Há dias assim
Um blog com seriedades, muitas banalidades, algumas frivolidades,pechisbeque, chá e torradas. Que me diverte.
Uma das fotografias do blog O Silêncio dos Livros, no Origem das Espécies,também com deliciosos registos (anotados e comentados) sobre pequenos poderosos, zeladores que nos apascentam e enochatos, ou a ironia inteligente que faz falta em tempo de crise. Não fico propriamente exultante, mas nem sempre a boa escrita é um parque de diversões.
ÚLTIMA DAS MITFORD : Deborah Mitford Cavendish, Duquesa de Devonshire. Talvez a mais decente das irmãs e ainda bela. Autora de obras sobre Chatsworth, solar dos Devonshire e uma das mais belas casas de Inglaterra, mecenas de Lucian Freud e anfitriã frequente de Noel Coward (autor de Imagine the Duchesse’s feeling). "
"The Stately Homes Of England"-NOEL COWARD
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Hyde Park Gardens, uma mansão londrina
Andam meio apardalados, os pássaros da minha janela. Noutros tempos, logo que começava a escurecer, enfiavam a cabeça sob as asas e assim ficavam até o sol nascer. Caladinhos, sem piar.
Not anymore. Agora ouço-os tagarelar à luz do dia e, incansáveis, não param quando o sol se põe. Tomam coisas esquisitas os pássaros da minha rua, baralham-me o dia e a noite, privam-me dos sinais que induzem o sossego, como o toque de campainha, o apito de uma fábrica ou o sino das Avé-Marias. Como a Irmã M., que rezava ao som da buzina do meio-dia no quartel de bombeiros.
Dia 24 de Novembro é a festa dos 3 anos do 31 da Armada. No Lollipop (LX Factory) às 22:30.
Descobri há pouco tempo que não conhecia as manhãs. Para as manhãs, nunca estou. Vou, regresso, corro, já com a luz posta, com a cidade em movimento em edíficios fechados. Quando as ruas se esvaziam e cada um toma o seu lugar, a manhã enche-se dos seus habitantes, gente com quem não me cruzo nas manhãs dos meus dias a néon e ar condicionado, que toma o espaço que os outros libertam, com um ritmo mais lento, com passo menos seguro e com mais tempo. São os idosos, os reformados nos correios com as notas, as facturas e as pensões, os casais nos bancos à procura de uma vida em casas sonhadas, as mulheres e os homens com impressos, sisas, obrigações, fichas de chamada nas finanças, uma geração de mulheres sem impostos e sem rendimentos, de alcofa e porta-moedas que percorre o mercado, ao peixe, à carne que há-de ter pronta à noite para os seus.
Vejo-as chegar no 47, acordadas há muito, com o saco, o almoço, o avental, a bata, os sapatos para trocar, o carteiro a tocar às campainhas de casas vazias com contas a pagar, notícias e cartas timbradas. Sem farda, os cobradores tentam arrecadar as quotas, os fiscais fazem vistorias, os limpa-chaminés vão tentando a sua sorte e, lá ao longe, ainda se ouve o assobio do amolador. Nas zonas de comércio, há muito que os pedintes tomaram os seus lugares, os artesãos arrumaram a mercadoria e os homens dos retratos prepararam as tintas.
O trânsito, condicionado e programado à força de sinais, tenta mexer-se, encaixar-se nas ruas estreitas das descargas e circular por entre o caos das avenidas na pressa para o escritório. Os arrumadores vão chegando pouco a pouco, acordando lentamente de ressacas sem fim, tentam as primeiras moedas para a dose do dia e junto aos semáforos, juntam-se o velho Borda d'Água e os novos jornais. São os tempos modernos.
São estas manhãs que terminam quando as ruas se enchem de novo, de gente a correr, barulhenta, com horas marcadas, relógios de ponto e estômagos vazios. A estes conheço-os, ocupamos os mesmos espaços, caminhamos lado a lado, cruzamo-nos sem nos vermos e mais tarde, já quase sem luz vamos esvaziando as ruas e enchendo as estradas na viagem de volta. Até ao outro dia. Para mim, para eles, sem estas manhãs que não vemos.
Ensinam os genealogistas que se deve mencionar, no verso das fotografias, informação que permita, no futuro, identificar as imagens, ou seja, o local, os intervenientes, a data, a ocasião, etc.
Longe da política que me agasta e dos inflamados fracturantes cheios de "direitos fundamentais", fico-me com as palavras do Filipe Nunes Vicente sobre a felicidade , com a série"Uma questão de transportes", com o delicioso Saponáceo, tudo isto acompanhado ao piano com as fotografias do Jansenista.Daniel Barenboim - Moonlight sonata - 1ºmov Adagio sostenuto Beethoven - Sonata No. 14 C sharp minor Op. 27 No. 2
Entretanto, no Vida Breve, um dos meus blogs preferidos, vive-se assim:"
O jardim do Palace Hotel Bussaco, antes de me etilizar com três gin-tónicos na varanda e de perder sem qualquer dignidade ao crapô." Nos documentários que têm passado recentemente nas televisões sobre os países de leste durante a Cortina de Ferro, antigas estrelas pop, fotógrafos, humoristas e escritores da antiga República Socialista da Checoslováquia descreveram a mentira e a hipocrisia em que todos pareciam estar envolvidos e explicaram como a retórica comunista, envolta em propaganda, era tão diferente da realidade.
Durante a Primavera de Praga, uma cidadã é acordada pela mãe: "Marta, fomos invadidos". "Mas invadidos por quem? Os americanos já cá estão. Porque querem invadir-nos?" Foi assim o começo da Operação Danúbio e do processo de normalização, em que o suicído de Jan Palach (imolado pelo fogo) viria a ser um símbolo da luta contra a repressão. As imagens de Václav Havel vigiado na sua própria casa deveriam transmitir alguma coisa, e que uma revolução, mesmo de veludo, implicou uma coragem mal silenciada de lutadores antigos. Da Roménia de Ceauşescu vimos imagens da destruição da cidade antiga para que o ditador pudesse realizar o seu megalómano Palácio do Parlamento, os relatos da inúmeras mortes de operários durante a sua construção, a paranóia de trazer gente dos campos para as cidades, desenraizando-as das suas origens e enfiando-as em casas absolutamente miseráveis, com escassez de alimentos e torturados pelas baixas temperaturas.E quando já nada havia para comer, visto que todos os bens alimentares eram exportados, sobravam os pés de porco, verdadeiros patriotas que não saíam do país. As derradeiras imagens deste casal de ditadores, repetidas vezes sem fim, mostravam uma Elena Ceauşescu (com mau cheiro, nas palavras do guarda) que gritava "Criei-vos como uma mãe". Bem vi, e nunca me hei-de esquecer, dos "seus filhos" deficientes abandonados como animais em instituições inqualificáveis. É por isso que não percebo quando os ouço defender um regime apascentado por esta gente canalha.
Good Bye, Lenin!
Era de noite e fazia frio, em 9 de Novembro de 1989. As imagens dos documentários mostram mares de gente a atravessar uma estreita fronteira física entre duas cidades que os homens dividiram para separar homens e ideologias. Era também à noite que se ouviam tiros junto ao muro que derrubavam quem o ousava passar. Era de noite quando milhares de berlinenses de leste sairam à rua depois de ouvirem, incrédulos, a informação saída do bolso de um dirigente confuso numa conferência de imprensa atabalhoada. As imagens que temos desses momentos não nos deviam deixar indiferentes e, por isso, tenho pena que os mais novos as troquem por patetices modernas em horário nobre. Se tivessem perguntado quem era aquela gente vestida de forma antiquada, saloia, pobre, em carros de plástico, ter-lhes-iam dito que houve tempos em que uma cortina de ferro dividia uma Europa que eles agora atravessam livremente. Quando visitei Berlim pela segunda vez após a queda do muro, estive no Cafe Sybille na austera Karl Marx Allee, à espera de encontrar alguma coisa de um tempo perdido, cuja memorabilia se vende agora na rua a turistas e colecionadores. Pareceu-me que o ar do tempo também já tinha passado por ali, como um modesto café da minha província, à espera do camartelo. Dizem-me que o Café Adler junto ao Checkpoint Charlie já fechou e pertence actualmente a uma rede local de cafés. Agora, só a sua memória nos livros, filmes e nas histórias de espionagem.
Por isto tudo, coisas minhas, recordei as caricatas cenas do filme "Goodbye Lenin" com a improvisação patética de um telejornal a incensar Erich Honecker, a estátua do Lenin a ser retirada, e o anúncio da Ikea nos cartazes da cidade. Foi também o começo de uma história de amor em tempos de liberdade, mas isso agora não importa nada.
When You are Old WHEN you are old and gray and full of sleep And nodding by the fire, take down this book, And slowly read, and dream of the soft look Your eyes had once, and of their shadows deep; How many loved your moments of glad grace, And loved your beauty with love false or true; But one man loved the pilgrim soul in you, And loved the sorrows of your changing face. And bending down beside the glowing bars, Murmur, a little sadly, how love fled And paced upon the mountains overhead, And hid his face amid a crowd of stars. William Butler Yeats
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Neste mês de Novembro, cheio de sombras no nosso calendário dos afectos, e em particular neste dia, um poema a quem não vimos envelhecer. A saudade que temos deles e a falta que nos fazem.
Je suis perdue from JMC on Vimeo.
JE SUIS PERDUE por Gigi Gaston - video de Jean-Luc Godard Do Almocreve das Petas
Obrigada
“Memoriais de Beira de Estrada”- Valter Vinagre
Vasculhei a gaveta e nada: instrumento para descacar batatas, ralar o queijo, espremer o alho, o limão, tirar o meio do ananaz, descaroçar ginjas e há mesmo quem tenha alguém que lhe tire as grainhas das uvas. Não falo sequer de uma geringonça para descascar as castanhas ou as romãs, que isso seria pedir muito, mas não encontro nada apropriado para dar, nas castanhas, o corte necessário antes de irem para a panela ou para o forno.