Terça-feira, Maio 26

Segunda-feira, Maio 25

"Onde tudo é divino como convém ao real" *

Faz de conta. A Sarah Vaughn toca baixinho como convém nestes fins de tarde.
Sem folego, chego ao 4º trabalho de Hércules. Depois do Leão de Nemeia, da Hidra de Lerna, da Corça de Cerineia (outra versão diferente), agora o Javali de Arimanto. Contabilizando, a esta hora já enfreitei um leão, uma hidra, dois monstros, uma serpente com corpo de cachorro e nove cabeças, um enorme caranguejo, flechas envenenadas, uma corça com chifres de ouro e pés de bronze, já capturei vivo um temível javali depois de uma cansativa e tenaz perseguição e acabo de me esconder dentro de um caldeirão de bronze.
A mitologia consegue ser muito cansativa. Parece que, afinal, está tudo explicado nas estrelas e nas constelações mas uma ignara (como eu) deve ver-se grega para perceber estas coisas. Entretanto, desconfio que não chego ao palácio de Hades com o cão de três cabeças e eu própria já não tenho cabeça para tanta fantasia.
* Odysseus, de Sophia
(Texto re-editado)

Trabalhos

Agora sim. Podia começar o fim de semana.

Quinta-feira, Maio 21

Passaporte europeu

Quem me lê, sabe que este blog é muita coisa menos um blog sobre política. Quem me conhece, sabe que a minha guerra é outra, luta antiga com quase com dez anos, sem tréguas nem pacificação. Há muito que perdi o entusiamo pela política, ou melhor, pelos partidos ou, se quiserem, por muita gente que anda nos partidos e em particular no que sempre me revi. É curioso pensar que ainda sou de um tempo anterior aos pavilhões multi-usos, em que os comicíos fundacionais eram feitos em barracões de zinco, como os da minha cidade província e recordo-me como ouviamos aqueles homens e aquelas mulheres, em tempos de coragem, euforia e alegria. Com a graça de Deus, esse tempo desapareceu e deu lugar a outro, mais cínico, apetecível e tantas vezes lucrativo, que repudio e me desilude. Isto tudo a propósito do convite que me fizeram para escrever (ou tentar escrever) num blogue de apoio ao Paulo Rangel para as eleições europeias, ao qual acedi com gosto. Sublinho eleições europeias e Paulo Rangel porque é isso que me interessa de momento. Como referiu o Pedro Mexia na apresentação do livro "O estado do Estado", Rangel tem uma lucidez que lhe vem do estudo e não do entusiasmo. Isso agrada-me. Mas agradou-me mais ainda quando o autor do livro referiu algo como: "Estão aqui pessoas que conheço, mas fico mais feliz por não conhecer muita gente que aqui está." Pareceu-me um bom sinal haver gente como eu, que ali estive sem o conhecer e saí tão anonimamente como entrei. Desejo-lhe boa sorte e espero dele a sensatez e a sobriedade que os tempos exigem. Tenho portanto, aqui no meu blogue, um post sobre algo a que só vagamente lhe poderia chamar de política. Isso deve ser coisa que exige muita prática e, desgraçadamente, na maior parte das vezes, muita lata.

Quarta-feira, Maio 20

E também assim

Não têm sido dias fáceis e como diz Agustina, "todos temos costuras que não convém descoser"* e malhas puxadas, digo eu.
O caro Jansenista tem dias assim ilustrados com uma nota de dois mil e quinhentos reis: "A independência é a coisa mais difícil de conquistar, e a mais difícil de manter. Pergunto-me frequentemente se a condição de português não pressupõe a renúncia a esse luxo.(na foto, o valor do carácter de um português médio: uma nota de dois mil e quinhentos reis )".
Compreendo o que quer dizer com dias assim , assim, e assado.
* Bessa-Luis, Agustina - Aforismos, Lisboa: Guimarães, 1998. Pag. 203

Segunda-feira, Maio 18

Café com posts

Este blog encontra-se no Café Nicola numa tertúlia com o Paulo Rangel , o Carlos Coelho e muitos bloggers.
Sinto-me jurássica: já não conheço muito gente.
Acabei de de ouvir falar em doutrina cristã. Tem razão, o Rangel. Também me parece que há bastante inibição em falar das influências teológicas e religiosas no nosso pensamento político.
Já tomava um café.
A Maria João Marques comeu um pastel de nata por ela e pelo bebé.
Maria João -2; Isabel -0
(cont.)

Sábado, Maio 16

E também aqui, no meu blog.

Beatles - Penny Lane

Quinta-feira, Maio 14

Lindo serviço

"Na última década estes grandes gestores foram reis e senhores dos dinheiros do mundo, aplicando capitais alheios e gerando grandes lucros através de complicadas engenharias financeiras interplanetárias. Acontece que ninguém se lembrou de fiscalizar ou pedir uma auditoria ao milagre dos pães e dos peixes. Até que o engenho pifou.(...) E eles? Que é feito dos machos-alfa? Continuam agarrados à Blackberry de reunião em reunião, justificando investimentos e transferindo culpas para os investidores, de quem só cumpriam ordens. Mas se eu fosse um destes gurus, se eu dominasse tanta informação secreta, se eu acordasse todos os dias com a Bloomberg ligada ao cu, a estas alturas estaria invadida por uma imensa vergonha por não ter previsto esta crise, por ter sido incapaz de me antecipar ao fim da borbulha, por não ter questionado os ratings de algumas empresas, a credibilidade de uma série de fundos sedeados em paraísos fiscais ou rentabilidades que não se ajustavam à marcha da economia real. E o que é pior, sentir-me-ia tremendamente estúpida, quase tão ignorante como o senhor da mercearia que nunca leu o Financial Times na vida. Mas duvido que estes machos-alfa se sintam estúpidos, ignorantes, nabos ou envergonhados. A culpa, e esta é uma das máximas de qualquer gestor, é sempre do mercado."
Na imagem: Patacôncio, uma personagem da Disney injustamente esquecida, bem adequada para ilustrar o post. Para quem não sabe, Patacôncio herdou a fortuna do pai e tornou-se o segundo pato mais rico de Patópolis, seguido do Tio Patinhas. Ao contrário deste último, é um farsolas gastador que adora exibir a sua riqueza.

Quarta-feira, Maio 13

Um post também a cores

Nunca fui ao Brasil. Não sei explicar muito bem, mas irritava-me a conversa dos sucos na praia, das massagens, das aventuras em águas azuis, das T shirts que referiam quase sempre os mesmos locais e da publicidade que anunciava o paraíso a preços módicos. Quanto mais me falavam dos areais a perder de vista, dos bikinis baratos e dos fantásticos resorts junto ao mar, mais eu fugia para o interior da Europa onde existiam palácios papais, cemitérios celtas ou locais de revoluções. Pouco me falavam das cidades onde os charters não chegavam. Os resorts eram o ínicio e final de uma semana de corpos quentes, corridas de buggies e postais ilustrados.
Confesso que agora me arrependo. Devia ter ido em tempos de fartura. Possivelmente estaria agora aqui a escrever sobre as saudades daquelas praias maravilhosas, dos sumos, das massagens, das bebidas junto à piscina e dos souvenirs que enfeitam a secretária.
Há uns dias vi na televisão uma reportagem sobre a Madeira e Porto Santo, locais onde estive há muitos anos, agora praticamente irreconhecíveis. Fico espantada por me recordar de pormenores dessa viagem, dos locais por onde andei, do que comi e até do que bebi (muito). Lembro-me bem da simplicidade desses tempos sem as pressões do futuro, mas não me recordo daquele mar, ou melhor, da sensação naquela praia imensa. Custa-me não o ter guardado como quem guarda uma paisagem ou um especial momento de intimidade. A felicidade devia fazer dessas partidas.
A memória pode ser lixada, mas quando essas imagens a sépia são bem tratadas, guardadas em locais apropriados, sem visões fantasiosas nem cores retocadas, até dá para escrever um post. Por acaso, este é sobre o amor, se bem que não pareça.

Domingo, Maio 10

Seis anos a navegar

Ao Mar Salgado, os meus parabéns!
Fotog: Algures na Linha do Estoril

Quinta-feira, Maio 7

Ricas vidas

Confiserie Sprungli , Zurique, Outubro 2006

Através da montra, espreitei para o interior da Cartier. Tinham um ar sério, as senhoras sentadas à frente de empregados elegantes e de muitas caixas abertas. O dinheiro tem um dress code muito especial.

(Eu sabia que isto andava perdido algures por aqui, entre posts e fotografias)

(...)"Ser é, acima de tudo, ter (corrigindo Marx, o melhor seria dizer: também é ter). Se eu for feio, burro ou tímido, o simples facto de ter dinheiro torna-me capaz de atrair mulheres bonitas, de parecer in- teligente, de me apresentar confiante e próspero aos olhos dos outros. O dinheiro transforma as insuficiências do seu portador em virtudes que ele não possui naturalmente. Por isso, acrescenta Marx, o dinheiro distorce as qualidades como elas na realidade são. Onde pensávamos que existia estupidez, infidelidade, mau gosto e fealdade, passamos a ver mérito, fidelidade, bom gosto e perfeição. (...)" Karl Marx tinha razão e os partidos sabem-no!por Pedro Lomba no jornal i

Agenda da boa vida

Já há muito tempo que não recordava aqui a agenda da boa vida. Provavelmente, por ser cada vez mais um bem muito escasso...
O Henrique Raposo convida para o lançamento do seu livro "A caipirinha de Aron" amanhã às 18h, no auditório da Feira do Livro (na parte de baixo da Feira).
...
Colecção de Verão Matthew Williamson for H&M (no blog Mini-Saia)

36

Creio que um autocarro amarelo é uma novidade neste blog (leia-se diário pessoal). E novidade ainda maior sou eu dentro de um autocarro de percurso urbano. Dos outros, fujo como o diabo da cruz; há merdas (sim, a palavra é essa, outra novidade) de que não consigo fugir.
Por motivos pouco nobres, vi-me obrigada a utilizar este meio de transporte em detrimento do metropolitano, num destes dias encalorados. Que insensatez, dir-me-ão, mas seria uma falta de juízo ainda maior levar o carro para a Baixa.
Não é preciso ser muito inteligente para constatar que os utilizadores do metro e do autocarro têm características distintas, apesar de quase poder jurar ter ouvido um alto responsável garantir que sim senhor, que os públicos são os mesmos. Deve ser falta de prática de utilizador ou de estudos de gabinete.
Em primeiro lugar, uma palavra para o profissionalismo e aprumo dos condutores. Não sei como conseguem aguentar aqueles grupos de adolescente imbecis instalados nos últimos lugares, a gritar boçalidade e a incomodar quem não os quer ouvir. Horrível, o estado das ruas da cidade e as massagens forçadas que os passageiros têm que suportar. Não sei bem, mas aqueles autocarros devem ter sido construídos para cidade nórdicas onde o sol não abunda e as vias são bem tratadas.
Depois, tive oportunidade de voltar a ver os "Revisores". Um eficiente par destes profissionais ia solicitando o bilhete a cada um dos passageiros e parecia-me estar tudo dentro da legalidade até surgir uma senhora já idosa, com um título de transporte que não era válido. Não percebi bem o assunto porque sairam todos logo a seguir. Desconfio que ela não se deve ter livrado de uma olímpica multa. Por causa das coisas, não larguei o papelinho até final da viagem.
Uma hora e meia depois, fiz o percurso de regresso. Esperei de cada uma das vezes , mais de vinte minutos pelo transporte, num dos principais trajectos de atravessamento da cidade. Deve ser assim que querem tirar os carros da cidade, pensei eu, indignada com a demagogia do costume. No entanto, esta demora parecia não incomodar os restantes pasageiro, gente idosa com mais tempo e habituada a estes horários destrambelhados. Devem ter outras ralações.
Por fim, não sei se por falta de hábito ou se pela minha proverbial incompetência com tudo o que seja cartões de estacionamento ou do metro, a verdade é que o bilhete levou sumiço nas profundezas do meu saco, cuja busca durou praticamente todo o trajecto. Felizmente, não entrou nenhum Revisor para o ver e eu, até hoje, também nunca mais o vi.

Domingo, Maio 3

Sobe-e-desce numa tarde sol

A orchata podia estar mais fresca e mais amendoada, mas o quiosque não desdoura na Praça, numa cidade que merece equipamentos urbanos decentes.
Coitadas das meninas de pele rosada, em corrida para as farmácias, em busca de unguento que lhes refresque as sensíveis peles escaldadas de um sol a que não estão acostumadas. Exageram, com tanto decote e corpo a descoberto.
Muitas eram as línguas estrangeiras que se ouviam no sobe-e-desce entre a Baixa e o Chiado. Os portugueses, esses reconheciam-se pelos sacos de papel da marca de café em doses individuais, pelos vistos com vendas imunes à crise. "Ainda tenho 35 pessoas à minha frente", queixava-se um cliente provavelmente a ressacar do lote "golden surprise", variante que acabo de inventar.
Numa sombra, os cartazes anti-touradas pareciam não surtir efeito nos turistas peles-vermelhas, se bem que ainda consegui escutar uma ou duas arriscadas traduções. Mas por essa altura, já eu invejava as praias cheias de indígenas, com peles bronzeadas que haveria de cobiçar em dias de trabalho.
Termino com o creme para os móveis. O chocolate na Rua de Santa Justa vai ter que esperar.
Apenas tu Apenas tu me deste o alvoroço, ó minha mãe mudada para sempre - abençoada seja a dor do ventre que te sofreu para que um dia eu fosse. Senhora de alegrias e desgostos, flor de resignação e chama ardente iluminado amanhecer poente sob o sorrir brilhante do teu rosto: tu m'entregaste os cardos da jornada ingenuamente como quem bendiz e no meu sangue - incauta - confundiste o fel de agrados com prazer de mágoas, - na minha solidão aceita a rogo a prece nestes versos de conforto. António Salvado, in Gazeta do Interior, Ano X, nº 548, 24 de Junho 1999, pag. 2
(Recorte que encontrei por entre os papéis da minha mãe)

Sexta-feira, Maio 1

Fischer Z - The Worker 1979

"Provinciana?" yes, please

Há dias que não me importo, mas tem alturas que me aborrece o facto de o termo "provinciano" vir carregadinho de sentido pejorativo. Há qualificativos piores, bem sei, mas este diz-me alguma coisa.
Vejamos pois a definição de "provinciano": "Que é natural da província ou que na província tem a sua residência habitual; que não é da capital, cujas modas polidas ignora: "O ar provinciano de Brás fez crer aos curiosos que o homem, sendo patrício de Calisto, poderia esclarecê-lo cerca da criatura misteriosa"(Camilo, A Queda de um Anjo).
Mais do que os modos, é a linguagem que trai o "cristão novo" das cidades. Esse "branqueamento" das origens, tão indisfarçável quanto patético, é incapaz de esconder os travozinhos dos regionalismos ou especificidades da língua local. Um exemplo? Metam meia dúzia de beirões na mesma sala, daqueles que estão nas grandes cidades há anos, pois rapidamente hão-de trocar o coalho por coêlho, e irão todos [a] buscar um copo de água. Não é necessário recorrer a Aquilino Ribeiro. Os sons, o vocabulário e os regionalismos, estão lá para quem os quer ouvir. E sorrir. Ninguém espera que andem de ceira de verga nos braços, cântaro à cabeça, lenço atado ao pescoço, chapéu ou com o buço por arranjar. Esse monopólio pertence às "mulheres de Bragança", ridicularizadas na praça pública, depois de contribuirem anos a fio com o seu trabalho para a economia doméstica. Companheiras dos seus homens desde muito novas, foi a sua dedicação que permitiu aos respectivos machos terem uma vida melhor, ultrapassar as dificuldades, a poupar e manter a arca congeladora sempre cheia. Eles tornaram-se "empresários" de vícios caros com garrafas de espumante a preços milionários, elas esqueceram-se de se ver ao espelho e continuaram a trabalhar em casa, a tratar dos filhos e da criação.
Voltando ao provincianismo tal como o conheço, desconfio que o desprezo que os habitantes de Lisboa votam aos pequenos espaços verdes, aos passeios e às árvores, deve ser fundado em receios de alguma identificação com o meio rural, de onde, aliás, muitos são provenientes. A cidade deve tê-los aculturado pelo pior que o betão representa, tendo o automóvel assumido a forma moderna de deslocação em ruas onde os passeios não existiam.
É também curiosa a forma moderna de traduzir a antiga expressão "ir à terra". Conheço muito boa gente que ainda o diz mas, normalmente, vão à "aldeia". Deve ser coisa mais chique. Ir à terra é mais do que ir à aldeia. É na terra que estão as heranças dos nossos antepassados, sejam elas grandes ou pequenos olivais (geralmente abandonados), a casa e a horta "no povo" (ou seja, dentro da povoação) ao Deus dará. Não é preciso rever o final do filme "E tudo o vento levou" para perceber isto.
Esse receio de poder vir a ser considerado provinciano e a forma pejorativa que isso encerra, nada mais é que uma parolice, expressão usada igualmente para classificar quem não pertence à nossa tribo, tudo gente civilizada, culta, cosmopolita e polida. Tolices. O provincianismo nada ter a ver com o local onde se nasce, onde se viveu durante muito tempo, na forma de vestir ou de falar. O provincianismo está na tacanhez de espírito, nos tiques de tiranete que se vão adquirindo por deslumbramentos vários, na falta de mundo, de humildade, de nobreza de carácter, e na forma prepotente com se enxovalham os mais vulneráveis.
E depois, sejamos claros: essa idílica ideia de província, já não existe. Uma pequena cidade do interior com o carimbo do projecto Polis, cada vez se assemelha mais a outras pequenas cidades igualmente "modernizadas". Pouco a pouco vão perdendo as suas características e as suas principais mais-valias, ou seja, os seus antigos lugares de socialização inter-geracional, e as aldeias há muito que perderam os seus habitantes.
Aos dezoito anos, os meus pais, uns excelentíssimos provincianos, meteram nas mãos da filhas, umas obscuras provincianas, bilhetes de inter rail para irem ver o que ali não havia e saberem tratar da vida noutras paragens. A eles lhe devo a minha vontade de ver e conhecer o mundo. O "provincianismo" está nas cabeças de cada um, não está nos traços linguistícos distintivos mas na na postura afectada e possidónia com que o Herman José tão bem retratava no "Humor de Perdição", a mãe Maximiana vinda das berças, e a filha Pureza Madre de Deus Taixaira da Cunha, vulgo Marisol.
Anos e anos depois, trago ainda comigo o melhor e o pior do "provincianismo", traduzido perfeitamente em palavras, actos, acções e omissões. Uns estão à vista, outros nem por isso, mas cá andam ainda comigo e desconfio que os levo para a cova.
Humor de Perdição - Chegada de Maximiana
Sem falsas modéstias, transcrevo o post do Pedro Picoito no Cachimbo de Magritte:
"Ler, por favor, estes dois posts da Isabel Goulão. Agradeço-os porque devo muito a uma "doméstica": a minha Mãe. E porque, tando nascido em Lisboa, sou no fundo um provinciano. Era eu criança e o meu Pai, juiz de comarca, percorria o país dispensando a lei aos indígenas. Meridional de muitas gerações para quem a Finlândia começava em Alcobaça, conheci assim a Granja, Arouca e Ponta Delgada antes dos dez anos. Em 81, uma comissão de serviço trouxe-nos de novo à capital. Até hoje. Lisboa deslumbra-me, mas ficou-me sempre a nostalgia da província. Desconfio de lugares onde não se pode fazer a vida a pé e na província as coisas são o que deveriam ser. O ar cheira a ar, a terra cheira a terra, a noite é mesmo noite, o tempo é mesmo um rio que passa lentamente e sobretudo, ó meu Deus, sobretudo o silêncio tem qualquer coisa dentro e é não aquela muralha que se ergue contra os outros para defender um reino de que somos o rei e o único habitante. Um provinciano é alguém que lê o post da Isabel e se lembra do Padre António Vieira: "Nascer pequeno e morrer grande é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para nascimento e tantas para sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer, toda a terra"."
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