Segunda-feira, Novembro 30

Há dias assim

Rose, Rose, o meu blog por uma Rose.!

YOUNG AT HEART-Dean Martin Absolutamente fantástica

Web log na calçada

Depois de uma breve e frustrante incursão no mundo da restauração (onde nem tudo corre sempre assim tão mal), constato com alguma irritação que o panorama do comércio de vestuário também já viu melhores dias, e não falo sequer de grandes armazéns. Seja porque as empregadas se sentem indispostas, mal pagas, cansadas ou até sem qualquer jeito para a função, a verdade é que se torna cada vez mais difícil encontrar um bom atendimento. Não são necessários grandes sorrisos nem mesuras. Um pouco de afabilidade e alguma competência já me chegam, que sei arranjar-me sozinha. Curiosamente, talvez devido a frágeis contratos laborais ou a alguma formação, a verdade é que me entendo muito bem com as meninas de uniforme. São despachadas e cordatas. Ça suffit. Claro que há simpáticas excepções no comércio de rua. São essas que nos fazem voltar aos locais onde somos bem recebidos. Por mim, trato os outros como gostaria que me tratassem a mim, e sei do que falo.
Têm sorte comigo, as criaturas mal encaradas, que não sou pessoa para cenas estridentes nem quezílias de trapos. Aprendi a poupar-me e não compro guerrinhas de balcão, mas conheço muito boa gente que não lhe custaria nada, como represália, pedir todos os modelos trinta e oito em cinco cores. Estes últimos dias, uma maçada, têm sido fatalidades umas atrás das outras, praticamente corrida à vassourada com o ar de enfado não de uma, nem de duas, mas de três filhas de Deus mortinhas por me ver pelas costas. Mas quando a dondoca da televisão a meu lado pediu lençóis Ralph Lauren para a criança, a parvalhona mudou logo de registo, e eu mudei de loja.

Domingo, Novembro 29

Jackie Brown - The Delfonics - Didn't I ( Blow Your Mind This Time )

São manchas, senhores.

Depois do folhetim (em meados de 2007) do abate de 97 plátanos durante a reabilitação do Campo Pequeno e a sua posterior substituição por algumas árvore-palito assistimos, de novo, ao corte de mais árvores na sequência da requalificação do Jardim França Borges, mais conhecido por Jardim do Príncipe Real. Em ambos os casos, as árvores apresentavam sinais de maleitas diversas (dizem) e decidiram (quem pode) cortar o mal pela raíz, literalmente.
Quando ouço falar em requalificação e reabilitação, temo sempre o pior. Os resultados estão à vista, ou melhor, foram levados pela serra eléctrica, pela cupidez imobiliára, ou por zelo burocrático sem gosto nem sentido histórico. Quem vier por fim, que apague a luz.

Sábado, Novembro 28

Domingo à tarde

Fica mesmo assim, em italiano. Temo que o meu português arruine o original: "In un convento fondato dai domenicani sorge una tra le più antiche e affascinanti profumerie, la preferita anche di Caterina de' Medici", a Officina Profumo farmaceutica Santa Maria Novella, instalada em Florença non è solo un luogo di vendita, ma un vero e proprio museo della tradizione fiorentina.
Se os abençoados produtos, cultivados originalmente no "orto dei simplici", eram bons para a Catarina de Medicis, também em mim hão-de fazer milagres. Tinhas razão, Luis Miguel. De Florença para Lisboa, mesmo ali, na Rua da Misericórdia, uma loja de estilo depurado cheia de tisanas, cremes, chocolates, óleos, para mulheres, homens e crianças, cheiros maravilhos e texturas fantásticas, em frascos à antiga como já não se veêm, que hão-de curar o corpo e dar vida à alma.

Uma das fotografias do blog O Silêncio dos Livros, no Origem das Espécies,também com deliciosos registos (anotados e comentados) sobre pequenos poderosos, zeladores que nos apascentam e enochatos, ou a ironia inteligente que faz falta em tempo de crise.

Não fico propriamente exultante, mas nem sempre a boa escrita é um parque de diversões.

Quinta-feira, Novembro 26

ÚLTIMA DAS MITFORD : Deborah Mitford Cavendish, Duquesa de Devonshire. Talvez a mais decente das irmãs e ainda bela. Autora de obras sobre Chatsworth, solar dos Devonshire e uma das mais belas casas de Inglaterra, mecenas de Lucian Freud e anfitriã frequente de Noel Coward (autor de Imagine the Duchesse’s feeling). "

"The Stately Homes Of England"-NOEL COWARD .
“"Twenty-three and a quarter minutes past," Uncle Matthew was saying furiously, "in precisely six and three-quarter minutes the damned fella will be late” Nancy Mitford
Hyde Park Gardens, uma mansão londrina
Quem nunca mandou recadinhos, que atire o primeiro post.

Quarta-feira, Novembro 25

Cilindrada

No ínicio era o alinhamento da direcção (esta expressão é todo um programa). Acedi aliviada pela ausência de maleitas maiores, se bem que essa coisa da linha justa não seja muito do meu agrado. Pela segunda vez insisti na questão dos pneus novos e no limpa pára-brisas novinho em folha. Os inspectores haveriam de reparar no meu zelo. No entanto, em menos de nada, a lista ia sendo alongada com pormenores, peças e problemas dos quais não sei nem quero saber. O sr. mecânico desconhece a minha difícil relação com máquinas de quatro rodas, pelo que tento evitar fazer ar de fastio, mas não uma indisfarçável cara de parva.
Ainda consegui fixar a problemática do óleo, a complicada questão das velas e, por fim, as mazelas do tubo de escape, que nunca escaparão ao olho treinado desses tais inspectores que me infundem um temor ao nível de uma sentença do exame de código ou mesmo de uma resposta das Finanças. Torno a insistir nos pneus novos e no limpa pára-brias novinho em folha que haveriam de ser bem avaliados, mas que em nada contribuem para impedir o sentimento de pequena delinquente culpada de desatenção ao óleo, às velas e desleixo com o tubo de escape. Bem vistas as coisas, já lá vão três dias, três molhas e, certamente, uma conta com grandes três dígitos, que isto anda tudo ligado.

Entre "cacos" e pedras

Exposição para "fanáticos" da autora, a que tive o gosto de assitir. Uma tarde deliciosa no meio de adereços e roupa que os actores usaram em diversos filmes passados no Egipto, objectos pessoais, documentários e uma fantástica colecção de livros. Lá estava também a carruagem do Expresso Oriente. São estas coisas que separam as cidades civilizadas das outras, onde medra o deslumbramento saloio, os "topos de gama", a falta de vegonha e a vergonha da justiça que paralisa tantas vidas.
Exposição: Agatha Christie and archaeology no British Museum (8 Nov.2001- 24 March 2002)

Terça-feira, Novembro 24

Procol Harum - T.V. Caesar (Mighty Mouse) 1973 Music Video

Corte & escovinha

Gostava de saber o que iria pela cabeça daquele homem, ainda jovem, com quem há dias partilhei o mesmo salão de cabeleireiro (ainda se diz assim?). Parece-me que é bastante comum aparecerem por lá cavalheiros a cortar o cabelo. Nunca perguntei nem o tenciono fazer, mas acredito que fiquem um pouco constrangidos com aquele corropio feminino entre lavagens, secadores e verniz das unhas. Ao contrário da restante clientela, não têm literatura adequada. Ou melhor, não me recordo de algum deles alguma vez ter aberto as revistas cor de rosa ou de cabelos (levante o dedo aquela que nunca o fez). Depois, ninguém lhes dá conversa, o que me parece agradecerem. O cavalheiro do outro dia, sentado entre uma madura com alumínios no cabelo e outra madura de mão estendida com cabeça enrolada numa toalha, aguardava pacientemente a sua vez, enquanto ia estudando a vitrina dos cremes. De facto, o panorama era pouco animador: o desgraçado ficou a saber que o bebé da M tinha nascido com 3 kilos e meio, dormia bem e chorava pouco, que o talho tinha receitas novas e que a electricidade estava pela hora da morte. Chegada a hora de ser atendido, meia dúzia de tesouradas depois, escovinha no pescoço e estava pronto a sair, mas não sem antes ter pedido o frasquinho de gel do qual terá ficado com boa impressão. Mesmo sem ter direito a espelho na nuca, pareceu-me aliviado por sair dali. Nós ficámos. Uma mais loura, outra mais nova, a mais velha de unhas pintadas e a mais jovem ainda com mais manias.
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Texto reeditado

Segunda-feira, Novembro 23

2

-Ah! Em criança não gostava de smarties?

1

Se acaba de chegar a este blog, vai começar a sentir-se ensonado...

Sábado, Novembro 21

pois o que a gente busca nas dobras do amor é a cura para a morte que não tem consolo
Fernando Assis Pacheco, R., 1992, "Respiração assistida" Le Roman de la rose - The Garden of Pleasure (e-card da British Library)

GILBERT BECAUD " LES MARCHÉS DE PROVENCE "

E é assim

(...) persisto na ideia de conviver harmoniosamente com a modernidade embora só me sinta feliz no reduto do que já conheço. Uma agenda Filofax. Um disco que já ouvi. Um autor que não me surpreende, Uma bebida que conheço há anos. O eterno cozido à portuguesa do Painel de Alcântara. O croquete do Gambrinus. Vergilio Ferreira. João Gilberto. O pastel de massa tenra do Frutalmeidas. Gosto do que é novo, mas o confronto cansa-me. Gosto de conhecer novas cidades, mas logo que posso volto a Londres e a Barcelona, (...) Propositadamente, misturo o que não se mistura - para que se perceba que há, no conservador não assumido, algo que está aquém e além da ideologia ou sequer da cultura familiar. Como se tivesse uma marca genética que não se consegue vencer por decreto."
Pedro Rolo Duarte "Voz baixinha: sim, eu sou...." Jornal I. Esta semana "Conservadores".
Também, "Porque não sou conversador" de Rogério Casanova e entrevista com João Pereira Coutinho, alguns amigos, locais e objectos nos quais me reconheço.

Sexta-feira, Novembro 20

Com penas

Andam meio apardalados, os pássaros da minha janela. Noutros tempos, logo que começava a escurecer, enfiavam a cabeça sob as asas e assim ficavam até o sol nascer. Caladinhos, sem piar. Not anymore. Agora ouço-os tagarelar à luz do dia e, incansáveis, não param quando o sol se põe. Tomam coisas esquisitas os pássaros da minha rua, baralham-me o dia e a noite, privam-me dos sinais que induzem o sossego, como o toque de campainha, o apito de uma fábrica ou o sino das Avé-Marias. Como a Irmã M., que rezava ao som da buzina do meio-dia no quartel de bombeiros.
Diz-me um entendido que já deveriam, por esta altura, ter partido para as terras quentes do sul, mas vão ficando por cá, a passarinhar, com as temperaturas amenas que encontram nas árvores da cidade. Afinal, a natureza é muito simples.
Chilreiam todo o dia, twitam, namoriscam sem sair dos galhos, comunicam sem saltar dos ramos, enfileirados, truculentos, todos iguais, tagarelas, desconfio que gostam de se ouvir. Os mais inquietos saltitam de árvore em árvore, uma bicada aqui, uma vénia acolá, à procura de comida ou companhia em vôos solitários rasantes à minha janela sem beira, disputando o espaço com acerto, conhecedores do norte e do sul. Não tenho asas, mas tenho pena, não vos entendo.
(Imagens: Edward Hopper)

3 anos

Dia 24 de Novembro é a festa dos 3 anos do 31 da Armada. No Lollipop (LX Factory) às 22:30.
Sou pessoa para garantir que, à semelhança das anteriores, há-de ser uma grande festa.

Quinta-feira, Novembro 19

Bird On The Wire Leonard Cohen

E as manhãs, o que são?*

Descobri há pouco tempo que não conhecia as manhãs. Para as manhãs, nunca estou. Vou, regresso, corro, já com a luz posta, com a cidade em movimento em edíficios fechados. Quando as ruas se esvaziam e cada um toma o seu lugar, a manhã enche-se dos seus habitantes, gente com quem não me cruzo nas manhãs dos meus dias a néon e ar condicionado, que toma o espaço que os outros libertam, com um ritmo mais lento, com passo menos seguro e com mais tempo. São os idosos, os reformados nos correios com as notas, as facturas e as pensões, os casais nos bancos à procura de uma vida em casas sonhadas, as mulheres e os homens com impressos, sisas, obrigações, fichas de chamada nas finanças, uma geração de mulheres sem impostos e sem rendimentos, de alcofa e porta-moedas que percorre o mercado, ao peixe, à carne que há-de ter pronta à noite para os seus. Vejo-as chegar no 47, acordadas há muito, com o saco, o almoço, o avental, a bata, os sapatos para trocar, o carteiro a tocar às campainhas de casas vazias com contas a pagar, notícias e cartas timbradas. Sem farda, os cobradores tentam arrecadar as quotas, os fiscais fazem vistorias, os limpa-chaminés vão tentando a sua sorte e, lá ao longe, ainda se ouve o assobio do amolador. Nas zonas de comércio, há muito que os pedintes tomaram os seus lugares, os artesãos arrumaram a mercadoria e os homens dos retratos prepararam as tintas. O trânsito, condicionado e programado à força de sinais, tenta mexer-se, encaixar-se nas ruas estreitas das descargas e circular por entre o caos das avenidas na pressa para o escritório. Os arrumadores vão chegando pouco a pouco, acordando lentamente de ressacas sem fim, tentam as primeiras moedas para a dose do dia e junto aos semáforos, juntam-se o velho Borda d'Água e os novos jornais. São os tempos modernos. São estas manhãs que terminam quando as ruas se enchem de novo, de gente a correr, barulhenta, com horas marcadas, relógios de ponto e estômagos vazios. A estes conheço-os, ocupamos os mesmos espaços, caminhamos lado a lado, cruzamo-nos sem nos vermos e mais tarde, já quase sem luz vamos esvaziando as ruas e enchendo as estradas na viagem de volta. Até ao outro dia. Para mim, para eles, sem estas manhãs que não vemos.
*
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Texto editado, para a C.

Quarta-feira, Novembro 18

Do outro lado

Ensinam os genealogistas que se deve mencionar, no verso das fotografias, informação que permita, no futuro, identificar as imagens, ou seja, o local, os intervenientes, a data, a ocasião, etc.
São curiosas, as fotografias antigas, com o seu habitat natural em velhos álbuns, gavetas de cómodas ou caixas antigas. São, na maior parte das vezes, registos de momentos felizes ou simplesmente formais, onde se encontra um pouco de tudo, desde fotografias de estúdio com meninos vestidos de marinheiro, de carnaval, o fato da 1ª comunhão, o bebé gorducho com os refegos , até casais janotas em cadeiras compridas, qual dos dois com o bigode mais garboso.
Tal como agora, lá estão as fotografias ao lado da personalidade importante, influente, abastada, o presidente, o patrão, o senhor engenheiro ou o parente rico. Hoje chamam-se celebridades ou ronaldos, não desfazendo na carreira meritória dos jogadores de futebol nem nos grandes feitos e vidas gloriosas das pessoas conhecidas como "importantes".
Saídas das molduras, lá estão as fotografias dos homens fardados da família, em tempos de guerra, registos de locais e gentes exóticas, guardadas na esperança de até ao meu regresso. E claro está que não poderiam faltar as imagens perto de monumentos, à la minute, os casamentos, as férias, e os parentes afastados a quem perdemos o nome e o rasto.
Do outro lado, no verso, mãos zelosas registaram ocasiões para que não se perdessem nas recordações nem nas gavetas, como um teatrinho de escola. É nisto que o digital fica a perder, feito de caracteres normalizados sem mãos que acarinham as memórias.

Terça-feira, Novembro 17

Num vulcão perto de si

Assim ficou a terra quando a lava se cansou de correr para o mar.
Por aqui andou também a Rachel Welsh nos finais dos anos 60 a filmar o filme One Million Years B.C. Não sei se, passados tantos anos, seria uma boa ideia vê-la emergir das águas escuras, mas a qualquer momento pode surgir a Estátua da Liberdade como no Planeta dos Macacos.
Não me recordo de alguma vez ter visto tal filme, mas às horas tardias a que irá para o ar, não será a Rachel Welsh nem as dentuças de qualquer dinaussário que me tiram o sono.
(Lanzarote)

Domingo à tarde

Longe da política que me agasta e dos inflamados fracturantes cheios de "direitos fundamentais", fico-me com as palavras do Filipe Nunes Vicente sobre a felicidade , com a série"Uma questão de transportes", com o delicioso Saponáceo, tudo isto acompanhado ao piano com as fotografias do Jansenista.
Não fico mais animada, mas nem sempre a boa escrita tens fins recreativos.

Domingo, Novembro 15

Daniel Barenboim - Moonlight sonata - 1ºmov Adagio sostenuto Beethoven - Sonata No. 14 C sharp minor Op. 27 No. 2

Jacqueline du Pré: A Celebration of Her Unique & Enduring Gift

Sábado, Novembro 14

Coisas antigas

Valha-me Deus, mas esta louça ainda existe, ainda sobrevive ao fim de tanto tempo? Eram horríveis, aqueles armários de cozinha das cidades junto à fronteira, cheios de pyrex esverdeados e amarelos, fruto de um ingénuo contrabando com que os nacionais se entretinham aos fins de semana à míngua de outras diversões e da peseta barata.
Às vezes tento explicar aos mais novos, mas não conseguem compreender que a internet, as playstations e a Bershka nem sempre existiram. Não estranho. Já mulher, casada, voltei a alguns daqueles lugares, e faltavam-me sempre as palavras certas para explicar a alegria do passado que a escassez indígena nos provocava naqueles passeios de infância.
Durante anos, atazanei a minha mãe com traumas antigos que ela, sem contraditório e sem pestanejar, me causou até à idade adulta, obrigando-me a usar uns sapatos medonhos (caríssimos) que comprava em Espanha sempre que se aproximava o Inverno. Eu queria mocassins como os primos de Lisboa, mas o argumento era sempre o mesmo, que os meninos lá em baixo não apanhavam tanto frio. Deixa lá as galochas que isto não é a apanha da azeitona. Para me apaziguar, escolhia umas calças de ganga, um frasco de colónia da Puig e sabonetes pretos, de que não me recordo o nome. Os meninos compravam chumbinhos para a flober e davam-se por satisfeitos. No final do dia, havíamos todos de ir beber Coca-Colas como se não houvesse amanhãs e os adultos bebiam cerveja e petiscavam saladinhas deliciosas em balcões corridos, em locais onde entravam homens e mulheres. Sim, locais onde entravam homens e mulheres sem recriminação nem estigma. País da treta, o nosso.
Arrastada sem um ai para lojas de correeiros e de material de caça onde a língua nunca foi obstáculo, não via a hora de subir a escadas rolantes que me haveriam de levar à camisola exclusiva no liceu e ao êxito calculado na festa de garagem.
E foi assim, que durante anos a fio, as cozinhas das terras junto à fronteira se foram enchendo de garrafas La Casera (uma trampa de gasosa), pyrex variados, pimentão vermelho e condimentos para enchidos. A vizinhança agradecia as pantufas, os caramelos, o turrón (terrun, para os nacionais) e o brandy com o touro. Eu agradecia tudo, à excepção dos sapatos, e voltava sempre feliz.
Deixei estar a louça onde a encontrei. Suave contrabando, sobreviveu ao controlo da fronteira, a mudanças de casa, de mãos e há-de sobreviver assim nas minhas recordações.

Sexta-feira, Novembro 13

Entretanto, no Vida Breve, um dos meus blogs preferidos, vive-se assim:" O jardim do Palace Hotel Bussaco, antes de me etilizar com três gin-tónicos na varanda e de perder sem qualquer dignidade ao crapô."
Perante um gosto irrepreensível, sempre acreditei que não é a ideologia que separa as pessoas.

Larry David - Lemonade

Absolutely Cuckoo - 69 love songs Magnetic Fields

Quinta-feira, Novembro 12

Mas a "3ª via" teve o fim que se conhece

Porque leva um saco de bananas, perguntava um jornalista português em reportagem durante a Queda do Muro. "Para os meus filhos. Nunca viram bananas", foi a reposta do habitante de Berlim Oriental. É por estas e por outras que tenho dificuldade em compreender tantas hesitações e explicações titubeantes. Não sei porquê, mas recordo-me sempre de um sketch do Herman José no papel de Diácono Remédios com dificuldades em verbalizar a expressão "ver...melhos".

Nos documentários que têm passado recentemente nas televisões sobre os países de leste durante a Cortina de Ferro, antigas estrelas pop, fotógrafos, humoristas e escritores da antiga República Socialista da Checoslováquia descreveram a mentira e a hipocrisia em que todos pareciam estar envolvidos e explicaram como a retórica comunista, envolta em propaganda, era tão diferente da realidade.

Durante a Primavera de Praga, uma cidadã é acordada pela mãe: "Marta, fomos invadidos". "Mas invadidos por quem? Os americanos já cá estão. Porque querem invadir-nos?" Foi assim o começo da Operação Danúbio e do processo de normalização, em que o suicído de Jan Palach (imolado pelo fogo) viria a ser um símbolo da luta contra a repressão. As imagens de Václav Havel vigiado na sua própria casa deveriam transmitir alguma coisa, e que uma revolução, mesmo de veludo, implicou uma coragem mal silenciada de lutadores antigos. Da Roménia de Ceauşescu vimos imagens da destruição da cidade antiga para que o ditador pudesse realizar o seu megalómano Palácio do Parlamento, os relatos da inúmeras mortes de operários durante a sua construção, a paranóia de trazer gente dos campos para as cidades, desenraizando-as das suas origens e enfiando-as em casas absolutamente miseráveis, com escassez de alimentos e torturados pelas baixas temperaturas.E quando já nada havia para comer, visto que todos os bens alimentares eram exportados, sobravam os pés de porco, verdadeiros patriotas que não saíam do país. As derradeiras imagens deste casal de ditadores, repetidas vezes sem fim, mostravam uma Elena Ceauşescu (com mau cheiro, nas palavras do guarda) que gritava "Criei-vos como uma mãe". Bem vi, e nunca me hei-de esquecer, dos "seus filhos" deficientes abandonados como animais em instituições inqualificáveis. É por isso que não percebo quando os ouço defender um regime apascentado por esta gente canalha.

O camarada Dubček teria gostado

Good Bye, Lenin!

Era de noite e fazia frio, em 9 de Novembro de 1989. As imagens dos documentários mostram mares de gente a atravessar uma estreita fronteira física entre duas cidades que os homens dividiram para separar homens e ideologias. Era também à noite que se ouviam tiros junto ao muro que derrubavam quem o ousava passar. Era de noite quando milhares de berlinenses de leste sairam à rua depois de ouvirem, incrédulos, a informação saída do bolso de um dirigente confuso numa conferência de imprensa atabalhoada. As imagens que temos desses momentos não nos deviam deixar indiferentes e, por isso, tenho pena que os mais novos as troquem por patetices modernas em horário nobre. Se tivessem perguntado quem era aquela gente vestida de forma antiquada, saloia, pobre, em carros de plástico, ter-lhes-iam dito que houve tempos em que uma cortina de ferro dividia uma Europa que eles agora atravessam livremente. Quando visitei Berlim pela segunda vez após a queda do muro, estive no Cafe Sybille na austera Karl Marx Allee, à espera de encontrar alguma coisa de um tempo perdido, cuja memorabilia se vende agora na rua a turistas e colecionadores. Pareceu-me que o ar do tempo também já tinha passado por ali, como um modesto café da minha província, à espera do camartelo. Dizem-me que o Café Adler junto ao Checkpoint Charlie já fechou e pertence actualmente a uma rede local de cafés. Agora, só a sua memória nos livros, filmes e nas histórias de espionagem.

Por isto tudo, coisas minhas, recordei as caricatas cenas do filme "Goodbye Lenin" com a improvisação patética de um telejornal a incensar Erich Honecker, a estátua do Lenin a ser retirada, e o anúncio da Ikea nos cartazes da cidade. Foi também o começo de uma história de amor em tempos de liberdade, mas isso agora não importa nada.

When You are Old WHEN you are old and gray and full of sleep And nodding by the fire, take down this book, And slowly read, and dream of the soft look Your eyes had once, and of their shadows deep; How many loved your moments of glad grace, And loved your beauty with love false or true; But one man loved the pilgrim soul in you, And loved the sorrows of your changing face. And bending down beside the glowing bars, Murmur, a little sadly, how love fled And paced upon the mountains overhead, And hid his face amid a crowd of stars. William Butler Yeats

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Neste mês de Novembro, cheio de sombras no nosso calendário dos afectos, e em particular neste dia, um poema a quem não vimos envelhecer. A saudade que temos deles e a falta que nos fazem.

Segunda-feira, Novembro 9

Excepcionalmente, porque dia não é dia, este sujeito em ceroulas. Ainda hoje, uma unha encravada na vida e na cabeça de muita gente. .

Sábado, Novembro 7

Je suis perdue from JMC on Vimeo.

JE SUIS PERDUE por Gigi Gaston - video de Jean-Luc Godard Do Almocreve das Petas

Obrigada

Quinta-feira, Novembro 5

Magnetic Fields - I Don't Believe in the Sun

Coisas de amigos

Lá de bem longe, o Combustões do Miguel Falamos sempre de si.

Zarah Leander - Bitte an die Nacht (from "Damals")
Ao fundo da rua, Um amor atrevido Je Maintiendrai, a falta que faz

Terça-feira, Novembro 3

Diz m o q escreves

Depois de diversos manuais e dicionários para chat, SMS e e-mail, espanta-me q ainda ninguém (q eu saiba) se tenha debruçado sobre a morfologia, sintaxe, semântica ou mesmo sobre a smsologia das mensagens (tipo de letra usada nas comunicações).
Por exemplo, a mim agrada-me uma mensagem em que o autor usa vírgulas com os respectivos espaços, coloca correctamente o ponto de interrogação antes do ponto de exclamação e termina com um brioso ponto final.
Recorrendo a um corpus muito limitado e a meia dúzia de casos, visto não guardar as mensagens, estou convencida de que um sms com esta correcção sintáctica diz muito sobre quem os redige. Ou seja, o autor é uma criatura que escreve bem e demonstra alguma dificuldade em abandalhar a escrita mesmo num écran com caracteres limitados. Cuidadoso na construção morfo-sintáctica de um post-it, carta, comunicado, parecer ou artigo técnico, revela-se incapaz de abandonar os mínimos olímpicos exigidos numa mensagem de telemóvel, por isso lhe foge o dedo para os sinais de pontuação
Com este post, espero que os meus contactos mais despachados não me levem a mal. Apesar de nem todos serem perfeccionistas, não os julgo uns autores relapsos, longe de mim. Nestas coisas, a gente sabe que a semântica é tudo. São todos muito bem-vindos ao meu telemóvel, com ou sem vírgulas, de preferência com boas notícias e simpáticas novidades.
Quem recebe os meus sms pode julgar que tenho muitos "actos falhados", mas é mesmo só falta de óculos.
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Sem resposta

Muita gente, possuída de curiosidade internáutica, chega ao meu blog à procura de respostas para questões de grande densidade filosófica e intelectual tais como "video universitaria com a mini saia", "como costurar mini saia com pregas?", "torre de babel escavação", "coisas modernas", "estado de madrid,", "como emagrecer", "canas de pesca baratas" e até "calças de cintura descaida fazem deformam o corpo?"
Lamento muito, mas aqui não aprendem nada. Desgraçadamente, não sei fazer mini-sais, não tenho conhecimento de nenhuma universitária vítima de voyeurismo, se soubesse como emagracer estava milionária e magra, já tive o meu tempo de campanhas arqueológicas e não as tenciona repetir, Madrid estaria melhor sem o Zapa, de pesca nada sei, apesar de ter escrito sobre salmões e, por fim, esqueça as calças de cintura de descaída.
Move along, there's nothing to see here.

Domingo, Novembro 1

Meninos do campo, meninos da cidade

“Memoriais de Beira de Estrada”- Valter Vinagre
Fauré Requiem Introit Barenboim
"Estão caras as flores este ano", queixava-se uma matrona a uma vendedora de rua a fazer pela vida. Mas sempre comprou um ramo dos mais baratos, para o cemitério, explicou. Uma maçada, digo eu, tentando ler-lhe o pensamento, porventura injustamente, logo a ela, pertencente a uma derradeira geração que (ainda) se importa com as campas dos familiares. Mas também é possível que haja gente a queixar-se de que estão caras as flores, tanta despesa para uma simples homenagem a quem lhes deixou a horta, meia dúzia de oliveiras e que os ajudou, anos a fio, a pagar o empréstimo da casa com as poupanças da modesta reforma, os mal agradecidos.
Mas os meninos precisam de levar para a escola máscaras do halloween, disfarces de bruxa, fatos de esqueletos, camisas com caveiras, lindas ilustrações com gadanhas, fantasmas e gatos pretos. Deve ser para cima de um dinheirão, mas os meninos gostam. Divertem-se muito com uma ficção animada da morte que vem com os chupa-chupas. Um negócio recente que, em nome da alegria das criancinhas e do sossego dos pais, acabou por florescer.
Nada me move contra este folclore, mas lamento que se estejam a esquecer e a abandonar tradições profundamente enraízadas nos nossos meios rurais e que as novas gerações, muitas vezes afastadas das suas origens, já não as conheçam.
Vendo bem, o merchandising dos católicos é bem pobrezinho:singelas velas funerárias e um ramo de flores frescas ou secas as quais, no dizer da empregada da drogaria "duram um ano no cemitério". Fraco negócio. Flores horrendas. Bem explicava o Padre António Vieira nas suas pregações que "é a festa mais universal e a festa mais particular, a festa mais de todos e a festa mais de cada um", no "Sermão de Todos os Santos". Julgo que esteja fora de moda, sem barrete de feiticeiro nem vassoura de bruxo. Aos nossos mortos, àqueles a quem devemos mais do que a vida, "Dai-lhes Senhor o Eterno descanso, entre o Esplendor da Luz Perpétua".

Berlim (3)

Berlim (2)

Domingo à tarde (2)

Vasculhei a gaveta e nada: instrumento para descacar batatas, ralar o queijo, espremer o alho, o limão, tirar o meio do ananaz, descaroçar ginjas e há mesmo quem tenha alguém que lhe tire as grainhas das uvas. Não falo sequer de uma geringonça para descascar as castanhas ou as romãs, que isso seria pedir muito, mas não encontro nada apropriado para dar, nas castanhas, o corte necessário antes de irem para a panela ou para o forno.
Uma faca bem afiada seria o ideal e já experimentei. Se cortou a castanha não sei, mas o dedo esquartejado ainda o sinto. Ao contrário do que muitas mulheres pensam, o nosso corpo reaje ao calor do forno, às lâminas das facas de cozinha e às altas temperaturas do ferro de engomar. Não somos uma extensão das luvas térmicas nem do faqueiro de cozinha, é o que repito sempre que me arrisco, sem cuidado, a vencer as lâminas e o calor. A prova é que, na maior parte das vezes, o algodão não engana, literalmente.
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