Sábado, Outubro 31

Fim de tarde


(Sérgio Godinho - Com Um Brilhozinho Nos Olhos)
Não se lhe conhecia um namorado, uma paixão, um devaneio ou um desvario. Acostumei-me a vê-la sempre com a roupa entre o clássico e o antiquado, sapatos com o modelo de sempre, tacão médio e o cabelo com um corte, valha-nos Deus. Sempre que viajei no carro dela, encontrava sempre os mesmos cds, o Eros Ramazzotti e o Alejandro Sanz, mas curiosamente nunca lhe detectei ponta de nostalgia romântica. Como mulher de hábitos, acostumei-me a vê-la comer uma fatia de tarte de maçã com duas bolas de gelado e chá com dois pacotes de açucar. Sempre achei aquilo um exagero, mas ela ia sorrindo à medida que ia saboreando e também por isso a admirava.
Porém, naquela tarde, achei-a diferente. Não sei se seria pela camisa um nadinha mais desapertada, se pelo olhar. A verdade é que estava diferente. Quando pediu unicamente uma tarte sem gelado achei curioso, mas quando evitou o pacote de açucar no chá, pensei que ali havia caso.
Tocou o telefone e não pude deixar de ficar atenta. Atendeu e pelo olhar e pelo sorriso, percebia-se que não se tratava das habituais chamadas da mãe ou da irmãs. Ia balbuciando umas palavras curtas, mais trejeitos que sons. Fingindo-me destraída, prestei atenção às despedidas, que sempre achei matéria interessante:
"Às oito horas está óptimo. Na tua casa ou na minha?"


Goethe Garten- Weimar
Texto já editado, o qual me deu muito gosto escrever. Com uma dedicatória especial a quem, certamente, gostará de o ler, com as maiores felicidades.

Virginia Astley & David Sylvian - Some Small Hope

Sexta-feira, Outubro 30

NEIL DIAMOND - Mr.Bojangles

Do filme "O solista", do qual retirava, sem pestanejar, meia hora de cenas maçadoras.

Caixa amiga

Portrait de Caterina Sagredo Barbarigo par Rosalba Carriera
Fico muito satisfeita por me encherem de mimos, mas também veria com bons olhos se tanta gentileza viesse cheia de fantásticos euros, dólares ou libras, que não sou esquisita. Seja como for, agradeço às soluções Caixa Woman as palavras simpáticas: "AS MULHERES E OS BLOGS Quem são as mulheres portuguesas que blogam? Poucas, mas boas. Conheça os melhores blogs de mulheres feitos em Portugal Carla Hilário Quevedo anda por cá há muito tempo. A “dona” de Bomba Inteligente (http://bomba-inteligente.blogs.sapo.pt/) escreve na imprensa e é uma das mais reconhecidas bloggers nacionais. Entre as suas imagens de marca estão as variações sobre o tema “eu hoje acordei assim”, curtos posts compostos apenas por uma imagem sugestiva de um estado de espírito.
Também de estados de espírito se fazem os blogs "Miss Pearls" (http://misspearls.blogspot.com/), onde abundam as imagens, e, noutro sentido, "Fio de Prumo" (http://hsacaduracabral.blogspot.com/). Este último tem como autora Helena Sacadura Cabral, e apresenta-se num estilo sóbrio, minimal até, e intimista. A autora, reconhecida pelo grande público, não é ainda uma veterana dos blogs, mas escreve com regularidade, recuperando “estórias” e comentando a actualidade.
Voltando aos veteranos, um dos primeiros blogs no feminino a surgir em Portugal pertence a Rita Barata Silvério e chama-se "Rititi" (http://rititi.com/). O sucesso arrebatador que conseguiu desde o início fez com que do blog já tenha saído um livro, O Livro da Rititi, editado pela Oficina do Livro. Para terminar, Ana de Amsterdam (a blogar desde 2006), uma autora que comenta futebol, literatura, jornalismo, e o que calha. "

Quinta-feira, Outubro 29

ANA CAROLINA - GENTE HUMILDE

Onde é preciso morar

Disse-me a A.C., uma elegante estudiosa de manuscritos e da Harpers Bazaar, quando regressou de NY: "No Central Park, a olhar para Upper East Side em direcção aos prédios na 5ª Av."
Mais modesta, deixo o XVI ème para quem pode. Fico-me pelo Boulevard St Germain, com vistas para o rio e para o mundo. Aquela varanda poderia ser a minha.

Quarta-feira, Outubro 28

Um nome para cada coisa

Faltam as romãs, o sabor dos biscoitos e o cheiro do bolo de mel. Cada coisa tem o seu nome a minha saudade.

Peter, Paul and Mary - Leaving On A Jet Plane

Fora daqui

Place des Vosges
No 5º aniversário do Jansenista. Obrigada.
Exposition “Picasso et les maîtres” (Grand Palais)-Out. 2008 Montmartre Montmartre-1º atelier de Picasso Zurique-casa onde viveu LENIN "der Führer der russischen revolution"

Sarah Vaughan - Misty

Terça-feira, Outubro 27

Não desfazendo

Houve tempos em que esta era uma expressão de politesse. "A sua tia é uma santa mulher, não desfazendo", "o sr. Augusto sempre foi um homem prestável, não desfazendo". Como se diz agora, era uma fórmula dois em um: elogiava-se o ausente e passava-se a mão pelo pêlo ao nosso interlocutor, sem ofensa.
Devia ser simpático ouvir "a sua prima é muito bonita, não desfazendo, claro". Como se pudesse existir uma leve insinuação de que uma era deveras encantadora e a outra, um grande traste, não desfazendo. Não se ofendia ninguém. Pelo contrário, era uma forma lisonjeira de agradar mesmo que a sobrinha fosse uma megera, o patrão um miserável e a prima aparentada com a família Adams pelo lado do pai.
Na minha imaginação, "não desfazendo" implicava uma tonalidade de voz algo melosa, uma vénia, ou uma certa postura corporal reverencial. Sempre para não ofender, para não haver melindres, pois a sobrinha tinha fraca auto-estima, o patrão maus fígados e a prima guardava rancores calcinados pelo tempo. Não sei bem porquê, sempre a associei a um homem, mas os tempo eram outros, não era de bom tom a assertividade moderna nem os confrontos verbais medicados pelos psicólogos da actualidade. Ai o subconsciente, os demónios, a repressão familiar, os condicionamentos da religião, é só escolher. Poderia ser uma acto de cavalheirismo, mas igualmente de boa educação, sou uma exagerada.
No meu mais requintado cinismo, sempre acreditei que nem sempre de gentileza se tratava quando, de chapéu na mão ou voz melodiosa, se elogiavam as qualidades do ausente e se louvavam as virtudes do interlocutor, de preferência uma mulher. Vistas bem as coisas, a que propósito um homem tentaria agradar a um outro homem se não pela mais pura graxa, não desfazendo ? E lá estou eu, de novo, com os tiques modernos e a esquecer as relações de poder e as práticas de uma educação à moda antiga.
Anyway, fosse por cavalheirismo, educação ou um mero exercício de hipocrisia, não desfazendo, era uma expressão agradável. Nunca me disseram "O Einstein era um homem brilhante, ou a Eva Mendes é uma mullher lindíssima, não desfazendo", mas não se pode ter tudo e já sou do tempo do cavalheirismo em acelerada decadência.
É possível que ainda hoje se use esta expressão mas, não desfazendo, contém um tom jocoso que brinca com a sua utilização. "Para gozar", diz-se hoje. Uma laracha.
Nem sei bem porque me fui lembrar disto. Já em tempos escrevi sobre o estojo e o fumo. Talvez por ainda encontrar pessoas verdadeiramente gentis ou por me apetecer falar da hipocrisia. Para chata basto eu, não desfazendo.

Segunda-feira, Outubro 26

Manias! O mundo é velha cena ensanguentada, Coberta de remendos, picaresca; A vida é chula farsa assobiada, Ou selvagem tragédia romanesca. Eu sei um bom rapaz, -- hoje uma ossada, -- Que amava certa dama pedantesca, Perversíssima, esquálida e chagada, Mas cheia de jactância quixotesca. Aos domingos, a deia já rugosa, Concedia-lhe o braço, com preguiça, E o dengue, em atitude receosa, Na sujeição canina mais submissa, Levava na tremente mão nervosa, O livro com que a amante ia ouvir missa! Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'

Sábado, Outubro 24

Lisboa à tarde

Uma Lisboa cheia de sol e o Chiado cheio de gente. E eu aqui ralada com as barragens sem água e a lavoura a pedi-la.

Sexta-feira, Outubro 23

Memórias a P & B

A horas decentes, enquanto as televisões por canal aberto vão debitando novela após novela, só a RTP Memória nos pode valer. As séries à séria hão voltar um pouco mais tarde nos canais por cabo, mas entre um café e a vida em dia, nada como uma programação velhinha recheada de excelentes momentos de televisão. Bem sei que o MacGyver anda de novo no ar, mas venho de uma casa em que aquelas artimanhas, feitas de tanta bricolage, não eram muito apreciadas pela facção feminina, largamente maioritária.
Há uns dias, os adoradores de séries britânicas puderem voltar a ver a vida, obra e amores de Lord Nelson, em episódios relatados por personagens que o acompanharam tanto no mar como em terra. Uma dessas persongens era Frances, a legítima, considerada uma mulher fria e de pouca beleza. Foi a sua última carta dirigida ao marido que o Almirante devolveu com a indicação "Opened by mistake by Lord Nelson, but not read".
Numa das cenas finais, Frances, que se manteve reservada durante toda a sua existência, passeia de barco com Lord Byron, que vai remando no lago. É a ele que Fanny conta parte da sua vida com o Almirante. O poeta pergunta-lhe se houve alguma ocasião em que ela se tenha cruzado com Emma, a outra, cuja relação escandalosa com o seu marido teria feito correr rios e mares de tinta em revistas da especialidade.
Austera mas com alguma ironia, Fanny (creio que desempenhada por Anna Massey) respondeu-lhe que tinha ficado atrás dela no teatro e que, quando Emma se levantou, reparou que ela tinha o cabelo sujo, o que a tinha levado a interrogar-se como seria possível que Lord Nelson estivesse apaixonada por um mulher que não lavava o cabelo.
Eu ligo a estas coisas. São também destes momentos, simples pormenores, que se vai fazendo um final de tarde.

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Não sei se a série seria I Remember Nelson (1982)

Na moda de Verão (mesmo final)

Era dia de eleições e a Moda Lisboa terminou, para mim, mais cedo do que tinha previsto. Um pouco desanimada, regressei a casa sem ver o Miguel Vieira e sem grande entusiamo para festas. No entanto, por essa altura, e depois de tanto calor no espaço dos desfiles, já se tinha derretido a linda maquilhagem que a menina da L'Oréal me tinha feito, mas vamos ao que importa e igualmente importantes nestes eventos, são os intervalos entre os desfiles, ocasião para breves conversas, comentários, e algumas bebidas que simpáticos barmen nos proporcionam.
Para além das colecções, há um outro mundo, que vive nas revistas do coração, ao qual estou imune. É o frisson causado pelos flashes das máquinas, das entrevistas, de gente produzida para o efeito. Finalmente, já se começam a notar algumas rugas e os anos a passar em gente que demorou a envelhecer. Fiquei mais consolada. Já não sou só eu que ganhar cabelos branco, rugas e peso. Tenho é que ganhar para a clínica de estética, isso sim.
De ano para ano, vou tendo cada vez maior dificuldade em identificar as carinhas larocas que se sentavam à minha frente ou mesmo ao meu lado, como uma tontinha que me queria convencer de que aquele lugar estaria ocupado. Minha linda, sou "anónima", mas não sou parva, "tá bem?"
Mas lá vinham todas e todos, com as respectivas legendas, numa das revistas que fez a cobertura do evento. Até me pareciam mais engraçados nas fotografias do que ao vivo e a cores. Sabem-na toda. Sobre a minha presença, nem uma nesga de cabelos, nem um vislumbre num cantinho superior direito na penumbra. Nada. Estou confinada ao anonimato, nesta fugaz feira das vaidades.
Quando passava por mim uma criatura em cinzento prata e perante os meus comentários pouco fashionable, dizia-me um conhecido jornalista de um jornal satírico (o meu momento de glória), que o problema é a falta de excêntricos. É possível, mas à míngua de roupas Viven Westwood ou de vampiras góticas, qualquer trapinho mais exuberante era um pitéu para os fotógrafos ou para línguas mais viperinas. Mesmo quando essas figuras têm idade para ter juízo. E depois, não estávamos num desfile do Galliano, nem Cascais é NY, não sou sequer uma temível editora de moda, nem tenho nenhuma coluna de gossip na Fox News.
Um comentário final para as saias curtas com botas, uniforme que praticamente todas as meninas pareciam usar, e para os sapatos estilo Maria Antonieta. Alguém descobriu que o século XVIII era uma mina para os criadores de calçado. Vendo bem, só mesmo Versailles para inspirar tanta fantasia.
Mais uma vez os meus agradecimentos à organização, gente muito simpática e, quem sabe, até para o ano. Tenho que sair mais à noite.

Na moda de Verão (quase final)

Bem sei que este post é já requentado, ou melhor, friorento. Foi-se o sol com que se começou mais uma edição da Moda Lisboa em Cascais e escrevo com chuva, o vento lá fora, com os pés frios e com os joelhos desgraçados de tão doridos para inaugurar a estação invernosa. A culpa foi do saco do lixo, dos sapatos a derrapar, do guarda-chuva incompetente, de uma rajada maiorzinha e da água que não parava de cair. A culpa foi, portanto, minha e só minha, não foi do Estado nem do município, o que é pena. A esta hora já tinha insultado este mundo e o outro da minha miséria tratada a gelo e Betadine. Para a próxima, o lixo pode esperar. Por uma "aberta", claro.
Já me dispersei. Afinal este post era sobre o final da Moda Lisboa em Cascais. Para o ano há mais, mas de volta a Lisboa. Por lá, vai ficar o Estoril Fashion e este post fica mesmo assim.

Terça-feira, Outubro 13

Na moda de Verão (10)

Desfile Nuno Gama
Tenho pouco a dizer. Os rapazes eram bonitos, elegantes e até pareciam bem catitas com as calças cor-de-rosa, amarelas ou verde alface. Exctamente porque são bonitos, novos e elegantes, claro. Qualquer canastrão que se aventure a usar aquela roupa modernaça fica, no mínimo, com aspecto de palhaço. Mas quem sou eu para fazer estes comentários? Um conservadora que não aguenta homens de botines nem com aspecto de quem perde mais tempo do que eu em frente ao espelho?
As roupas com correntes, esburacadas, abertas, largas, podem ser até engraçadas, mas não são para todos. Já nem sequer falo dos calções de praia nem dos fatos de cerimónia, que não desdouravam nos prémios MTV. Seja como for, espero pelo Verão para os ver nas esplanadas da cidade ou em algum local mais fashion onde porventura eu ponha os pés.
Fico-me com os adereços coloridos, em forma de pássaro ou de cruz, que até a mim ficavam bem.

Na moda de Verão (9)

Na moda de Verão (8)

Desfile Pedro Pedro

Na moda de Verão (7)

Na moda de Verão (6)

Desfile Hello Kitty

Segunda-feira, Outubro 12

Maria Luisa

As mãos de minha mãe 8 anos de tanta saudade

Domingo, Outubro 11

Na moda de Verão (5)

Sem tempo para textos, ficam para já as fotografias. Brevemente, algumas palavras sobre tanta coisa.
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