Um pouco de apocalise
Um blog com seriedades, muitas banalidades, algumas frivolidades,pechisbeque, chá e torradas. Que me diverte.
O prémio zapping desta semana vai inteirinho para os jogos (diz-se assim?) de curling inseridos nos Jogos Olímpicos de Inverno.
"You might think that no recipe could live up to this title. It's a reasonable presumption, but thank God, a wrong one.
This is heaven on the plate: the wine-soused raspberries take on a stained glass, lucent red, their very raspberriness enhanced; the soft, translucently pale coral just-set jelly in which they sit has a heady, floral fragrance that could make a grateful eater weep. If there's one pudding you make from this book, please, please make it this.
This recipe was emailed to me from Australia from my erstwhile editor, Eugenie Boyd. I've fiddled with it a bit, but it is the best present a foodwriter could ever have. Now it's yours.
Serves 6
Ingredients
1 bottle good fruity Chardonnay
300g raspberries
1 vanilla pod, split lengthways
5 gelatine leaves
250g caster sugar
double cream to serve
Como ia dizendo, um dos problemas desses programas de culinária através da televisão, é a dificuldade em tomar notas decentes sobre as receitas, ou seja, os ingredientes, tempos e fases da preparação. Aquilo que vemos sempre, é o produto final com grande aparato, impecável e acompanhado à guitarra com elogios à cor (como um pôr do sol), ao sabor (voluptoso) e ao cheiro (inebriante). Em bom rigor, nem sequer se vêem as cozinhas sujas nem a louça empastelada, e as próprias apresentadoras surgem com grande esmero, de roupa asseada sem mácula nem avental. Só quem não cozinha é que não repara no aprumo do décor."(“não é preciso amassar nem provar” (to prove é levedar, crescer); “aspecto de aveia consistente” (em vez de papas de aveia) “lista de coisas que tinha para fazer ainda por conferir” (to check é pôr um vêzinho, não é, neste caso, conferir); torrada francesa em vez de rabanada - p. 163, na p. 168 já está bem). São receitas rápidas. Mas o conceito é em parte um engodo (pés de cordeiro, temperados num dia, cozinhados noutro e comidos noutro recorre a uma noção de tempo curto relativa). Como em qualquer livro traduzido, há o choque cultural: “encomendar vieiras ao meu peixeiro”, “natas gordas”, “soro de leite”, “sal Maldon” “molho hoisin”, “cogumelos do choupo”. O apuro técnico das receitas varia (por exemplo, no frango com bacon e brandy não se refere sal – o do bacon não chega e o meu brandy não tem sal); "
Mas a Nigella já é todo um programa que, aliás, se vê com gosto.
Afinal, o meu blog deu mesmo um programa de rádio. A Ana Margarida da Rádio Comercial foi muito simpática (também generosa) e eu gostei do resultado. Ouvir as minhas palavras com vozes, teve muita graça. Obrigada.
(Programa aqui)
Maurizio Pollini plays Chopin Nocturne no. 8 op. 27 no. 2
Pode ser que volte em breve a Lisboa.
Chopin, no dia do seu 200º aniversário, ainda guarda muitos mistérios (Washington Post)
As imagens são mais fortes do que as (minhas) banalidades e a dimensão da tragédia não se verbaliza com decência aqui do meu sofá. É tudo muito pequeno perante a desvastação da morte e da natureza. Estes são tempos "to weep and to mourn".
The Sopranos, Season 2, Episode 10
Tony: “All this from a slice of gabagool?” Dr. Melfi: “Kind of like Proust’s madeleines.” Tony: “What? Who?” Dr. Melfi: “Marcel Proust. Wrote a seven-volume classic, Remembrance of Things Past. He took a bite of madeleine — a kind of tea cookie he used to have when he was a child — and that one bite unleashed a tide of memories of his childhood and, ultimately, his entire life.” The Way the Cookie Crumbles How much did Proust know about madeleines?
Sitting on the Dock of the Bay...
Dedicado à minha amiga L., com carinho. Ainda iremos estar, muitas vezes, as duas a olhar a baía e a contar histórias, as nossas coisas.
O Italiano (free lancer) Pietro Masturzo é o vencedor do World Press Photo 2009
"A foto vencedora mostra mulheres em protesto no cimo de uma casa em Teerão, e foi tirada a 24 de Junho. Faz parte de um trabalho do fotógrafo intitulado "Telhados de Teerão".
Trata-se de uma das fotografias tiradas durante os protestos que se seguiram à reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, a 12 de Junho de 2009. Depois de marchas de contestação durante o dia, à noite os populares gritavam palavras de ordem das varandas e topos dos edifícios, em particular na capital, Teerão. "Hello, I Must Be Going-Groucho Marx
(Da banda sonora do filme "Whatever Works")
Ultimamente tenho escrito uns posts em forma de qualquer coisa sobre mulheres imaginárias em situações imaginadas, mas que poderiam ser personagens de situações verosímeis. São mulheres e não mulherio, expressão abominável de sentido algo pejorativo e para a qual não existe correspondência no masculino. Não digo que se trata de um termo sexista, se bem que já o tenha ouvido em situações que pouco nos dignificam (nós mulheres). Aliás, não tenho a menor dúvida de que a sociedade (ainda) tem vestígios - que deveriam ser já arqueológicos - de um comportamento preconceituoso para com as mulheres em geral, tratando de as catalogar ou subestimar na sua vida profissional (seja ela qual for), assim como nas suas vidas pessoais, ou seja, pelo estatuto, idade ou imagem. E em bom rigor, onde andará a solidariedade feminina, quando precisamos dela? Nos tempos modernos legislou-se a discriminação positiva, e o que deveria ser rejeitado com indignação, é alegremente aceite, saltando de saltos altos no trampolim para o poder em função do sexo. Não em meu nome. Bem sei que esta praia também é minha, mas não é isto que me traz a este post. Corria o ano de 1907, limiar da Implantação da República. Em Fevereiro desse ano, foi aprovada a lei que reconhecia a liberdade de associação sem autorização prévia, realizava-se em Lisboa um grande comício a favor da liberdade de Imprensa e, no dia 26, o presidente da Associação de Agricultura renunciava ao seu mandato de deputado, em forma de protesto pelo modo como o governo procedeu na questão vinícola. Os movimentos feministas faziam-se sentir em Inglaterra, França, Itália e nos EUA.
Por cá, Virginia Quaresma escrevia assim no jornal "O Mundo": "Não; não julguem, não devem crer que possamos incitar a mulher portuguesa a reclamar o direito do voto, a investir-se na autoridade de magistrado, a cair no erro desastroso de proclamar o amor livre e de tudo querer ser nos domínios políticos e morais da nossa sociedade. (...) É perante uma vergonha estatística (2 406 245 mulheres analfabetas) destas que é necessário julgarmos com serenidade e critério imparcial o que pode e deve ser o feminismo em Portugal.
Completamente analfabetas, sem uma educação moral capaz, sem o espírito fortificado para os embates sociais o que se pode dizer no jornal ou na tribuna a mulheres assim? Para serem exigidos direitos é necessário primeiramente que sejam exigidos deveres. Os grandes ideais politicos não se proclamam quando as nacionalidades ainda estão embrionárias e o espírito dos povos adormecido. (...) O anarquismo em teoria, a moral científica tudo isto nos faz praticar o Bem, enaltecer a Verdade, adorar a Justiça, independentemente de leis, de peias ou de convencionalismos é, na realidade, um Ideal sublime que nos conduziria à perfeição, mas poderá ser compreendido por todos (.... ) Ideias excessivamente avançadas em meios acanhados, dão resultados contraproducentes e se bem auscultarem os acontecimentos históricos com critério são e imparcial, hão-de convencer-se desta grande verdade, (...) Schoppenhauer, Montaigne, Voltaire e tantos outros filósfosos com individualidades bem demarcadas na História do Livre Pensamento, frisaram em vários pontos das suas obras este princípio como devendo servir de lição a toda a humanidade.
É necessário que as feministas portuguesas tracem um programa criterioso de acção prática. Ponham-se de parte exaltações ridículas, ideias prematuras, combates tão violentos como inúteis e coliguem-se fraternalmente as intelectuais portugueas, a fim de contribuírem para que decresça este número aterrador de analfabetos.
Lembrem-se de que a "educação" está tão pouco difundida em Portugal como a "instrução" e de que certas doutrinas, expostas ao nosso meio feminino tão ignorante e inconsciente, trazem retrocessos socias e não os progressos que, por ignorância ou por uma quimera desculpável, se julgam assim atingir.
Não estamos na Inglaterra nem nos Estados Unidos ; encontramo-nos em Portugal com uma percentagem de analfabetos que nos deve envergonhar e fazer acordar a voz da consciência.
(...) Fundem-se primeiro do que tudo escolas femininas, equilibre-se o espírito da mulher com uma educação moral forte e orientada, levante-se-lhe bem alto a noção da dignidade, inocule-se-lhe o dever da virtude e do amor da caridade. Em campo prático, sem discuros espalhafatosos, sem correrias desnortedas é esta a missão, a verdadeira e nobre missão a que se deve por enquanto impor o feminismo em Portugal.
Virginia Quaresma
[O Mundo. Lisboa, 9 Fev. 1907. P. 4, coln. Jornal da Mulher]
in "1907: No advento da República" . Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007
(Imagem de “Portugal Século XX”, de Joaquim Vieira, a partir da Bib Esc. Serpa)If I Could Be With You - Louis Armstrong
(Da banda sonora do filme "Whatever Works")
Tenho-me interrogado se, por algum golpe do destino, este blog mudásse de poiso, de localidade ou de quarto, poderia ser escrito no registo (?) que tem actualmente. As grandes cidades permitem driblar situações, ficcionar ocorrências, esconder o anonimato dos intervenientes e efabular circunstâncias. Escrever em grandes meios urbanos esvazia qualquer processo de intenções, mistifica os locais, impede a identificação, sombreia os rostos e apaga os nomes.
Primeiro éramos dois ou três, mas rapidamente foram chegando muitos mais. Não falo de uma mesa de restaurante ou de café, mas do FaceBook, que serviu como local de encontro semelhante ao que tínhamos na nossa cidade de província.
Foi com alguma surpresa, recheada de alguma saudade que fomos revendo caras e nomes da nossa infância e adolescência cujo rasto já tínhamos perdido. Pela nossa cidade de província, isolada das grandes capitais por estradas desgraçadas e comboio ronceiro (e Espanha ali tão perto), muitos ficaram e outros tantos partiram, levados pelo casamento, por melhores empregos e por outras oportunidades. Muitos de nós saímos para estudar e poucos voltaram, como aliás se verificou um pouco por todo o país. Foi assim que fomos separados pela vida e pelas suas contingências, depois de uma infância e adolescência em comum, vivida entre as avenidas durante os tempos quentes e (os poucos) locais de encontro que a cidade tinha para nos oferecer.
Foi um encontro de amigos antigos, sem nostalgias nem espírito de Alex. Muitos anos passaram entre nós, cada um com a sua história pessoal, casamentos, divórcios, filhos, a morte que nos foi tocando a cada um e amigos comus que prematuramente foram levados pela doença ou pela estrada.
Mal nos conhecemos no presente, mas fomos unidos por uma cumplicidade feita de ingénuas aventuras, paixões da idade, o reconhecimento das nossas origens e de um passado comum. Ao contrário do que aconteceu com as amizades que fomos construindo, não são necessárias explicações nem histórias de vida. Se aqueles bancos falassem, haveriam de contar os nossos segredos e as nossas aventuras, contadas em voz baixa, treinada contra mexericos de cidade pequena, onde nos tratávamos pelo nome.
Não vimos dos tempos de grandes idealismos, só os nossos, os que a adolescência permite e proporciona. Na sua maioria, oriundos de famílias tradicionais e conservadoras, depois de atravessada a juventude (com maior ou menor rebeldia), são raros os que não trazem com eles, ainda hoje, os traços das suas origens. Naturalmente, escrevo isto sem qualquer tipo de preconceito nem crítica associada. O que nos une é uma parte importante da nossa vida que vivemos juntos, e que não dá lugar a hipocrisias nem “revisionismos”. Passados todos estes anos, gente a quem o tempo e a vida tratou melhor ou pior, existiu somente a alegria de nos voltarmos a ver no presente. Porventura não voltaremos a ser os amigos do passado, mas o que nos liga, o tempo dificilmente poderá apagar: os nomes do ausentes, dos que sentimos saudades, as nossas músicas, o que nos entretinha, a noite sob as árvores, a escola e a rebeldia com hora marcada de chegar a casa.
São agora as tecnologias que nos aproximam. Já não tocamos às campainhas para nos encontrarmos a horas determinadas pelos nossos hábitos e pela conveniência. Agora estamos sempre contactáveis, sem admoestações familiares (apaga a luz!) e a horários que a nossas vidas permitem.
Antes do Facebook, já a blogoesfera ocupava um lugar semelhante a um café do século XIX, frequentado por tipos diferentes, do pouco letrado ao erudito, do sério ao humorado, do especialista ao generalista, do militante ao diletante, do anónimo ao identificado, em que uns se sentam sozinhos, outros partilham a mesma mesa e alguns dão dois dedos de conversa aqui e acolá. Vêem-se trajes discretos mas de bom corte, outros optam por um estilo mais arrojado, ou seja, mostra-me o teu template, dir-te-ei quem és.
Lá no fundo, no canto inferior direito, se virem um sinal verde online, posso ser eu.
Love Letter
Not easy to state the change you made.
If I'm alive now, then I was dead,
Though, like a stone, unbothered by it,
Staying put according to habit.
You didn't just toe me an inch, no--
Nor leave me to set my small bald eye
Skyward again, without hope, of course,
Of apprehending blueness, or stars.
(...)
And I slept on like a bent finger.
The first thing I saw was sheer air
And the locked drops rising in a dew
Limpid as spirits. Many stones lay
Dense and expressionless round about.
I didn't know what to make of it.
I shone, mica-scaled, and unfolded
To pour myself out like a fluid
Among bird feet and the stems of plants.
I wasn't fooled. I knew you at once.
(...)
Sylvia Plath