee! Apetece-me dizer aos groupies idiotas indiferentes ao filme, escolhido porventura por sugestão do título: estado de guerra igual a porrada, bombas, tiros, sangue e corpos esfacelados. Alheios à tensão que se passa no écran, mastigam pipocas como se não houvesse amanhãs enquanto o soldado avança para o homem-bomba, sorvem ruidosamente as bebidas quando um taxista confronta os soldados e consultam os telemóveis perante a imagem única do corpo armadilhado de uma criança morta. Os que não chafurdam nas pipocas estão na marmelada, no quente e no escuro, duas cabeças coladas, por vezes uma só, idiotas, nâo vêem sequer os escassos minutos em que surge o Ralph Fiennes bronzeado e de barba, no papel de mercenário britânico que não sobrevive a uma emboscada. Lá pelo meio, tiveram o seu momento Rambo, hélas breve: satisfeitos com a cena do estafado gesto do dedo de fora exibido pelo temerário Sgt. James, exultam de alegria e soltam gargalhadas. Ganharam a tarde. Imshee! Imshee! 26 days left in Bravo Company's rotation

Some of my favourite things (1)

O que a Isabela Figueiredo escreve no Mundo Perfeito.
*
Um homem na cidade com relatos dos seus trajectos.
*
A vida de um deputado na Suécia e os seus terríveis escândalos .
*
*
Conhecer quem tem uma maravilhosa Vida Breve.
*
Um momento perfeito sobre as luzes de uma cidade.

Sábado, Fevereiro 27

Étude Op. 25, No. 11 -'Winter Wind' - by Frédéric Chopin

Sviatoslav Richter
Imagem para o dia de hoje

Depois das luzes, a lama

Depois deste post em 19 do corrente sobre este assunto, vem agora a sequela:
Relvado da Torre de Belém continua sem data para reposição Por Carlos Filipe-PUBLICO
"Foi ainda no final de Novembro de 2009 que o Governo português acolheu, numa grande tenda instalada no relvado dos jardins fronteiros à Torre de Belém, em Lisboa, os chefes de Estado e de governo para a realização do acto inaugural da cimeira ibero-americana. Três meses depois, aqueles mesmos terrenos continuam em muito mau estado após a retirada da estrutura de acolhimento, e continua a não haver data para a reposição do relvado, o que valeu reparos ao executivo camarário na última reunião municipal.
(...) A crítica [do Veredor do CDS] não comoveu o vereador responsável pelos Espaços Verdes, que não revelou uma data para a reposição do relvado: "Não é assim que se fazem as coisas, pois os terrenos têm que ser preparados, e há que ter boas condições para os trabalhos. Estamos atentos e a intervenção será o mais expedita possível. É que nestas coisas não há milagres."

Sexta-feira, Fevereiro 26

Magnetic Fields - Death of Ferdinand de Saussure (Cover)

Tanta energia também cansa

Pelos canais de cabo também vagueiam duas outras estimulantes actividades, o snooker e poker. Entre um e outro destes jogos, os olhos vão-se fechando: tanta energia e vitalidade não se aguentam.

Gelo on the rock

O prémio zapping desta semana vai inteirinho para os jogos (diz-se assim?) de curling inseridos nos Jogos Olímpicos de Inverno.
Não faço a menor ideia de como se joga ou como se pontua no curling. À minha frente vejo uma espécie de vassoura/escova com que os jogadores vão varrendo a superfície gelada levando pela frente uma espécie de pedra feita de granito. Penso que funciona com fricção da base e que pode ser jogado por homens ou mulheres, gordos e magros, novos e velhos, com ou sem óculos, mas que deve exigir um físico ágil e conhecimentos de Física.
Parece-me que varrer a cozinha e o jardim deve ser mais fácil, mas tão chato como ver campeonatos de curling, duas actividades amadoras que exigem treinos diários.

Quinta-feira, Fevereiro 25

SLUT RED RASPBERRIES IN CHARDONNAY

"You might think that no recipe could live up to this title. It's a reasonable presumption, but thank God, a wrong one. This is heaven on the plate: the wine-soused raspberries take on a stained glass, lucent red, their very raspberriness enhanced; the soft, translucently pale coral just-set jelly in which they sit has a heady, floral fragrance that could make a grateful eater weep. If there's one pudding you make from this book, please, please make it this. This recipe was emailed to me from Australia from my erstwhile editor, Eugenie Boyd. I've fiddled with it a bit, but it is the best present a foodwriter could ever have. Now it's yours. Serves 6 Ingredients 1 bottle good fruity Chardonnay 300g raspberries 1 vanilla pod, split lengthways 5 gelatine leaves 250g caster sugar double cream to serve
Method: How to cook slut-red raspberries in Chardonnay jelly 1.Place the wine and berries in a bowl and allow to steep for half an hour. 2.Strain the wine into a saucepan and keep the raspberries to one side. Heat the wine with vanilla pod until nearly boiling and leave to steep on one side for 15 minutes. 3.Soak the gelatine leaves - which you can find in the supermarket these days - in cold water for about 5 minutes. Meanwhile, after removing the vanilla pod, reheat the wine and stir in the sugar until it dissolves; allow to boil if you want to lose the alcohol. 4.Add a third of the hot wine to the wrung-out gelatine leaves in a measuring jug and stir to dissolve, then add this mixture back into the rest of the wine and stir well. Strain into a large jug. 5.Place the raspberries, equally, into 6 flattish, clear glass serving bowls, and pour the strained wine over the top. 6.Allow to set in the fridge for at least 3 hours, though a day would be fine if you want to make this well ahead, and take out of the fridge 15 minutes before serving. 7.Serve some double cream in a jug, and let people pour this into the fragrant, tender, fruit-jewelled jelly as they eat. " daqui
Nigella website aqui

Quarta-feira, Fevereiro 24

Um gosto de culinária (cont.)

Como ia dizendo, um dos problemas desses programas de culinária através da televisão, é a dificuldade em tomar notas decentes sobre as receitas, ou seja, os ingredientes, tempos e fases da preparação. Aquilo que vemos sempre, é o produto final com grande aparato, impecável e acompanhado à guitarra com elogios à cor (como um pôr do sol), ao sabor (voluptoso) e ao cheiro (inebriante). Em bom rigor, nem sequer se vêem as cozinhas sujas nem a louça empastelada, e as próprias apresentadoras surgem com grande esmero, de roupa asseada sem mácula nem avental. Só quem não cozinha é que não repara no aprumo do décor.
Chegam ali e zás, cortam a cebola num ápice, zás, tricham a carne na perfeição e arranjam os legumes com super poderes. Aliás, eu estava convencida de que percebia alguma coisa de inglês até ter lido um livro de culinária nessa língua: para além dos ingredientes, temos ainda que recorrer ao conversor de medidas e traduzir a terminologia dos pontos de cozedura. Assim sendo, o livro de receitas tem que vir acoplado a um dicionário, o que é uma grande maçada.
Mas se recorrermos a uma tradução para português, nem sempre o resultado é o mais satisfatório, como no caso do livro "Na cozinha com Nigella”, comentada por Lourenço Viegas:

"(“não é preciso amassar nem provar” (to prove é levedar, crescer); “aspecto de aveia consistente” (em vez de papas de aveia) “lista de coisas que tinha para fazer ainda por conferir” (to check é pôr um vêzinho, não é, neste caso, conferir); torrada francesa em vez de rabanada - p. 163, na p. 168 já está bem). São receitas rápidas. Mas o conceito é em parte um engodo (pés de cordeiro, temperados num dia, cozinhados noutro e comidos noutro recorre a uma noção de tempo curto relativa). Como em qualquer livro traduzido, há o choque cultural: “encomendar vieiras ao meu peixeiro”, “natas gordas”, “soro de leite”, “sal Maldon” “molho hoisin”, “cogumelos do choupo”. O apuro técnico das receitas varia (por exemplo, no frango com bacon e brandy não se refere sal – o do bacon não chega e o meu brandy não tem sal); "

Mas a Nigella já é todo um programa que, aliás, se vê com gosto.

"Butch Cassidy and the Sundance Kid" starring Paul Newman and Robert Redford.

Um gosto de culinária

Após a morte de minha mãe, vi-me a braços com uma das tarefas mais penosas que uma filha nem nos seus piores pesadelos consegue imaginar. São mil e uma gavetas, armários, caixas, arcas por abrir, uma loucura de lágrimas tão violenta que julgamos não ser possível voltar a chorar.
Quem a conheceu, deve porventura imaginar o que nos deixou, mas até eu fiquei estupefacta com a quantidade de livros e revistas de culinária que encontrei. Para além dos óbvios (como o Pantagruel, edição dos anos 60), os meus favoritos são os cadernos escritos à mão, com muito cuidado, já com algumas folhas sujas de margarina, mas muito estimados. A minha mãe era mesmo assim, cuidadosa, com a letra uniforme, lindíssima, sem erros nem deslizes. São dezenas de receitas com referências a nomes de pessoas que ignoro quem possam ser ou ter sido. Tenho um frango da Maria Amélia (escola)*, uma tarte da Cristina, um bolo da Aninhas, um bacalhau da Gracinha, uns biscoitos da Maria (irmã da Isabel de M.) e tantas outras receitas cuja origem desconheço e que nunca me ocorreu perguntar (as mães não é suposto morrerem, pois não?). Não deixa de ser uma sensação curiosa, como se aqueles nomes se imortalizassem em mesas desconhecidas depois de lhes termos tentado copiar a mão certa de açucar ou o molho no ponto.
Isto a propósito dos programas de culinária que passam na televisão, vindos da América ou de Inglaterra, e em que aquelas alminhas (louras ou morenas) de mãos prodigiosas, nos fazem crer que é tudo fácil. Não é, claro está; aliás, aquilo é um monte de problemas, a começar nos garatujos-notas que fazemos nos primeiros papéis que temos à mão e que raramente conseguimos decifrar, quando escapam ao seu habitat natural que deveria ser o lixo.
(Continua)
*(1) Serve-se com arroz branco, (2) ou com mais ameixas passadas pela margarina ou ainda (3) rodelas de ananáz ". Obrigada Francisca (tia da Manuela), quem quer que tenha sido .

Terça-feira, Fevereiro 23

Afinal, o meu blog deu mesmo um programa de rádio. A Ana Margarida da Rádio Comercial foi muito simpática (também generosa) e eu gostei do resultado. Ouvir as minhas palavras com vozes, teve muita graça. Obrigada. (Programa aqui)

E eu que nunca fui ao Brasil...

(...)
Acredite, pior que estar na frente de um piroso por fora, só ficar perto de um piroso mental. Pessoinhas que ligam muito à roupa e precisam vestir marcas para se sentir seguras. Pessoinhas que não respondem emails. Pessoinhas que têm vergonha da mãe, do pai e dos avós. Pessoinhas que nunca falam no passado, com medo de serem descobertas. Name Droppers. Pessoinhas que querem ser o que não são. Pessoinhas invejosas. Pessoinhas que não gostam de ouvir a sua história, ou que gostariam mais de ouvir a sua história se você se chamasse Pardadela de Abreu. Pessoinhas que não lêem, ou só lêem “coisas complicadotas como Walser”. Pessoinhas que gostaram da nouvelle cuisine e hoje são loucas por cozinha molecular, aquelas merdas em copinhos que nunca se sabe se é para comer à colher ou beber, mas não sabem o que é um arrozinho de tomate. Pessoinhas que moralizam muito. Pessoinhas muito politicamente correctas. Pessoinhas que andam na moda. E pessoinhas que acham que fazem tudo certo, raramente têm dúvidas e nunca se enganam. Pessoinhas que acham que vão apodrecer melhor que os outros: a cheirar a Chanel 5 ou a um perfume qualquer que compraram no Duty Free. Aliás o nome de todos os pirosos deveria ser Dutifri.

Segunda-feira, Fevereiro 22

Maurizio Pollini plays Chopin Nocturne no. 8 op. 27 no. 2 Pode ser que volte em breve a Lisboa. Chopin, no dia do seu 200º aniversário, ainda guarda muitos mistérios (Washington Post)

Exposições

Exposição "Portugal nas trincheiras – a I Guerra da República" no Museu da Presidência.
“RESISTÊNCIA. Da alternativa Republicana à luta contra a Ditadura (1891-1974)”
A decorrer no Centro Português de Fotografia (Fotografia daqui)

Sábado, Fevereiro 20

Onde fui muito feliz

As imagens são mais fortes do que as (minhas) banalidades e a dimensão da tragédia não se verbaliza com decência aqui do meu sofá. É tudo muito pequeno perante a desvastação da morte e da natureza. Estes são tempos "to weep and to mourn".
“A Madeira tem plantações de romance, como de bananais e vinha jacquet. A Madeira é um rosal sem rosas de destaque especial, que o relevo vai para as hortênsias. Mas é um rosal pela fragância própria, que até a casca da caneleira perfuma o ar. Toda a espécie de ramos verdes são cheiros em que a rosa se intromete. (…) O jardim, que já nesse tempo a Madeira representava, com os seus bosquetes de cana vieira, com as magnólias gigantes, com as estufas de begónias e de avencas, com as matas de cedros e de louros, parecia-lhe mais do que um ceptro.”*
“Do Funchal trouxe, também, como qualquer viajante que se preze, um ramo de estrelícias, que de chapéus de palha, trazem os turistas e quanto aos barretinhos castanhos dos trajes típicos, a esses, não há judeu que resista. Do Funchal trouxe um ramo de Strelitzia reginae, as flores preferidas de Man Ray.” **
* “Agustina Bessa-Luís – “A corte do Norte”, Lisboa, Ed. Guimarães, 1996 ** “João Miguel Fernandes Jorge - Marca, Festival de Arte Contemporânea, Funchal, 3-9 Setembro 1987”, in “As escadas não têm degraus”, Ed. Livros Cotovia, Janeiro de 1989, pag. 147.

Sexta-feira, Fevereiro 19

Pelos corredores, entre estantes

É sempre bom (e saudável) rever o Jansenista: os Sopranos, Proust e une madeleine, isto anda tudo ligado.
Como uma madalena proustiana: Un Petit Coquelicot (por Mouloudji)

The Sopranos, Season 2, Episode 10

Tony: “All this from a slice of gabagool?” Dr. Melfi: “Kind of like Proust’s madeleines.” Tony: “What? Who?” Dr. Melfi: “Marcel Proust. Wrote a seven-volume classic, Remembrance of Things Past. He took a bite of madeleine — a kind of tea cookie he used to have when he was a child — and that one bite unleashed a tide of memories of his childhood and, ultimately, his entire life.” The Way the Cookie Crumbles How much did Proust know about madeleines?

Depois das luzes, a lama

Uma situação que nos deveria encher de vergonha. É inadmissível esta falta de respeito pela cidade: antes do foguetório e do folclore para televisões e inglês ver, aquilo fica um mimo. Festa acabada, é o que se vê. Aliás, é só para ser visto.
Torre de Belém (Notícia Público) O jardim foi-se há dois meses, agora há lixo e lamaçal Não deixou boa memória a passagem da Cimeira Ibero-Americana pelo jardim em frente àquele que é um dos ex-líbris do património cultural português: a Torre de Belém, em Lisboa. Ou, melhor dizendo, por aquilo que até à cerimónia de abertura da cimeira era um jardim, mas depois disso acabou transformado em depósito de lixo, monte de areia e lamaçal. Conta quem por lá passou logo após a presença dos chefes de Estado e de Governo, em Dezembro de 2009, que a zona "foi deixada completamente ao abandono, coberta de detritos". Hoje o cenário é um pouco melhor, porque a Câmara de Lisboa já iniciou a limpeza do terreno, mas este continua a ser um péssimo cartão de visita. A recuperação do espaço ainda vai demorar. Lá para a Primavera poderá voltar a ser utilizado pelos turistas e pelas muitas famílias que por ali passeiam. I.B.

Quinta-feira, Fevereiro 18

Da minha janela

Sitting on the Dock of the Bay...

Dedicado à minha amiga L., com carinho. Ainda iremos estar, muitas vezes, as duas a olhar a baía e a contar histórias, as nossas coisas.

Quarta-feira, Fevereiro 17

Por estas colinas

Amigos do Lisboa SOS, Uff.... Afinal a providência cautelar interposta a esse blog não passou de uma brincadeira de Carnaval. Foi só fumaça, um chafariz sujo, um jardim desmazelado ou uma estátua rachada. Que alívio!
Retrato de Carolina Amália e Josefina Adelaide Brandi Guido junto ao Mosteiro dos Jerónimos. Joshua Benoliel, finais do séc. XIX (Arquivo Municipal de Lisboa / Arquivo Fotográfico)
No fantástico blog Dias que voam: "Sempre tinha ouvido falar destas manas, mas nunca lhes tinha visto a cara"
Nem eu. Sejam bem vindas ao meu blog, as Manas Perliquitetes

Domingo, Fevereiro 14

De novo, repete-se o cortejo de pequenas criaturas sorridentes: uma rua cheia de bruxinhas, polvos, joaninhas, noddy, piratas, monstrinhos, princesas, abelhas, palhacinhos, dráculas, pequenas sereias, brancas de neve, cruellas, todo os tipo de bicharada ou disfarce de coisa nenhuma.
Gostei particularmente da menina de panqueca, ou seria de donuts? Disfarce que apelava à imaginação e que por certo enchia de orgulho os papás criativos. Mas a criança, pobrezinha, o que não daria para ir como as amiguinhas, de perucas loiras e cinderelas dos trezentos? Por este blog, para o Carnaval, nem confetis, nem serpentinas, sambas, lantejoulas ou corpos a reluzir. O único brilho, só mesmo este "Stardust": Stardust - Nat "King" Cole <>

Sábado, Fevereiro 13

O meu blog vai dar um programa de rádio

Pois é isso mesmo: o meu blog vai dar um programa de rádio. Vai ser hoje ás 22h e repete amanhã às 09h. Na Rádio Comercial. A produção escolhe os posts e a música. Eu dou o blog. Ainda não ouvi, mas espero que gostem.

Pior é sempre possível

Diziam-me há pouco:" Escreves sobre coisas que não lembram ao Diabo, e algumas bem aparvalhadas". Confesso que considerei isto um elogio, mas ainda não viste tudo. Ora lê:
Uma torrada queimada é uma torrada perdida. Podem barrá-la com doce de gengibre, pôr uma generosa camada de compota de abóbora com noz, retirar-lhe o esturricado, aparar-lhe as pontas ou mesmo optar pela dose dupla de manteiga e marmelada. É escusado. Ficará sempre com um inconfundível e desagradável sabor a queimado. Talvez se encontre uma solução, mas nunca a vi à venda em Portugal: na Holanda provei uma manteiga tão, mas tão deliciosa, que me despertou uma tão fantástica e duradoura sensação de leveza (como dizem nos anúncios), que fiquei na dúvida se não levaria uma boa mão de cheia de cogumelos mágicos.
Portanto, caro amigo, bem sei que não és pessoa para deitar pão ao lixo, mas compra uma torradeira melhorzinha. Até lá, oferece arrufadas com fiambre, que sai sempre bem.
Nota: Já agora, esse russo que tens no pickup, o Balakirev, desliga isso. Não dá saúde a ninguém.
Dia de abertura da Ilustrarte 2009

O "estojo"

Há que tempos não ouvia a expressão "esse estojo". Tinha a sua graça, esse atributo, uma espécie de gíria já algo datada, que significava "parvo" ou "tolo", verbalizado por quem teria alguma dificuldade em expressar em público um desagrado, fosse dirigido a homem ou mulher. "Esse grande estojo", pronunciava-se com enfado ou agastamento pelo comportamento de alguém que nos provocava irritação. Curiosamente, era uma expressão algo insultuosa mas que não deixava de ser educada. Hoje em dia, a gíria e o calão têm já fronteiras bastante ténues para muita gente, mas há muitos anos atrás, seria de certa forma indecoroso ir mais além do que "esse estojo". Na verdade, a expressão aplicava-se a inúmeros casos: alguém que se insinuava demasiado, hipocrisias dissimuladas, falta de humildade, ostentação, excesso de zelo, desprezo pelos outros, vaidade, soberba, entre outros mimos. Vendo as coisas a esta distância parece-me, contudo, que seria a expressão, dentro do reino dos quase-insultos, a que mais se adaptava a má língua de pastelaria, encontro de mercado ou conversa de rua. Era uma expressão mázinha, mas não excessivamente. Seria até bem aceite socialmente, como se diria hoje em dia, mas é preferível não a usar: ficariam a olhar para si. Tenho a certeza de que tem escolhas muito mais coloridas.
(Texto editado, com uma dedicatória especial)

A obra de um grande amiga

IV Bienal Internacional de Ilustração para a Infância Homenagem à obra da escritora Luísa Ducla Soares no momento em que esta publica o seu centésimo livro.
O 1º livro
O útimo livro (nº 100)

Sexta-feira, Fevereiro 12

1909

Corria o ano de 1909, no advento da Implantação da República. Em Fevereiro desse ano, Raul Proença escrevia assim sobre o Carnaval:
O Carnaval! Lembramo-nos dele!(...) Quando éramos pequenos, aqui há quinze ou dezasseis anos, como ele nos parecia divertido, sanguíneo, esplendoroso! Agora ouvia-se uma graça que nos irritava, logo era um dito picante que nos fazia cócegas, mais logo uma alusão de espírito, esfusiante e luminosa: enfim, com narizes de Cirano e espadalhões de D. Quixote, com batinas de tartufos ou com a barriga de Sancho Pança, era uma coisa com espírito, com alma, com vida - que raio!-que merecia o apoio de um sorriso e o aplauso de um gargalhada!
Em comparação com o do outro tempo, como é triste e enjoativo o Carnaval de agora!
Nem já sabemos rir.
Isto, hoje, é a Alegria com clorose e albuminúria, é o humorismo com pedra nos rins, é o Riso sofrendo de anemia e a exigir pílulas Pink e confortativos ferruginosos!
O nosso humor está a pedir casa de saúde e a nossa verve exige banhos do mar e sanatórios da montanha!
Ainda se vêem, sim, pierrots e chéchés, mas tudo se move aí pelas ruas como por um dever de ofício, uma mascarada é um serviço que se tem a fazer e já se vai a um baile com o mesmo enjoo e o mesmo fastio com que se vai para a repartição.
Neste momento passam máscaras, lá em baixo, mas tristes, graves, sorumbáticas, com a correcção de directores-gerais e o aplomb de conselheiros de Estado, marchando a passo lento, como Cristo para o Calvário (...)
E lá passa agora um homem de chifre, e de rabo muito comprido...Ih! pai do céu (...) Escolheu este dia de Entrudo para manifestar as virtudes domésticas e os altos feitos familiares(...).
Mais adiante, vai um escritor que se mascarou de mulher, e que só assim é verdadeiro, e mais além vemos um político que se veste de palhaço nestes três dias para fazer supor que o é menos nos outros dias do ano!(...) São tristes as máscaras! Dá vontade de lhes esmurrar as ventas, os estafermos!(...) Divertimo-nos mais nos outros 363 dias, vendo essas máscaras que para aí se movem, em diferentes travestis, mas todas visando ao mesmo fim: viver, vencer, à custa da vida e da felicidade dos outros.
Há o político que agita a sua apalavra de honra como um pierrot agita os seus guizos de Carnaval.
Há o ditador que se mascara de liberal, e o tirano que põe um travesti de democrata.
Há o espírito criativo que despeja uma bolsa numa manifestação exterior e que é incapaz de acudir à família necessitada que lhe mora ao pé da porta.
Há o homem generoso, grande patriota e grande católico, que nos fala constatemente em religião, deixando morrer à fome a pobre mãe velhinha.
Tudo isso é um Carnaval burlesco, infinitamente mais alegre e infinitamente mais proveitoso que esse carnaval que para aí se ostenta... (...) E ao ver os gestos graves, medidos, calmos ou a indignação colérica e sombria dos políticos de ofício, ao vê-los no resto do ano levantar os braços, agitar os membros pedindo justiça, falando em liberdade, clamando por vingança, é então que nos faz vontade de dizer, como vós, os amigos do Carnaval: - Bem te conheço, ó máscara, bem te conheço!
Raul Proença [A Vanguarda. Lisboa. (22 Fev. 1909), p.1]
in: O ano de 1909/[org.] Biblioteca Nacional de Portugal. - Lisboa: BNP, 2009

Mulheres no telhado

O Italiano (free lancer) Pietro Masturzo é o vencedor do World Press Photo 2009 "A foto vencedora mostra mulheres em protesto no cimo de uma casa em Teerão, e foi tirada a 24 de Junho. Faz parte de um trabalho do fotógrafo intitulado "Telhados de Teerão". Trata-se de uma das fotografias tiradas durante os protestos que se seguiram à reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, a 12 de Junho de 2009. Depois de marchas de contestação durante o dia, à noite os populares gritavam palavras de ordem das varandas e topos dos edifícios, em particular na capital, Teerão. "
Grieg - Holberg Suite, Op. 40 - Part 3/5

Quinta-feira, Fevereiro 11

E no Público :"Lembro-me que ele saiu da prisão com um sorriso"

Maré alta!

"Maré Alta" -Sérgio Godinho.

Quarta-feira, Fevereiro 10

Manobras

"Somos doces, mas não somos delicados. Trata-se mesmo de um traço civilizacional do povo português", afirmou há uns tempos o filósofo José Gil na televisão. De facto, não somos nada delicados; pelo contrário, tratamo-nos todos muito mal e desrespeitamos o espaço público que partilhamos. Uma das formas mais rasteiras e incivilizadas a que assisto quase diariamente, é a chamada golpada, ou seja, quando o idiota se aproxima pela direita, pela esquerda ou pela rectaguarda, sempre que seja possível o golpe para passar os outros ou chegar-se mais à frente nas saídas resguardadas por traços contínuos duplos. Barricado na viatura, deve rir-se das manobras que julga inteligentes, de alto gabarito, do fantástico desempenho que o há-de levar mais longe, mais rápido, mais cedo que os outros, os tolos alinhados à espera de vez. Tipos a quem chamam "assertivos", penso eu.
Também os vejo muito nas laterais de emergência, certos de que vale a pena arricar, não há lei nem ordem, nem ambulância à vista que os impeça de mais uma esperteza ardilosa, da golpada bem sucedida. A sorte protege os temerários, enquanto avança corajoso, sozinho ou mesmo acompanhado pelo kit da felicidade, deixando para trás os tipos que não arriscam, logo não petiscam. Devem ser os mesmos anjinhos que ele vê sair dos parques de estacionamento a preços milionários, gente pouco preparada para galgar a calçada portuguesa ou objectores de consciência da 2ª fila, cobardolas, havia de ser com ele, um profissional da escalada nos passeios públicos à borla. Podemos constatar o que se passa nas filas lentas e chatas, quando alguém tem a ousadia do primeiro golpe, da fuga para a frente ou pelos lados, é vê-los sair, um ou dois a medo, logo seguidos de muitos, que não querem ficar para trás, não hão-de querer ser toscos, os panhonhas que se deixem ficar, quem não arrisca não petisca, tempo é dinheiro, não são menos que os outros, candeia que vai à frente é que alumia. São assim as viagens pelas vias urbanas, ninguém mas contou: vejo-os todos os dias de manhã ou ao final da tarde, os tipos muito mais espertos que eu, os gajos ou as gajas das golpadas. Os que se safam melhor, mais cedo, mais rápido, limpinho. Também se podem ver nas filas únicas só com uma caixa aberta. Assim que outra entra ao serviço, saltam todos dos últimos lugares para a frente do pelotão, indiferentes a quem chegou mais cedo. Mexam as pernas, os parolos. E que dizer dos incautos que, por desconhecimento ou falta de informação, não tiram de imediato as senhas de atendimento? Nada a fazer, tarde demais: tornam-se invisíveis aos olhos de quem chega depois, que ninguém tem culpa que não puxassem logo do papelinho com número. A lei é a lei e a ordem é muito bonita, basta olhar fixamente para os dígitos no écran. Se virem uma madura condenada a esperar por vez ou a ficar para trás na filas de trânsito, da farmácia ou das bomba de gasolina, posso ser eu. Video: The Sting (A golpada)
Gente - Duarte Mendes (1973)

Mirones

Podem ver-se nas estrada a abrandar assim que avistam chapa batida ou, praticamente parados, na expectativa de vislumbrarem algum pé decepado e poças de sangue ainda frescas, indiferentes ao esbracejar da policia ou à acumulação de tráfego. Deve ser uma visão muito apetitosa, possivelmente acompanhada por interjeições de terror (credo), de dor (ai), de alívio (ufa!), de espanto (caramba!) e alguns, por arrastamento, lá vão soltando palavrões de impaciência.
Também podem ser avistados junto a penhascos onde ocorreram derrocadas de pedras, de preferência após a morte de um ou mais desgraçados, à beira-mar depois de afogamentos, junto a carros de bombeiros por altura de algum incêndio, ou onde quer que ocorram tragédias ou dramas. Em ambientes fechados, o seu habitat natural é junto aos televisores (alguns com écrans muito fixes), onde se pode ver, com os olhinhos que a terra há-de tragar, imagens de desvastação e morte entre o peixe e a fruta. Uma tragédia é sempre notícia, seja a que hora for.
Um atentado também não é assunto para desprezar: escorre muito sangue, vê-se roupa rasgada e uma ou outra fractura exposta muito jeitosa. Mas a banalidade do mal, exactamente por ser tão habitual (Israel, Palestina, Irão, Iraque, Afeganistão), gera cada vez menos audiências e já se consegue comer a sopa em sossego.
No grau zero da curiosidade (em itálico, claro), no patamar da morbidez, estão os ranhosos escondidos nas dunas, mas esses têm outro nome, até porque não querem ser vistos. São uma espécie de mirones "under cover", com ou sem binóculos, em arriscadas missões de voyeurismo em busca de sensações fortes sem tragédias, taradice, grandes escaldões e doença certa.
E podia continuar, que o assunto é imenso ("dunas"?) e o post já vai longo. Amanhã haverá mais dramas e tragédias a cores, para todos, mas que só a alguns tiram o sono.

Terça-feira, Fevereiro 9

À espera da maré alta

(Praia dos Salgados)

José Mário Branco- Mudam-se os Tempos...

Segunda-feira, Fevereiro 8

O meu blog vai dar um programa de rádio.

Oui. O meu blog vai dar um programa de rádio. Já este fim de semana. Sábado às 22h e repete Domingo às 09h. Na Rádio Comercial. A produção escolhe os posts e a música. Eu dou o blog.
(Fotografia enviada pele TeB.)

Hello, I Must Be Going-Groucho Marx

(Da banda sonora do filme "Whatever Works")

Domingo, Fevereiro 7

1907

Ultimamente tenho escrito uns posts em forma de qualquer coisa sobre mulheres imaginárias em situações imaginadas, mas que poderiam ser personagens de situações verosímeis. São mulheres e não mulherio, expressão abominável de sentido algo pejorativo e para a qual não existe correspondência no masculino. Não digo que se trata de um termo sexista, se bem que já o tenha ouvido em situações que pouco nos dignificam (nós mulheres). Aliás, não tenho a menor dúvida de que a sociedade (ainda) tem vestígios - que deveriam ser já arqueológicos - de um comportamento preconceituoso para com as mulheres em geral, tratando de as catalogar ou subestimar na sua vida profissional (seja ela qual for), assim como nas suas vidas pessoais, ou seja, pelo estatuto, idade ou imagem. E em bom rigor, onde andará a solidariedade feminina, quando precisamos dela? Nos tempos modernos legislou-se a discriminação positiva, e o que deveria ser rejeitado com indignação, é alegremente aceite, saltando de saltos altos no trampolim para o poder em função do sexo. Não em meu nome. Bem sei que esta praia também é minha, mas não é isto que me traz a este post.

Corria o ano de 1907, limiar da Implantação da República. Em Fevereiro desse ano, foi aprovada a lei que reconhecia a liberdade de associação sem autorização prévia, realizava-se em Lisboa um grande comício a favor da liberdade de Imprensa e, no dia 26, o presidente da Associação de Agricultura renunciava ao seu mandato de deputado, em forma de protesto pelo modo como o governo procedeu na questão vinícola. Os movimentos feministas faziam-se sentir em Inglaterra, França, Itália e nos EUA.

Por cá, Virginia Quaresma escrevia assim no jornal "O Mundo": "Não; não julguem, não devem crer que possamos incitar a mulher portuguesa a reclamar o direito do voto, a investir-se na autoridade de magistrado, a cair no erro desastroso de proclamar o amor livre e de tudo querer ser nos domínios políticos e morais da nossa sociedade. (...) É perante uma vergonha estatística (2 406 245 mulheres analfabetas) destas que é necessário julgarmos com serenidade e critério imparcial o que pode e deve ser o feminismo em Portugal.

Completamente analfabetas, sem uma educação moral capaz, sem o espírito fortificado para os embates sociais o que se pode dizer no jornal ou na tribuna a mulheres assim? Para serem exigidos direitos é necessário primeiramente que sejam exigidos deveres. Os grandes ideais politicos não se proclamam quando as nacionalidades ainda estão embrionárias e o espírito dos povos adormecido. (...) O anarquismo em teoria, a moral científica tudo isto nos faz praticar o Bem, enaltecer a Verdade, adorar a Justiça, independentemente de leis, de peias ou de convencionalismos é, na realidade, um Ideal sublime que nos conduziria à perfeição, mas poderá ser compreendido por todos (.... ) Ideias excessivamente avançadas em meios acanhados, dão resultados contraproducentes e se bem auscultarem os acontecimentos históricos com critério são e imparcial, hão-de convencer-se desta grande verdade, (...) Schoppenhauer, Montaigne, Voltaire e tantos outros filósfosos com individualidades bem demarcadas na História do Livre Pensamento, frisaram em vários pontos das suas obras este princípio como devendo servir de lição a toda a humanidade.

É necessário que as feministas portuguesas tracem um programa criterioso de acção prática. Ponham-se de parte exaltações ridículas, ideias prematuras, combates tão violentos como inúteis e coliguem-se fraternalmente as intelectuais portugueas, a fim de contribuírem para que decresça este número aterrador de analfabetos.

Lembrem-se de que a "educação" está tão pouco difundida em Portugal como a "instrução" e de que certas doutrinas, expostas ao nosso meio feminino tão ignorante e inconsciente, trazem retrocessos socias e não os progressos que, por ignorância ou por uma quimera desculpável, se julgam assim atingir.

Não estamos na Inglaterra nem nos Estados Unidos ; encontramo-nos em Portugal com uma percentagem de analfabetos que nos deve envergonhar e fazer acordar a voz da consciência.

(...) Fundem-se primeiro do que tudo escolas femininas, equilibre-se o espírito da mulher com uma educação moral forte e orientada, levante-se-lhe bem alto a noção da dignidade, inocule-se-lhe o dever da virtude e do amor da caridade. Em campo prático, sem discuros espalhafatosos, sem correrias desnortedas é esta a missão, a verdadeira e nobre missão a que se deve por enquanto impor o feminismo em Portugal.

Virginia Quaresma

[O Mundo. Lisboa, 9 Fev. 1907. P. 4, coln. Jornal da Mulher]

in "1907: No advento da República" . Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007

(Imagem de “Portugal Século XX”, de Joaquim Vieira, a partir da Bib Esc. Serpa)

If I Could Be With You - Louis Armstrong

(Da banda sonora do filme "Whatever Works")

Sexta-feira, Fevereiro 5

Outros lugares

Tenho-me interrogado se, por algum golpe do destino, este blog mudásse de poiso, de localidade ou de quarto, poderia ser escrito no registo (?) que tem actualmente. As grandes cidades permitem driblar situações, ficcionar ocorrências, esconder o anonimato dos intervenientes e efabular circunstâncias. Escrever em grandes meios urbanos esvazia qualquer processo de intenções, mistifica os locais, impede a identificação, sombreia os rostos e apaga os nomes.
Mudando de local (aldeia, cidade pequena), seria possível manter um blog de autoria identificada e com alguma visibilidade, num registo mais ou menos pessoal, sem medir constantemente o risco de incorrer em ambiguidades ou falsas identificações? Confesso que não sei. O objecto estaria literalmente confinado a paredes muito estreitas e exposto a interpretações alheias a quem o escreve. Como se fosse necessário recorrer constantemente ao aviso de que se trata de uma obra de ficção e qualquer semelhança com a realidade seria pura coincidência. Uma canseira para quem se debate com mil e um constrangimentos dos quais não pode ou não quer fugir. Seria mais um.
Ando cheia de vontade de dizer mal dos modernos candeeiros da praça sem nome, mas e se me desse para escrever sobre uma ida ao cabeleireiro ou uma saída da missa? Estava frita!

Quinta-feira, Fevereiro 4

Grieg - Holberg Suite, Op. 40 - Part 2/5

Quarta-feira, Fevereiro 3

Em modo transparente

Há quem se aborreça de viver na cidade, no anonimato, em prédios sem alma, ao som do elevador, dos bons dias, das boas noites, obras no terceiro esquerdo, obrigada, feche a porta para sua segurança e publicidade aqui não, obrigada.
No entanto, encontrei há dias uma criatura encantada por, finalmente, ir viver para um condomínio fechado, tipo série Dallas, com espaços comuns, jardim acanhado, sistemas de rega, baloiços, cartão de segurança e varandas T0 mobiladas a rigor. Confesso que não fiquei muito entusiasmada com aquela vida comunitária. Achei os vizinhos do duplex superior uns metediços, os meninos do rés do chão muito impertinentes e, a não ser o casal recém-casado, indiferente à exaltação causada pelos maus acertos nos mármores, arrepiou-me a intimidade a que estavam obrigados os habitantes daquela espécie de bunker para ricos. Ainda a tentei demover com conversas sobre privacidade, excessos de zelo, desmazelo, contas em atraso, indiscrições, susceptibilidadaes, espíritos de porteira, gente abelhuda, pequenas vinganças, retaliações, cenários ruidosos de brigas familiares, mas nada a demoveu. São gostos.
Hei-de voltar lá um dia destes para confirmar se ainda se mantém a fraternidade compulsiva daquelas famílias entre muros. Por mim, mega-condomínios não, obrigada. Ou melhor, condomínios só mesmo obrigada.

Estação seguinte

É proibido fumar em toda a rede do Metro. Ouvia-se na plataforma praticamente vazia, de gente à larga enquanto o transporte tardava em chegar. Foi logo ali, em frente ao painel publicitário de uma empresa de telemóveis, que deu por ele. Nem foi preciso olhar de esguelha; o homem "correspondia" ao maldito padrão que a perseguia há anos. Até parece que conhecemos as pessoas sem nunca as termos visto, que raio de coisa esta!. Olhou para ela sem se dar ao trabalho de disfarçar, e ali ficaram ao lado um do outro na plataforma. Ela reconheceu os papéis que ele fingia remexer e ele olhou-lhe para as mãos. Ocorreu-lhe se não estariam ambos perante os "padrões" que os perseguiam, condenados ao mesmo fogo dos Infernos e à procura do mesmo céu. Mesmo sem óculos reparou no blusão e no cabelo, sem jeito nenhum, não há padrão que aguente tanto desleixo; e lá estava ela, armada com o detector de carácter, a pisar as (estéreis) armadilhas em que já tinha caído no passado, em campo minado de bombinhas de carnaval. Ainda lhes sentia os estilhaços.
Por favor proteja os seus bens!
A situação não deixava de ser patética e a custo conteu uma gargalhada. Quase que podia jurar que ao lado dela também alguém fazia um enorme esforço para não ser rir. Veio o comboio e acomodaram-se ao fundo, praticamente em frente um ao outro em lados opostos da porta. Já não faziam qualquer esforço para disfarçarem o olhar, sem embaraços nem fingimentos. Só uma enorme vontade de rir, contida a custo por exigência das circunstâncias.
Talvez sejamos vizinhos, o que tinha a sua graça, pensou. A viagem era curta, pouco propícia a grandes divagações e ela saía na estação seguinte. Esperou até ao último minuto para se aproximar da porta e ainda o viu olhar para ela do fundo da carruagem.
Shit! Seguiu para Odivelas!
Grieg - Holberg Suite, Op. 40 - Part 1/5

Terça-feira, Fevereiro 2

Muitos anos depois

Primeiro éramos dois ou três, mas rapidamente foram chegando muitos mais. Não falo de uma mesa de restaurante ou de café, mas do FaceBook, que serviu como local de encontro semelhante ao que tínhamos na nossa cidade de província. Foi com alguma surpresa, recheada de alguma saudade que fomos revendo caras e nomes da nossa infância e adolescência cujo rasto já tínhamos perdido. Pela nossa cidade de província, isolada das grandes capitais por estradas desgraçadas e comboio ronceiro (e Espanha ali tão perto), muitos ficaram e outros tantos partiram, levados pelo casamento, por melhores empregos e por outras oportunidades. Muitos de nós saímos para estudar e poucos voltaram, como aliás se verificou um pouco por todo o país. Foi assim que fomos separados pela vida e pelas suas contingências, depois de uma infância e adolescência em comum, vivida entre as avenidas durante os tempos quentes e (os poucos) locais de encontro que a cidade tinha para nos oferecer. Foi um encontro de amigos antigos, sem nostalgias nem espírito de Alex. Muitos anos passaram entre nós, cada um com a sua história pessoal, casamentos, divórcios, filhos, a morte que nos foi tocando a cada um e amigos comus que prematuramente foram levados pela doença ou pela estrada. Mal nos conhecemos no presente, mas fomos unidos por uma cumplicidade feita de ingénuas aventuras, paixões da idade, o reconhecimento das nossas origens e de um passado comum. Ao contrário do que aconteceu com as amizades que fomos construindo, não são necessárias explicações nem histórias de vida. Se aqueles bancos falassem, haveriam de contar os nossos segredos e as nossas aventuras, contadas em voz baixa, treinada contra mexericos de cidade pequena, onde nos tratávamos pelo nome. Não vimos dos tempos de grandes idealismos, só os nossos, os que a adolescência permite e proporciona. Na sua maioria, oriundos de famílias tradicionais e conservadoras, depois de atravessada a juventude (com maior ou menor rebeldia), são raros os que não trazem com eles, ainda hoje, os traços das suas origens. Naturalmente, escrevo isto sem qualquer tipo de preconceito nem crítica associada. O que nos une é uma parte importante da nossa vida que vivemos juntos, e que não dá lugar a hipocrisias nem “revisionismos”. Passados todos estes anos, gente a quem o tempo e a vida tratou melhor ou pior, existiu somente a alegria de nos voltarmos a ver no presente. Porventura não voltaremos a ser os amigos do passado, mas o que nos liga, o tempo dificilmente poderá apagar: os nomes do ausentes, dos que sentimos saudades, as nossas músicas, o que nos entretinha, a noite sob as árvores, a escola e a rebeldia com hora marcada de chegar a casa. São agora as tecnologias que nos aproximam. Já não tocamos às campainhas para nos encontrarmos a horas determinadas pelos nossos hábitos e pela conveniência. Agora estamos sempre contactáveis, sem admoestações familiares (apaga a luz!) e a horários que a nossas vidas permitem. Antes do Facebook, já a blogoesfera ocupava um lugar semelhante a um café do século XIX, frequentado por tipos diferentes, do pouco letrado ao erudito, do sério ao humorado, do especialista ao generalista, do militante ao diletante, do anónimo ao identificado, em que uns se sentam sozinhos, outros partilham a mesma mesa e alguns dão dois dedos de conversa aqui e acolá. Vêem-se trajes discretos mas de bom corte, outros optam por um estilo mais arrojado, ou seja, mostra-me o teu template, dir-te-ei quem és. Lá no fundo, no canto inferior direito, se virem um sinal verde online, posso ser eu.
Publicado no Nicotina Magazine
From the beautiful blog Visual Vamp

Segunda-feira, Fevereiro 1

Love Letter Not easy to state the change you made. If I'm alive now, then I was dead, Though, like a stone, unbothered by it, Staying put according to habit. You didn't just toe me an inch, no-- Nor leave me to set my small bald eye Skyward again, without hope, of course, Of apprehending blueness, or stars. (...) And I slept on like a bent finger. The first thing I saw was sheer air And the locked drops rising in a dew Limpid as spirits. Many stones lay Dense and expressionless round about. I didn't know what to make of it. I shone, mica-scaled, and unfolded To pour myself out like a fluid Among bird feet and the stems of plants. I wasn't fooled. I knew you at once. (...) Sylvia Plath
Law Blouse

From the beautiful Katiedid

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