Segunda-feira, Agosto 31

Os colas

Quase os ouvimos respirar atrás de nós de tão perto que se encontram. Fico possessa quando os sinto, os vejo e quase lhes ouço a respiração, praticamente colados a nós nas caixas, nos bancos, nos consultórios médicos, quer haja uma conversa banal ou alguma troca de informação pessoal entre nós e o nosso interlocutor. Há mesmo quem apoie os braços e o corpo nos balcões onde estamos a tratar das nossas vidas, gente que nos quer fazer companhia nas alegrias e nas chatices, assim nos débitos como nos créditos.
Não sei o que os impele na nossa direcção, se o medo de perder a vez, a curiosidade, a ansiedade ou simplesmente porque podem. Ali ficam à coca, a olhar para os nossos papéis, a ouvir ao que vimos, suspirando, rogando pragas por qualquer demora, rosnando entre dentes como forma de pressionar, apressar ou até para provocar a "solidariedade" dos que aguardam mais lá para trás.
Comigo não resulta. Nem nas filas dos balcões nem na estrada. Bem podem atirar-me luzes, buzinas, rosnadelas, suspiros lancinantes ou insultos disfarçados, tudo inútil. Não me impõem ritmos a que não sou obrigada, se bem que fico sempre compungida de dor por, involuntariamente, lhes estragar a média, prova de outra grande perícia manual, esse grande feito português.
Por isso, agrada-me aquele risco vermelho no chão que acautela as distâncias e garante a nossa privacidade. A malta resmunga na mesma, mas já não a ouvimos.

Domingo, Agosto 30

Um dia de sol

Sexta-feira, Agosto 28

Jamais

"Nevermore", diz o pássaro de Poe vindo das sombras da noite. Jamais, suspira a linda Charlotte de voz doce, enquanto o agente 007 garante "Never Say Never Again" embalado nos braços da Bassinger.
Por cá, o advérbio de tempo é bem menos poético e mais terra a terra, com discussões sobre terrenos para o aeroporto, não obstante soar a francês.
No entanto, jamais também dá nome a um blog onde se encontram alguns amigos com boa cabeça e boa escrita.

Um outro sol

Já se sente outro sol. São assim os finais de Agosto, fim de férias, outro aniversário, outra luz de fim de dia, já mais curto e sisudo como os tempos que aí vêm.
Sente-se um outro ar, que corre mais fresco nos corpos morenos que pedem abrigos, sacode-se a areia e já batem as portadas das janelas do vento que volta de novo.
É o fim de tempo que se quer livre, ligeiro, sem contratempos nem contrariedades. Ganham-se cores e forças para as velhas rotinas, amaldiçoadas e abençoadas, quando o corpo tem saúde e força para as vencer.
Fecham-se as cadeiras e guardam-se as lancheiras, é mais um ano que passa. O importante é voltar.

Quinta-feira, Agosto 27

"Las personas ligeras"

" (...) Y, sobre todo, tenían ciertas dosis de ingenuidad verdadera, algo hoy tan mal visto o poco apreciado. Lo que luce más es estar de vuelta de todo, mostrarse incrédulo, pensar mal de los demás y por supuesto practicar la maledicencia.(...)
Sí, yo he conocido y conozco a mujeres contentas de su mera existencia, de risa generosa y fácil, lo cual no quiere decir de risa tonta; dispuestas a ver el lado gracioso de las cosas en casi toda oportunidad.(...)
Casi todas las personas así que he conocido han sido, por otra parte, extremadamente inteligentes, aunque sin pretensiones: lo eran de forma natural y no necesitaban exhibirlo, ni recalcarlo, ni recibir aplausos por ello. Tampoco eran afanosas ni ansiosas, sino bastante contentadizas. Y desde luego carecían de resentimiento. Con personas así, o que participaban de algunos de sus rasgos, he mantenido las más interesantes y provechosas conversaciones. Personas así me han enseñado más que otras oficial y aparatosamente brillantes. Con personas así no he tenido jamás la sensación de perder el tiempo. He buscado su compañía en la medida de mis posibilidades, o en la medida en que ellas me han aceptado en su cercanía. Si son tal bendición, si tanto aligeran la pesadumbre, ¿por qué no están casi nunca donde podamos verlas, públicamente, en las televisiones? Seguramente porque las desdeñan y no quieren salir en ellas. Pero entonces, ¿por qué no hay más en la vida?"
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Texto recordado pelo Pedro Lomba no FB

Um video muito fraquinho para abrilhantar uma cançoneta fraquinha dedicada ao signo Virgem que, por acaso, merecia coisa melhor.
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(...) Virgo has to know the why the who what when and where (...)
I'll wipe and dust and empty while the party's in full swing everything right in its place and a place for everything(...)

Terça-feira, Agosto 18

Só boas notícias. Regressada dos vulcões e das praias azuis, os nossos governantes anunciam que estamos a sair da recessão técnica (não sei bem o que seja, mas não importa). Posto isto, vou novamente de férias.
Até já.

Bruno

Também me questionei como é que o Sasha teria encontrado um terrorista de verdade.
Hilariante: Sasha Baron Cohen explica a David Letterman como conseguiu entrevistar um terrorista islâmico em "Bruno"
Por mim, ficava melhor um nadinha bronzeado. Fora isso, nada dizer.

Segunda-feira, Agosto 17

De volta à blogoesfera

Antes de partir para férias, deixei o texto Os números do meu descontentamento que escrevi para o Jamais, um ‘blog' feito por apoiantes do Partido Social Democrata para as legislativas. Cada um escreve sobre o que melhor sabe ou o que mais lhe dói.
De longe, acompanhei um pouco o feito do 31 da Armada na Praça do Município. Mais que não fosse, deixou a nu a fragilidade da nossa segurança num local nevrálgico da cidade. A esta hora, a culpa já deve ter morrido solteira ou, velha gaiteira, passou de mão de mão.
Gostei muito deste texto da Sofia sobre o carácter estigmatizante e anti-social da tristeza. Recordou-me um outro que escrevi em tempos (com menos talento), também sobre a tristeza, essa grande maçada.
"A esquerda raivosa", um texto bem escrito do Duarte Calvão. É mesmo assim.

Outros ares

Suponho que seja já uma prática com algum tempo, as férias com pulseiras de plástico, pois vejo-as um pouco por todo o lado onde haja um resort (para rico ou remediado) ou um clube de férias e em diversas cores. Confesso a minha ignorância nesta matéria, pois dinheiro de plástico só mesmo os cartões, e mesmo assim, usados com moderação.

A ideia pode ser muito moderna e prática, mas não me convence. A verdade é que andam por aí, com os recuerdos nos pulsos. Haja alegria e pulseiras para trocos.

*

Estou assim de volta à super ocupação das beiras de estrada, onde germinam as vendas de atoalhados, bares manhosos, publicidade caótica, restaurantes com néons, carros nas curvas ou nas ciclovias e aos clássicos contentores do lixo. Não há quem tenha mão nisto. É assim o espaço público nacional: sempre mais cheio, mais alto e mais feio.

Thus Spoke Zarathustra - 2001 : A Space Odyssey

Mais do que imagens

Para além das olivinas e dos vulcões, a ilha está povoada de diabinhos, sapos (deconheço a razão porque não vi nenhum), figueiras, caranguejos albinos nas grutas (não vejo assim tão bem), palmeiras, cactos, formas tradicionais de cultivo e papagaios (só vi um). De assinalar os inefáveis camelos (umas boas dezenas) que passeiam pares de turistas tanto pelos terrenos de lava como pelas dunas da praia.
Ouve-se muito falar da crise (e sente-se), mas desconfio que os ventos secos e as águas quentes afastam o vírus que anda por aí nos espirros de muita gente. Até agora, febres altas, só mesmo a temperatura em Lisboa.
De resto, uma grande tranquilidade. Confesso que a ausência de portugueses (por onde andei), com os seus habituais "questionários", também ajudou.

Sábado, Agosto 15

Azul do céu

Em homenagem ao Dia Santo de hoje, uma imagem da Nuestra Señora de los Dolores que, segundo a lenda, salvou os habitantes de morrerem soterrados durante a violenta erupção vulcânica no séc. XVIII.
Talvez também tenha sido ela a conceder àquela ilha afortunada um azul lindo do céu. Ou do mar.

Sexta-feira, Agosto 14

Eles tiveram a sorte de ter o Cesar Manrique a estruturar a ilha a partir de 1974. Nós, desgraçadamente, ficámos com os patos bravos . De norte a sul, os estragos estão feitos.
Legislação apertada (habitações só com um piso pintadas a branco, etc.), a morfologia do solo, o clima, a preservação da fauna, as exigências da UNESCO e a herança de Manrique, impediram que fosse destruída a beleza natural da ilha, o seu maior património.

Cinza chumbo

Assim ficou a terra quando a lava se cansou de correr para o mar.
Por aqui andou também a Rachel Welsh nos finais dos anos 60 a filmar o filme One Million Years B.C. Não sei se actualmente seria uma boa ideia vê-la emergir das águas escuras, mas a qualquer momento pode surgir a Estátua da Liberdade como no filme Planeta dos Macacos.
Aqui começa também o roteiro do merchandising da ilha, com as pedrinhas verdes (olivinas) a abrilhantar tudo quanto seja colar, cinzeiro ou pisa-papéis.
À velocidade com que temos pago uma zurrapa a que chamam café expresso, a preços da 5ª Avenida, desconfio que nem um recuerdo levo para casa.

Quinta-feira, Agosto 13

Cinza chumbo

Boa tarde.
Pode, por favor, levar-me ao próximo vulcão?
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